A cinco dias da entrega da chave do gabinete a seu sucessor, o prefeito Nilson Costa (sem partido) acredita que seu governo trabalhou para o bem comum. Foram seis anos de uma gestão que se notabilizou por improvisos administrativos e confrontos com a Câmara Municipal. No auge da crise política, Nilson teve seu mandato cassado.
Turrão e genioso, o prefeito nunca se importou em buscar aliados no Poder Legislativo e muito menos formar uma bancada que sustentasse seu governo. Ganhou inimigos de porte, que lhe renderam chamuscadas no campo político. Não se rendeu.
No balanço geral, Nilson avalia que fez o que pôde por Bauru; reclama do fim de várias taxas que, na sua análise, poderiam ter dado um rumo diferente a seu governo. Após entregar o comando da cidade a Tuga Angerami (PDT), ele vai pescar no Mato Grosso do Sul e decidir o seu futuro político. No silêncio de seu gabinete, no terceiro andar do Palácio das Cerejeiras, Nilson recebeu o Jornal da Cidade para a seguinte entrevista:
Jornal da Cidade - O senhor sempre sonhou em ser prefeito de Bauru e em 1996 decidiu ser vice de Izzo Filho. Era uma premonição de que havia uma chance de assumir o cargo?
Nilson Costa - Não, absolutamente. A minha idéia era de que a gente faria um governo de boas realizações. O primeiro mandato do Izzo tinha sido bem razoável à população, com pontos positivos. Quando ele me ofereceu uma participação no governo, eu optei pela Secretaria do Bem-Estar Social, onde eu poderia dar vazão ao meu impulso social. Assumi e fui leal ao Izzo durante esse período. Aguardei ser chamado para opinar e aconselhar. Mas depois, o governo dele enveredou por um caminho ruim através de pessoas que vieram de fora. Antes mesmo do episódio de cassação do Izzo, eu havia pedido o afastamento da secretaria por não concodar com os rumos da administração. Quando ocorreu o fato (a cassação), fui apanhado de surpresa. Tanto que fui chamado à tarde para assumir e na manhã seguinte já tive que começar a governar. Eu tinha, praticamente, dois ou três amigos. Foram pessoas que escolhi para começar o governo. Começamos a organizar o secretariado. Não tínhamos noção, nenhum planejamento de assumir naquela altura do calendário.
JC - Os discursos na posse do senhor, logo após a cassação de Izzo, pregavam um governo de coalizão na Câmara. O senhor acha que havia mesmo essa intenção por parte dos vereadores?
Nilson - Sim, mas dentro dos critérios que eu achava que seriam os ideais. Eu não podia governar me alienando. Não dá certo quando um governo se apresenta muito amplo, com participação partidária intensa. Tinha a obrigação de enxugar a máquina municipal. A Cohab tinha 354 funcionários. A Emdurb tinha 97 assessores de gabinete. Tinha a necessidade de sanear. E começei o saneamento. E seria impossível se tivéssemos uma amplitude de governo, com diversos partidos, porque sempre surgiria o deixa disso, o apaniguado desse ou daquele vereador. Isso tornaria impossível a tarefa.
JC - O senhor, naquela época, foi muito assediado por vereadores que desejavam cargos na administração?
Nilson - É, no início... É preciso que Bauru se lembre que assumi no final de 1998 e em 1999, quando realmente comecei a trabalhar, tinham sido canceladas as taxas. Nós não tínhamos mais a taxa de iluminação, dos bombeiros, a de viação - para tapar buracos - e muito menos a taxa sanitária, que seria para nós recolhermos o lixo. Então, comecei a governar em 1999 com um desfalque de mais de R$ 8 milhões na receita. Por aí já começou a manobra sutil de uma parte dos vereadores. Não quero culpar todos. Mas havia aquela parte dos pretensos amigos da cidade, que disfarçavam e por baixo do pano dificultavam a tramitação dos projetos. Não tivemos a oportunidade, como outros prefeitos tiveram, de agregar esses valores no IPTU. A Câmara não nos permitiu. Sempre procurei entrosamento com a Câmara porque fui vereador por dois mandatos. Eu conheço aquela Casa profundamente. Mas aí já havia o apetite dos que seriam candidatos dois anos depois, prefeitura, vereança, para deputado.
JC - Nas eleições municipais de 2000, a polarização inicial se deu entre os candidatos a prefeito Pedro Tobias e Tuga Angerami. Mas quem foi eleito prefeito foi o senhor. O Nilson Costa foi mesmo o azarão daquele pleito?
Nilson - Não. Eu dizia que no momento em que nós pudéssemos mostrar à população aquilo que estava sendo feito, e mostrar com sinceridade, nós teríamos a compreensão e o reconhecimento da população bauruense. Eu enfrentei todo o poder econômico e político. Fui candidato por um partido pequeno, o PPS. Não fosse a coligação com o PFL, eu não teria tempo na televisão para mostrar essas realizações. E não foi uma tarefa fácil. Eu não tinha também o apoio da mídia. Eu não era o candidato preferido dos meios de comunicação. Por razões que eu não fiz média, digamos assim. Mas procurei cumprir meu papel. Não é fácil você governar fazendo aquilo que é recomendável. Porque você contraria interesses. Mas se você também não governar contrariando interesses, não se consegue realizar aquilo que o povo deseja, que é a solução dos problemas básicos do município.
JC - Seus adversários afirmam que a inauguração da ponte do Mary Dota às vésperas da eleição favoreceu a sua reeleição.
Nilson - Discordo. Quem fala isso é porque quer encontrar um bode expiatório para a derrota.
JC - Mas a votação registrada nas urnas mostra que a diferença dos poucos mais de 1.000 votos em relação ao segundo colocado foi justamente no Mary Dota.
Nilson - Não. Eu tive maioria de votos. Fui o primeiro classificado em quase todos os bairros de Bauru. Eu perdi na área central para o Tuga Angerami. Ele teve mais votos no Centro da cidade e na zona sul. Mas não foi apenas no Mary Dota (que venci). Eu tive votação superior aos outros dois candidatos em quase todos os bairros, principalmente na periferia mais distante. E a ponte foi um elemento apenas. Nós entregamos. Houve tanta gente torcendo contra e amaldiçoando a ponte que ela sofreu um defeito.
JC - E foi logo depois que o senhor assumiu a prefeitura.
Nilson - Não, veja bem. As dificuldades que nós enfrentamos em relação à ponte, é preciso que se diga, partiram também desses vereadores do contra. Porque eles entraram, capitaneados pelo vereador Toninho Garmes, com uma ação popular. A partir daí, o Poder Judiciário passou a comandar a ponte. Nós não pudemos fazer o reparo na medida da necessidade. Nós tínhamos que obedecer uma escala feita pelo Poder Judiciário. Houve a designação de peritos que acompanharam e foram ditando as ações que poderíamos fazer. Com o problema da ponte até tentaram anular a eleição dizendo que eu a tinha inaugurado. E eu nem a inaugurei. A ponte foi aberta ao tráfego quando ficou pronta. Só fomos inaugurar a ponte do Mary Dota um ano depois, quando ela recebeu a denominação de Ayrton Senna.
JC - No segundo mandato, o senhor até esboçou um início de entrosamento com a Câmara. O vereador Milton Dota Jr. tentou articular, mas também se desencantou. Foram quatro anos de tumulto.
Nilson - Eu nunca tive maioria na Câmara. O Milton Dota foi eleito pelo PPS, um dos três que elegemos - ele, o Walter Costa e o Clemente. Como o Walter se apresentou como candidato à presidência da Câmara e ganhou a parada, logo o Dota se afastou e o Clemente se tornou meu inimigo político sem que eu tivesse provocado qualquer motivo para isso, a não ser o fato do Walter Costa ter vencido a eleição. Mas quem venceu a eleição foi o Walter e não eu. Era difícil derrotar o Walter porque ele tinha um bom trânsito entre os vereadores. De modo que eu nunca tive maioria. Em alguns momentos, alguns projetos de interesse público receberam votos da maioria dos vereadores.
JC - Sem articulação na Câmara, o senhor enfrentou Comissões Especiais de Inquérito e Processantes, uma delas lhe valeu a cassação do mandato.
Nilson - Eu fiquei inteiramente sujeito ao julgamento da mídia. Me crucificaram logo de início com o episódio do marmitex. O objetivo (do marmitex) era a prefeitura deixar de ter cozinha para fazer comida para servidor. Acho que a função do poder público é cuidar da educação, da saúde, meio ambiente. Não é montar cozinha, fazer restaurante e servir os servidores municipais. A idéia era nós terceirizarmos naquela época porque iria ficar mais barato. Acho até que haveria condições de servir melhor o servidor. Mas houve toda aquela atoada. Não chegou a ser aprovada a CEI porque quando se levantou a suspeita disse: não está aqui quem falou e vamos continuar com a cozinha e servindo comida para os servidores até que haja uma compreensão de que essas coisas não devem fazer parte do cotidiano dos prefeitos. Depois houve todo aquele espalhafato da merenda escolar. Foi demonstrado que não houve nenhum prejuízo para o município. A empresa que servia trabalhava há 20 anos em Bauru. Trabalhou para todos os prefeitos anteriores e entregou todo o produto objeto da desconfiança do vereador João Parreira e dos demais da oposição. Ele entregou 90 dias antes do prazo final de entrega dos produtos. Isso tudo ficou demonstrado. Apesar disso, a maioria da Câmara me cassou. E o Poder Judiciário restabeleceu a verdade.
JC - Seis meses depois de assumir a prefeitura, no início do segundo mandato, o senhor rompeu com o vice-prefeito Dudu Ranieri. O que realmente provocou essa decisão?
Nilson - Eu disse na época e repito hoje: Se eu não tivesse almoçado o vice-prefeito, ele teria me jantado. Isso porque havia um conluio em seqüência. Os vereadores adversários freqüentavam o DAE como se fosse a casa deles. E havia nesse episódio do marmitex a participação do DAE. Através da orientação do vice, havia uma informação que não era correta. Afirmou-se que o DAE poderia entregar as refeições (aos servidores) a preço inferior em relação àquele que fora apurado em pesquisa. Mas essa entrega não seria o marmitex quadriculado, não implicaria na entrega do produto e muito menos sobremesa. De modo que quando fizemos o acordo das eleições com o PFL, ficou combinado que o partido teria o DAE. Foi o que o Dudu Ranieri pediu. Terminada a eleição, entregamos o DAE de porta fechada. Em seguida, o presidente do DAE começou a demitir as pessoas do PPS, os amigos que tinham participado da eleição. Ele (Dudu) começou a fazer uma política de isolamento. E nitidamente preparando o terreno para impedir o prefeito. Não fosse isso e o Dudu Ranieri seria, se ele quisesse, candidato a deputado com o nosso apoio, seria o candidato a sucessão municipal agora. Ele seria a pessoa mais indicada, afinal, ele é o vice-prefeito. Mas ele foi muito aflito, afobado. A decisão também foi uma exigência dos vereadores que estavam conosco, que viam na ação do vice-prefeito uma sabotagem ao trabalho do prefeito.
JC - O senhor avalia que o vice-prefeito é uma pessoa geniosa, de difícil relacionamento?
Nilson - Até esse episódio eu nunca tinha tido um contato mais íntimo com o Ranieri. Até éramos pessoas tidas como amigas, nos cumprimentávamos, participávamos de realizações e nos demos bem durante a campanha. Agora, essa faceta apareceu e sem dúvida atrapalhou.
JC - Existe alguma chance de se restabelecer a amizade entre o senhor e ele?
Nilson - De minha parte, nunca invadi a privacidade dele. Tanto é que tenho um excelente relacionamento com a irmã do vice-prefeito e com os demais parentes dele.
JC - Seus adversários comparam a sua administração a uma tartaruga. Isso provoca revolta?
Nilson - Eu gostaria que as pessoas fizessem, de maneira neutra, confronto entre as várias administrações anteriores e a minha. Vão constatar que eu fui o prefeito que mais fez escolas, que mais reformou os núcleos de saúde, o Pronto-Socorro. As diversas unidades da saúde estão remodeladas, o Centro de Zoonoses. Trouxemos para Bauru o Samu 192. Poucos municípios tiveram a velocidade para conquistar esse benefício. E nós conseguimos, embora não sejamos do PT. Agora estamos pagando o abono aos diretores e professores do ensino fundamental. No esporte, conquistamos quatro títulos dos Jogos Regionais, que geralmente Bauru ficava em quarto ou quinto lugar. Em volume de canalização de galerias pluviais, nunca nenhuma administração fez o que fizemos. Graças ao contrato com as empresas de ônibus, feito por outorga e não por preço, conseguimos R$ 8,6 milhões usados para asfaltar a cidade. Nunca se fez tanto asfalto como fizemos. Aonde é que está a tartaruga?
Jorna da Cidade - O senhor sempre sonhou em ser prefeito de Bauru. O senhor se sente realizado e com a consciência tranqüila?
Nilson Costa - Me sinto, sim. Na infância ajudei meu pai como engraxate na barbearia dele, ajudei minha mãe entregando marmitas na pensão e estudei com dificuldades. Alguém que chega à Prefeitura de Bauru sem abdicar de seus princípios, de sua dignidade, acho que é uma dádiva muito grande de Deus que eu sei avaliar.
JC - A administração do senhor anunciou com muito alarde os investimentos do Grupo Savoy em Bauru, a ponto de se inaugurar uma pedra fundamental. E até hoje o projeto não decolou.
Nilson - É bom que se esclareça. O projeto não é uma iniciativa da administração política, mas da iniciativa privada. Nós só não tivemos o Savoy instalado, após a colocação da pedra fundamental, porque houve um grupo de detentores de lojas no Bauru Shooping que não concordou em assinar a liberação da área do estacionamento. Ainda agora há afirmações do senhor Hugo Salomone de empenho na resolução do problema. Ele continua empenhado em se instalar em Bauru. E ainda vai se instalar trazendo a iniciativa dele de cima para baixo, independentemente dos atuais detentores das lojas do shopping. Agora, se houver o entendimento, ocorrerá o agregamento. Se não chegar um sangue novo naquela área, de um shopping moderno e mais amplo, as possibilidades de sobrevivência do atual shopping não são muito boas.
JC - O senhor avalia que foi um erro político ter anunciado com tanto barulho que o investimento para a obra chegaria rápido?
Nilson - Olha, quando se falou que havia verba para o novo aeroporto, ninguém critica agora essas pessoas. E a verba não está disponível. O tratamento de esgoto: nós tínhamos praticamente pronto o contrato, data marcada para ir a Washington juntamente com mais quatro prefeitos paulistas para assinar o acordo que liberaria a verba para o tratamento do esgoto. E o governo federal fechou a torneira. Não autorizou a liberação dessa verba. Depois tivemos a garantia de que o financiamento da Caixa Econômica Federal sairia. Bauru era uma das cidades contempladas com R$ 51 milhões. Em todos os momentos recebemos essa garantia. Fomos a Brasília, ao Rio. Havia da parte da Caixa essa garantia. Estava tudo certo. De repente, a coisa degringolou. Ninguém se lembra de que a Câmara segurou esse pedido de autorização durante meses. Só liberou 48 horas antes do prazo de encerramento dos contratos e com emendas que inviabilizaram o projeto perante a Caixa Econômica Federal.
JC - Mas o senhor, pouco antes das eleições de outubro de 2000, assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público se comprometendo a fazer a obra no prazo de quatro anos. Alguns críticos acham, inclusive, que o senhor deveria ter avançado com a obra com recursos próprios.
Nilson - Muito foi feito. Isso foi publicado no jornal várias vezes, divulgado no rádio e na televisão. Você tem quilômetros de emissários prontos, uma série enorme de ações do DAE no sentido de possibilitar o tratamento de esgoto. Quando se diz que vai haver, agora, prazo de um ano para tratar o esgoto, isso é absolutamente impossível. Mesmo que a prefeitura tivesse os R$ 50 milhões na mão, levaria três anos para tratar o esgoto. É uma série de obras que demanda muito tempo. Demandam concorrências públicas internacionais. De modo que quando nós assinamos esse termo, era para fazermos o possível. E nós fizemos o possível. O que nos faltou foi dinheiro. Se alguém agora anunciar que vai tratar o esgoto e não tiver os recursos, não está dizendo a verdade.
JC - O senhor está deixando para seu sucessor duas grandes dívidas, parte delas acumulada durante a sua gestão: a da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e da Fundação de Previdência dos Municipiários, a Funprev. Faltou planejamento?
Nilson - Vamos analisá-las. A dívida da Funprev, o grosso, mais de R$ 30 milhões, não é do meu tempo. É uma dívida que já está até no nível judicial. Quando o Judiciário decidir essa pendência entre a prefeitura e o antigo Seprem, esse valor vai para precatórios. Quer dizer, não é dívida minha, vem lá de trás. Quando assumi, havia nos cofres do Seprem R$ 650 mil. Hoje, a Funprev tem nos seus cofres R$ 34 milhões. Tudo isso fruto de contribuição desta administração. Passamos um ano e meio contribuindo religiosamente na parte de empregado e empregador. Agora, quando houve a ampliação do valor a ser recolhido pela prefeitura de 10% para 14,5%, a administração não conseguiu continuar recolhendo porque não tinha recursos. A não ser que deixasse de pagar salário. Se é verdade que há uma dívida recente, ela é remanescente daquilo que nós não pudemos pagar.
JC - E a dívida com a CPFL?
Nilson - Por quê deixei de pagar a CPFL a partir de 1999? Porque a Câmara acabou com a taxa de iluminação. Como pagávamos a iluminação pública? Com o dinheiro arrecadado da população. Todos os prefeitos anteriores tiveram a taxa. Quando chegou o nosso governo, a Câmara cortou. Como eu iria pagar a taxa de iluminação pública e o atraso que encontrei de débitos com a CPFL de administrações anteriores, mais de R$ 5 milhões, e também mais o consumo mensal? Eu teria que recolher R$ 1,5 milhão por mês à CPFL. Continuei pagando o consumo normal, fiz um contrato com a CPFL desse atrasado e o paguei integralmente. Mas não pude pagar os vencimentos mensais da iluminação pública. É isso que está pendente. E quando manifestei o desejo de fazer um acordo, que achei que seria excelente para o município, que até trocava o índice de correção do IGPM pelo IPCA, com economia de R$ 1,8 milhão, e mais a troca de 5 mil lâmpadas de graça, mais o atendimento de 850 contratos que estão parados aí, tive que desistir disso porque queriam me prender. Se não querem que pague, melhor para mim. E que não se diga que foi falta de vontade política do prefeito de pagar. Não se diga que seria um mal acordo porque se for estudado de maneira neutra se verá que seria o melhor acordo dentre todas as prefeituras.
JC - A sua administração ficou bastante marcada por causa dos buracos no asfalto. O senhor não acha que faltou planejamento para cuidar desse problema?
Nilson - Não. O município tem 8 milhões de área carecendo de asfalto e outros 8 milhões asfaltados. Desses 8 milhões asfaltados há muito asfalto casquinha. Aquilo que se fazia em vésperas de eleição para pegar voto. Em alguns núcleos habitacionais, como o Nobuji Nagasawa, tivemos que recapear totalmente. No Jardim Ferraz, fizemos o mesmo. Lá não havia mais asfalto. A partir de 1 de janeiro, não serei mais eu o depositário das queixas dos buracos. Vamos ver como é que vai se conduzir a mídia, a oposição, em relação problema. Eu entendo que o futuro prefeito terá muitas dificuldades porque não basta dizer que vai tapar os buracos e asfaltar a periferia. Se você for fazer isso serão necessários dois orçamentos inteiros. E é claro que o problema será sanado ao longo de vários mandatos.
JC - Foram seis anos de administração com erros e acertos. Quais foram as decisões tomadas que o senhor, hoje, gostaria de voltar atrás?
Nilson - Duas coisas eu confesso que errei. Deveria ter consultado o Poder Legislativo. Uma foi o caso do marmitex. Mas me pareceu tão nítido o interesse público que acabei descuidando. O caso da CPFL é o outro. Eu entendi que como já havia feito um acordo em 1999, me parecia que isso se enquadrava naquela possibilidade. E o jurídico me deu essa garantia. Entendeu que poderia ser feito independente do Poder Legislativo. Mas deveria ter me resguardado. Deveria ter consultado a Câmara para dividir as responsabilidades. Foram dois afobamentos que cometi. De resto, acho que agi no interesse da cidade. Se errei, foi involuntariamente buscando o bem comum.
JC - Até quinta-feira o senhor terá que quitar mais uma parcela dos precatórios, de R$ 3 milhões. Caso isso não ocorra, o município perderá o benefício do parcelamento. A administração conseguirá saldar esse compromisso levando em consideração os bloqueios dos repasses?
Nilson - Pois é, a mídia em Bauru é muito aflita. Sempre se define: o prefeito não vai pagar o salário de novembro. E a gente paga o salário de novembro. O prefeito não vai distribuir o vale-compra porque não tem como pagar os supermercados. E aí nós distribuímos o vale-compra. Falaram que não iríamos pagar o 13.º salário. Pagamos. Aí surge o precatório. É uma coisa de cada vez. Não sou mágico para fabricar dinheiro. Nós tínhamos um planejamento financeiro perfeitamente de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, tanto que o Tribunal de Contas, no segundo semestre, emitiu um relatório dizendo que o município estava num bom caminho, com exceção da parte da Previdência. Todos os indicativos eram de que o município havia avançado no cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. E nós tínhamos um planejamento financeiro até 31 de dezembro, mas por volta de maio, junho, veio a decisão judicial bloqueando R$ 2,9 milhões do ICMS por força de um acordo infeliz de administração passada junto à Fepasa. E nós nos equilibramos. Tivemos até dificuldade de pagar salário. Quando chega dia 28, 29 de novembro, fomos surpreendidos com outra decisão de bloqueio, de R$ 3,5 milhões em favor da Rede Ferroviária Federal. Também por força desse malfadado viaduto que está aí com a dívida de R$ 40 milhões. Qual o planejamento que resiste a um fato fortuito como esse? Vamos tentar equilibrar cumprindo as tarefas. Se chegar em 30 de dezembro e pudermos pagar totalmente os precatórios, pagaremos. Se não pudermos, vamos pagar o que for possível, que é mais do que a maioria das prefeituras fez até hoje. Se não tivermos o total para pagamento de salário de janeiro, deixaremos em caixa todo o dinheiro disponível. Não estamos gastando nada que não seja essencial.
JC - Na época em que a dívida foi federalizada, o senhor avaliou que o município havia feito um bom negócio. Mas os juros são escorchantes e os valores cresceram assustadoramente. O senhor continua achando que foi um bom negócio?
Nilson - Eu avalio que se foi feito um péssimo negócio, então o Brasil fez um péssimo negócio. Porque quem negociou a dívida não fomos nós, foi o Banco do Brasil. Não negociou só em Bauru. Negociou no Brasil inteiro, com governos estaduais, municipais. Todo mundo está chiando, tendo dificuldades para pagar por causa do índice de correção, que é o IGP-M. Tínhamos uma dívida, na época, de R$ 23 milhões com o Chase Manhattan, vencível a curto prazo e que a qualquer momento poderia obter uma vitória judicial e chegar aqui e falar: “Eu quero o meu dinheiro na totalidade”. Nós alongamos essa dívida para ser paga em 30 anos. O juro e a correção que eram acima de 40% ao ano, se reduziram a 9% graças a esse acordo. Houve um abatimento de 30% no valor apresentado pelo Chase Manhattan. Apresentaram uma conta de R$ 31 milhões. Foi reduzida a R$ 23 milhões. Se isso é um mal negócio, o que seria um bom negócio? Esperar o Judiciário mandar o banco chegar aqui e se apropriar do dinheiro de pagamento de pessoal?
JC - O que o senhor deseja ao futuro prefeito de Bauru?
Nilson - Desejo aquilo que eu quis implantar desde o primeiro dia do meu governo: pacificação e trabalho. Não consegui ao longo dos seis anos, mas insisti nisso e, ao terminar o nosso mandato, encomendamos uma missa em ação de graças para agradecer a Deus porque nos deu inspiração, coragem e até inteligência para driblar a adversidades. Só temos a agradecer a Deus por nos permitir terminar o governo diante de tantas adversidades. Eu quero o melhor para o prefeito de Bauru, minha terra, terra dos meus filhos e dos meus netos. Não vou pensar politicamente em galgar posições no futuro, se eu tiver alguma pretensão, a custo do prejuízo do município.
JC - Já que o senhor tocou nesse assunto, qual é o seu destino político a partir de 1 de janeiro de 2005?
Nilson - Primeiro, vou pescar um pouco. Vou conhecer a fazenda do meu irmão, no Mato Grosso do Sul. Depois, pensar no futuro e ver se ainda vou fazer alguma coisa. Me julgo em condições ainda de produzir algo não exatamente na política, mas em favor da comunidade. Continuo empenhado em assegurar condições de sobrevivência ao Lar e Escola Rafael Maurício, que peguei num terreno alugado, péssimas condições, e hoje é uma das instituições mais sólidas de Bauru.
JC - Se o senhor tivesse que dar uma nota para a sua administração, qual seria?
Nilson - Não vou dar nota nenhuma. Porque se eu der nota vou me desculpar por todos os obstáculos encontrados pela frente. Não foi uma trajetória livre. É preciso lembrar que me despojaram das taxas. O município contava com dinheiro para tapar os buracos, que era a taxa de viação; para pagar a coleta do lixo; podia pagar a Força e Luz porque a população pagava a taxa de iluminação. Havia a taxa de sinistro, que pagava os bombeiros para que eles pudessem atender a cidade. A oposição agiu de maneira sorrateira. Você nunca viu um vereador de oposição deixar de meter uma emenda num projeto para ferrar o prefeito. Tivemos a lei do abono das prefessoras. Coisa que em todo município se votou pacificamente. Aqui não. Meteram uma emenda para causar dificuldade. A Câmara de Compensação Tarifária: convém ou não convém para o município se livrar de uma dívida de R$ 10 milhões? Ah, mas isso aí vai proporcionar uma prorrogação de contrato. Mas há tantas empresas com contratos prorrogados do transporte coletivo por aí afora, sem que levantem dúvidas. Então se eu tivesse encontrado um caminho livre diria que me dariam 9 ou 9,5 de nota, que não será favor nenhum. Mas com essas dificuldades, prefiro esperar que daqui a seis meses, um ano, a população diga a nota.