08 de julho de 2026
Bairros

Morador: 'Mudanças são gritantes'

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Não há como não perceber que estamos em período de férias. É o que afirmam moradores de bairros que têm seu dia-a-dia bastante modificado quando os jovens e as crianças da comunidade não estão na escola.

“Na periferia, de modo geral, o período de férias aumenta o movimento nos bairros. É tudo festa. Época de férias é isso para nós. Já começou a temporada”, afirma Diva Dias, presidente da Associação de Moradores do Jardim Solange.

Ela conta que os gritos e risos das crianças nas ruas indicam que a rotina do bairro está se modificando. “A molecada fica livre, na rua. A rua é o clube e é tudo para eles. A criançada fica no pé da gente para pegar as frutas do quintal. Nós já estamos acostumados com isso. Então o bairro fica mais movimentado. Porque viajar está difícil para todo mundo”, expõe Diva.

Em muitos locais de Bauru, férias também significam preocupação. Preocupação com a possibilidade de brigas ou acidentes nas ruas que, como a moradora confirmou, tornam-se os clubes das crianças.

“Muda muita coisa no período de férias. A rua fica mais movimentada. Mais do que o normal. Mas tem horas em que sai muita briga aqui. Em férias, a gente fica mais preocupado com as crianças porque tem muita violência nas ruas, e é lá que elas brincam”, argumenta Márcia Regina dos Santos, moradora do Jardim Ivone e mãe de seis filhos.

Júlio Evaristo, morador do Núcleo Fortunato Rocha Lima, concorda. “Eles brincam muito, mas falta segurança. Eles soltam pipa perto da rede elétrica e da rodovia. A gente fica meio preocupado porque pode ocorrer um acidente. E dá para perceber também a preocupação dos pais”, afirma.

Ele relembra que há cerca de sete meses um garoto estava soltando pipa no Parque Jaraguá, bairro vizinho, e morreu após ser atropelado por um carro. “Isso preocupa bastante a gente”, reforça.

Na opinião de Evaristo, toda essa preocupação decorre da falta de equipamentos públicos de lazer e de esportes nos bairros de periferia. “As crianças ficam mais na rua. Não tem uma área de lazer em que eles possam brincar de forma segura”, salienta.

Para sair para trabalhar mais tranqüilos, os pais muitas vezes têm de alterar suas rotinas deixando seus filhos com parentes ou conhecidos do bairro que possam ajudar a olhá-los.

“Muitas mães deixam os filhos com parentes ou com alguém que se prontifique a ajudar até que elas voltem do trabalho. Mas é uma coisa bem constrangedora. Isso acontece muito nas férias. Já quando eles estão estudando, eles saem da aula e voltam direto para casa”, explica Evaristo.

Eva Ribeiro, moradora do Jardim Ivone, também reclama da falta de opções de lazer para seus quatro filhos. “Não tem lugar para brincar. Tem a rua, mas passa muito carro. Tem o campo (improvisado), mas é cheio de lixo e cacos de vidro. Então eles têm de ficar trancados dentro de casa. Meus filhos só brincam na rua quando eu estou por perto”, frisa.

Mas ficar em casa também pode ser um problema. Principalmente para quem tem muitos filhos, como Eva. “Eles dão bastante trabalho em casa e atrapalham. A gente limpa a casa, coloca tudo no lugar. Eles quebram, sujam e às vezes fogem para a rua. A gente tem de ficar correndo atrás deles. É difícil”, revela.

“Às vezes, eles brigam porque os meninos querem pegar as bonecas das meninas e quebrar. E eu tenho que ficar apartando. Quando eles estão na rua com os primos, eles também brigam e a gente tem de separar”, acrescenta Eva.

Maria Pereira dos Santos, moradora da Pousada da Esperança, tem seu dia-a-dia alterado durante os meses de dezembro e janeiro. É que ela ajuda a cuidar de seu sobrinho de seis anos, Cristofer Silva, enquanto a mãe dele trabalha.

“Nas férias, com certeza a gente tem um pouco mais de trabalho. É uma preocupação a mais. Mas não chega a atrapalhar. Criança não atrapalha. Mas, para quem não gosta, pode ser diferente”, diz.

Já Maria Aparecida Lopes Filho, moradora do Jardim Ivone, sente-se incomodada coma gritaria das crianças na rua. “O barulho das crianças incomoda. Não deixa a gente sossegada. Ninguém tem sossego. Gente de idade tem que ter sossego. Eu queria que fosse mais tranqüilo o bairro, mas em dezembro e janeiro não tem jeito”, observa.

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Contraponto

Nem todos os bairros de Bauru são sensíveis às mudanças do período de férias escolares. Alguns, principalmente aqueles que têm baixa concentração de crianças, passam os meses de dezembro e janeiro como os demais do ano.

É o caso do Jardim Eldorado 1. De acordo com o morador Waldir Caso, as férias escolares passam praticamente desapercebidas porque há poucas crianças no local.

“No meu bairro, nós não temos muitas crianças porque é um núcleo habitacional que tem mais de 20 anos. O pessoal dificilmente muda daqui”, explica.

Portanto, pode-se dizer que, no Jardim Eldorado Eldorado 1, as férias escolares não modificam a rotina do bairro. “Não tem nenhuma alteração significativa no cotidiano do bairro. Não temos esse problema. O bairro é relativamente pequeno, moram cerca de mil pessoas”, justifica Caso.

As poucas crianças que moram nas imediações, segundo o morador, têm poucas alternativas de atividades de lazer, culturais e esportivas por falta de equipamentos públicos do gênero. A principal delas é o Programa de Escola da Família, que ficará fechado durante quase um mês entre dezembro e janeiro.