08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre Cláudia Araújo


| Tempo de leitura: 4 min

De mim se apoderou um sarcástico choque introspectivo, uma inércia estúpida de movimentos e pensamentos quando recebi a notícia da morte de uma garota em Bauru, na semana passada. Eu era embalado por idéias banais de supostas fúrias teológicas, cadenciadas por abrasivas comoções do meu ser. Enquanto um casal cumpria o ciclo natural das coisas, na famigerada história do nascer, crescer, conhecer um outro alguém, apaixonar-se, dar sentido à prole, envelhecer, tomar por conclusão a evolução e morrer - não necessariamente nessa ordem -, eis que a tragédia surge vestida sob o manto negro e taciturno da morte.

Aquela garota, enquanto apaixonava-se por seu namorado no banco traseiro de um carro qualquer, foi surpreendida por três homens armados. Até aí, nada surpreen dente para uma cidade do porte de Bauru, que há muito começa a mostrar sua face tristonha de cidade grande, com seus buracos e índices de criminalidade típicos de metrópoles (ou qualquer outra denominação dada a tais grandezas urbanas...). A idéia é que não passasse de um assalto qualquer. Mas a coisa teve uma conseqüência estrondosa - e odiosamente desastrosa, para quem ficou sabendo da situação posteriormente -, de uma estupidez homérica e sem sentido; chocante e extremamente vil. Um tiro em seu tórax levou sua vida, como se Deus fosse um menino que ganha um filhote de cachorro.

Que sociedade mais cruel, que gosta de mostrar suas garras pré-históricas e seus dentes de carnívoros carniceiros! Que morte tola, que vida desperdiçada, quantas vidas desperdiçadas, quantas lágrimas os anjos não derramaram, quantos talentos picados, queimados e jogados ribanceira abaixo, na lata do lixo, quanto pranto de pai, mãe, irmão e parentes! E fiquei a imaginar o desespero que não deve ter encarnado na alma daquela mãe, que, vendo a filha se formar em seu baile de formatura, recebe depois da sua morte o álbum, e a vê, linda como nunca a vira, agora se perdendo do mundo no próprio mundo, sem ter a quem recorrer, sem saber a que santo rezar, questionando-se sobre em qual estrutura do renascer deva se apoiar... A vida, nestas vielas escuras, é tratada como uma laranja objeto de malabarismo que cai ao chão e estoura para entrar em processo de decomposição.

E que pai não duvidaria da existência de Deus vendo as amigas íntimas da filha passando no vestibular e não estando ela lá para comemorar com ele a mesma vitória? Que irmão não ficaria estupefato de saber que a menina com quem conviveu toda a vida já não se encontra nas mesmas fraternais briguinhas bobas, muito menos nas reconciliações ainda mais bobas? Como a vida é espantosa! Dentro de um carro, sendo levada pelas juras doces dos namorados, numa rua escura repleta de vultos, ver a face da morte, assustadora, com sua foice em mãos, dizendo que é hora de partir... Paremos, bando de humanos sedentos de violência! A vida é mais que um caminho a percorrer. A vida é um mundo cheio de caminhos multifacetados, que apontam a todas as direções, na iminência de serem explorados e desvendados.

Viver para ver tanta gente como você mesmo, de carne e osso, despontar no sem-fim do universo é melancólico. Quem me dera se, com um texto como esse, eu pudesse penetrar na mente de todas as pessoas e deixar que elas sigam com a paz em todos os recônditos de seus cérebros e corações! Quem me dera se toda a benevolência existente na alma humana sobreviesse com a literatura que exponho!

Quem me dera se minhas palavras pudessem ressuscitar a menina que partiu e passar um ácido para corroer as lembranças acres desse acontecimento! Só me resta enfiar o carro dentro da garagem da minha própria casa, beijar minha namorada no aconchego do meu lar, fazendo, assim, com que meus estimados pais consigam deitar suas cabeças nos travesseiros e dormir sossegados. Foi-se o tempo em que os casais podiam passear de mãos dadas à luz do luar e trocar palavras de amor em plena madrugada amena! Infelizmente, entre as barras de segurança e as cercas elétricas das residências, moram, paradoxalmente, o medo e o desejo de um mundo pacífico em que nossos filhos possam viver dignamente, sem ter que inalar a fumaça sufocante da fobia de pisar fora de casa e proclamar: “seja o que Deus quiser”.

Guilherme Sandi Foganholo