Num artigo recente, publicado no jornal Valor (21/12/2004) procurei mostrar como o simples conhecimento da “teoria econômica das padarias†desmonta a “doutrina†segundo a qual “toda a vez que o volume da produção física se aproxima do limite da capacidade produtiva†é preciso aplicar um tratamento de choque, aumentando os juros para impedir a volta da inflação. Alguns economistas que trabalham para o governo vão mais longe e fixam o “teto†de 3,5% de expansão do PIB, pois qualquer coisa acima deste crescimento comprometerá a estabilidade da economia. O que eles acreditam que seja o máximo de sofisticação em matéria de política monetária não passa de puro masoquismo.
Ao longo de 2004, a sociedade brasileira ignorou esta “verdade científica†e a economia cresceu mais do que 5%, sem prejuízo da estabilidade. Não há nenhuma razão para que se ponha um freio no crescimento em 2005, insistindo num exercício que já foi reprovado várias vezes desde que se adotou a meta inflacionária. Longe de representar um risco real de inflação, a aproximação do volume de produção física ao “limite da capacidade do sistema produtivo†representa na verdade um estímulo ao investimento e, portanto, à continuidade do crescimento produtivo. Em um regime monetário com equilíbrio fiscal e endividamento público moderado, a taxa de juro real deve ajustar-se à manutenção da estabilidade, num regime de alta utilização dos fatores de produção. Quando a taxa de juros real é maior que a taxa de retorno dos investimentos, estes serão inibidos, com o que se reduz também o ritmo de aumento da “capacidade do sistema produtivo†e se retarda o crescimento futuro.
A “teoria econômica das padarias†que comentei no artigo citado, esclarece bem a questão. Ela ensina que o nível de investimento de hoje depende, simultâneamente, de duas condições: 1) que a produção de pão esteja hoje perto de sua “capacidade máximaâ€, ou seja, que o capital já instalado é insuficiente para atender ao aumento da demanda de pão de amanhã; 2) que quando a capacidade estiver instalada (amanhã), ela encontrará demanda depois de amanhã.
Em síntese: o investimento de hoje depende do crescimento de ontem e da expectativa (da “crençaâ€) que ele ampliará a capacidade produtiva do sistema econômico. Logo, quando a produção “atual†se aproxima da “produção potencialâ€, o risco não é desenvolver-se uma inflação de demanda, a não ser que o investimento e a capacidade de adaptação empresarial às novas circunstâncias sejam congelados.
A idéia que devemos limitar a taxa de crescimento ao “produto potencial estimadoâ€, que vem balizando nossa política monetária, revela-se uma armadilha mortal para o próprio crescimento do “produto potencialâ€, seja ele o que for... Quem nos livra da armadilha é o nosso empresário-padeiro que abre mais uma saca de farinha quando enxerga a demanda na prateleira e encomenda a nova máquina, porque ele sabe antes de todos nós quando é que é preciso adaptar a capacidade produtiva. Aproveito a data para agradecer aos leitores a paciência com que me toleraram em 2004 e desejar a todos e suas famílias um saudável e próspero Ano Novo. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP)