Cálculo de especialistas indicam que todos os dias ocorrem terremotos, numa média de um por minuto, mas é possível que o número seja maior. Apesar de serem afetados com maior freqüência, os abalos não estão restritos a países como Japão ou Estados Unidos. Ao contrário do que a maioria pensa, os brasileiros podem, sim, sentir o chão tremer a seus pés.
Uma pesquisa do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mapeou o território brasileiro e identificou 48 falhas geológicas mestras, locais onde “nascem†os terremotos. “Hoje, poderíamos acrescentar algumas outras a esse total, sem falar nas falhas secundáriasâ€, afirma o professor Allaoua Saadi, coordenador do trabalho. Segundo Saadi, a ausência de tais fenômenos no Brasil não se deve à interferência divina, mas a um conjunto de fatores resultantes do tipo de ocupação do País. Devido às grandes extensões territoriais, o Brasil, ainda hoje, tem áreas pouco habitadas. “E se não existe ninguém para relatar a ocorrência do tremor, ele passa a não existir.â€
Há algumas décadas, por exemplo, o modelo adotado por cientistas de todo o mundo pregava a existência de lugares estáveis, onde o risco de tremores era zero, e outros instáveis, sujeitos às consequências da movimentação de placas tectônicas. Hoje, no entanto, é aceitável dizer que não existem locais estáveis - tudo está se movendo.
Lei
A legislação atual obriga as empresas a realizarem uma avaliação do risco de sismicidade induzida antes de iniciar a construção de barragens. Isso porque a maioria dos rios cria seus leitos ao longo das falhas geológicas, zonas frágeis onde surgem os terremotos. Dessa forma, as chances de qualquer barragem estar localizada em cima de uma falha são grandes. A espessa coluna d’água cria tensão suplementar, e aquele tremor que só ocorreria em um século pode ser antecipado para daqui a alguns anos.
Além da avaliação, é necessário o monitoramento por meio de sismógrafos, aparelhos sensíveis que registram a oscilação do solo e permitem determinar localização e magnitude dos terremotos. A atividade de mineração também deve apresentar um plano de detonação que relacione carga, estrutura geológica e local da explosão.
A necessidade de conhecer a natureza, dinâmica, origem e evolução da crosta terrestre levou à criação de um projeto mundial para estudo dos terremotos. Instituído em 1980, o Programa Internacional da Litosfera funciona por intermédio de grupos de trabalho localizados em todos os continentes. O professor Saadi é o coordenador do trabalho no Brasil.
Localização
A fim de desenhar o mapa brasileiro, Saadi realizou várias viagens com a colaboração de colegas em Belém, Natal, Fortaleza e São Paulo. Em uma delas, foi de Manaus a Belém pelo Rio Amazonas em um barco do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Durante 20 dias, o grupo investigou as margens e identificou falhas na região. Para localizar as falhas, Saadi analisa primeiro cartas topográficas à procura de indicadores. Os rios são um exemplo, pois correm geralmente ao longo das fissuras. Outros recursos utilizados são imagens de satélite, fotografias aéreas e consulta à bibliografia já produzida sobre o tema. O resultado é um trabalho que aponta 48 falhas mestras, algumas com até 10 quilômetros de profundidade, a maioria concentrada no sudeste e no nordeste do país.
Cada uma das falhas identificadas pela equipe de Saadi está relacionada no site do IGC (www.igc.ufmg.br/hpgagea/inicio.htm) junto com características, probabilidade de movimentação e eventuais abalos relacionados a ela.