Quatro mãos, braços e pequenos objetos são os elementos básicos que dão vida à peça “Tropeço”, que será apresentada hoje, em Bauru, no Templo Bar.
Foi através do teatro de animação que o mímico Dico Ferreira e a bailarina e atriz Katiane Negrão conseguiram unir suas habilidades artísticas. “Como eu sou bailarina e ele é mímico, a gente juntou o corpo com a linguagem de teatro de animação e surgiu a nossa própria linguagem, que é sem bonecos, só física”, explica Katiane.
A criação da técnica baseada no movimento das mãos demandou uma pesquisa de dramaturgia física. “A gente trabalha muito com o não-verbal. A gente não usa palavras e a dramaturgia é toda construída através dos signos corporais mesmo, a partir do movimento”, acrescenta a bailarina.
Há um ano trabalhando juntos, o casal já se apresentou em Ouro Preto (MG) e rodou parte do Nordeste brasileiro com a peça, passando por cidades como Natal, João Pessoa, Recife, Maceió e Olinda. A praticidade de ter o próprio corpo como matéria-prima do trabalho ajudou durante a viagem. Além disso, a sonoplastia da peça é feita apenas de vocalizes ao vivo.
“A gente optou por não ter sonoplastia gravada e não ter iluminação para ser um trabalho fácil de viajar com ele. Pela praticidade. A gente viaja para qualquer lugar e pode apresentar o trabalho em qualquer lugar que tenha o mínimo de espaço. Essa foi uma das coisas que a gente priorizou”, frisa o paranaense Dico.
Interpretação
“Tropeço” conta a história de duas idosas. Retrata o cotidiano na velhice através de temas como a solidão. “A gente começa com a visão mais convencional que o pessoal tem da velhice. Depois, as velhinhas começam a dançar, se divertir, beber, brincar. A gente foge um pouco daquela visão estereotipada do idoso”, diz Katiane.
Outro tema abordado é a homossexualidade na terceira idade. Em função disso, o roteiro deixa dúvidas entre os espectadores que já eram esperadas pelos artistas. “O próprio espectador faz o roteiro dele de acordo com a sua visão de mundo mesmo. Se a pessoa tem um certo preconceito, quando elas começam com uma relação mais íntima, ela tira a idéia de que são duas velhas e colocam um casal. E a história segue do jeito que ela imaginou”, expõe o mímico.
“Quando a gente percebeu que seria assim, a gente chegou à conclusão que seria melhor assim. Porque, às vezes, o preconceito é tão forte que não sei se é bom ficar explícito. A gente assumiu a ambigüidade”, reforça Katiane.
No teatro de animação com as mãos, o improviso é um desafio. “Improvisar como ator é muito mais fácil. A gente teve de descobrir como improvisar com as mãos porque não tem um olhar direto. A gente não consegue se olhar, nem, olhar para o público. São as mãos que se olham”, explica Dico.
Na peça, os objetos ganham funções diferentes, dadas as dimensões do cenário. Assim, um porta-jóias vira um baú e xícaras de café tornam-se xícaras grandes. “Optamos por usar objetos pequenos, sem miniaturizar nada. Até porque o que é mais forte no trabalho é a interpretação das mãos. A gente não queria que virasse uma exposição de miniatura”, diz Dico.
Por ora, o casal está em Bauru, mas tem planos de em breve percorrer o Paraná com “Tropeço”. Posteriormente, devem voltar a Minas Gerais, onde Dico trabalha com uma companhia de teatro de animação e Katiane desenvolve trabalhos com dança. Num futuro próximo, eles pretendem estrear uma peça infantil utilizando a mesma linguagem, misturada a técnicas de sombra. “O que é mais forte para mim, agora, é o fato de eu estar apresentando em Bauru”, destaca a bauruense.
• Serviço
A peça tropeço será apresentada hoje, às 22h30, no Templo Bar. Outras informações podem ser obtidas através do telefone (14) 3223-3493.