O Brasil abre os horizontes de 2005 sob o signo do otimismo moderado. Ou, ainda, do pragmatismo responsável. Atitudes inconseqüentes, discursos ocos, promessas de futuro radiante e programas de feição demagógica perdem apelo no ideário coletivo. O pragmatismo pode não se aplicar de maneira homogênea às classes sociais, mas é visível a substituição da retórica do “país das futuras gerações” pelo presente imediato, com metas e objetivos ao alcance da vista. O brasileiro cordial, festivo, irreverente, displicente até pode continuar a “levantar a mão pro céu, agradecer e ser fiel ao destino que Deus (lhe) deu”, nos termos de Zeca Pagodinho, mas já não parece tão conformado com uma vida “aos trancos e barrancos”. Já no plano político, o País apresenta-se seguro, sem ameaças que possam romper o equilíbrio institucional, sendo naturais e previsíveis tensões rotineiras entre Poderes.
Sob esta moldura, Lula inicia o terceiro ano da gestão. Esquecendo o lema triunfalista “a esperança venceu o medo”, será compelido a ser menos messiânico na fraseologia para vender a grandiosidade dos feitos do governo e, vestindo o manto de governante assimilado pela sociedade, deixará de ser objeto de contemplação. Será cobrado com mais contundência. A lua-de-mel com o poder já foi gozada.. Urge reconhecer, porém, que, sob Lula, o País se tornou mais participativo, mais consciente de direitos e deveres e internacionalmente mais respeitado. Mudou a configuração de um dos mais injustos sistemas de distribuição de renda do mundo? Infelizmente, não.
Se não há mais medo em relação ao fator Lula, também não se pode dizer que a montanha de esperanças sociais conserva a mesma altura de antes. Assentado sobre sólidos eixos macroeconômicos, o País abre o ano sob o otimismo dos setores produtivos, mesmo que persistam situações críticas, algumas de alto teor explosivo. A trajetória escolhida pelo governo – cujo escopo se assemelha ao liberalismo social – é questionada por parcela dos petistas. Se não fechar questão em torno da política econômica e da abordagem social do governo, o vírus da corrosão do ente governamental será germinado no próprio corpo do PT.
Se o caminho econômico ganhou retas e planos firmes, a trilha social esteve todo o tempo torta. O governo pecou pela obstinação em aprofundar o assistencialismo populista, abusando daquela caridade obrigatória que, na acepção de Tocqueville, estimula a manutenção de indivíduos inertes na pobreza.
Na esfera política, os desafios para 2005 abrigam a necessidade de se formar uma agenda muito mais positiva. A instabilidade nas relações entre o Congresso e o Executivo, particularmente nas frentes de cooptação das bases governistas, meio governistas e oposicionistas, deverá ceder lugar a uma articulação ancorada em critérios sérios e coerentes. Na área das relações internacionais, o Brasil abriu novas frentes, fazendo até concessões de vulto (caso da China), no intuito de assegurar apoios para o pleito de um assento no Conselho de Segurança da ONU. Em 2005, o foco deve se voltar para o fortalecimento de relações com parceiros tradicionais.
Nos dois primeiros anos, Lula foi o maestro de uma orquestra desafinada. Pela habilidade pessoal, conseguiu driblar a atenção da platéia e receber aplausos para os músicos, mesmo que alguns tenham se apresentado bem desafinados. O desempenho administrativo do governo, em 2005, terá de ser exemplar. Ilhas de excelência cercadas por corpos amorfos e espaços completamente áridos constituem perigo para a ecologia do arquipélago.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político