09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Outro lado do Big Brother


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A TV Globo apresenta mais uma versão do programa “Big Brother” (Grande Irmão), que filma através de câmeras escondidas o que se passa dentro de uma residência temporária de pessoas que não se conheciam, criado com o objetivo da disputa individual entre os participantes. Diga-se de passagem que este tipo de programação tem sucesso de audiência pública garantida, mesmo porque em grande parte da nossa sociedade virou uma espécie de esporte nacional se interessar pela vida alheia.

A casa não tem comunicação com o mundo exterior e seus habitantes teatralmente disfarçam uma compreensível dificuldade de combater o tédio em seus pseudo-isolamentos relativos. O fascínio do público pelo conflito pessoal é interessante e a suposta ficção que nada mais é do que a realidade lá dentro e aqui fora aumenta o ego pessoal dos atores e o voyerismo da grande massa.

A emoção provocada pelo Big Brother é que o mal e os danos cometidos dentro da casa são absolutamente reais, embora em situações criadas. E prestamos atenção porque através do programa expressamos as vontades e não realizações, dos nossos sentimentos destrutivos. A extrema competição individual quando não há uma base de apoio social e a falta de solidariedade social torna o ser humano uma espécie de gladiador preparado até para exterminar o seu oponente. Quando o certo seria a competitividade democrática e o fraterno respeito aos adversários, ou melhor, concorrentes.

Na escolha dos participantes um bom observador vai perceber que o padrão é a corpolatria (culto excessivo ao corpo), e uma realidade social totalmente adversa ao qual vivem 70% da nossa população. Pra não dar muito na cara, sempre colocam um participante pobre e uma pessoa negra. Embora excepcionalmente uma empregada doméstica tenha levado o prêmio, normalmente o pobre é desclassificado no início e o negro ou a negra sai na metade, por alienação dos próprios e falta de consciência de raça dos negros brasileiros que hipocritamente reconhecem o racismo mas acostumam não aceitar a representatividade dos que sobressaem no seio da sociedade.

Todos nós temos que ter o ideal da auto-realização e cada indivíduo tem o direito moral de buscar seus próprios objetivos e sua realização. Mas da forma que o Big Brother expressa, esse processo está formando como um de seus efeitos colaterais, o enfraquecimento do convívio social, não apenas em relação aos impulsos e desejos sexuais, mas também em relação as disputas sociais destrutivas.

PS - Com os países do 1.º mundo fazendo um verdadeiro “concurso de beleza” para verem quem doa mais dólares e medicamentos para as vítimas do tsunami na Ásia, não dá para entender o esforço do governo brasileiro e de algumas pessoas em mandarem ajuda pra lá. Eles precisam ser ajudados, mas no entanto, aqui no Brasil tem 27 milhões de crianças e pessoas desnutridas e a nossa criminalidade mata o dobro das vítimas do maremoto em apenas um ano.

Pedro Valentim - RG 19.198.011-0