“Hoje É Dia de Maria”, que estréia hoje, na Globo, às 22h30, é uma microssérie de oito capítulos que inova na concepção cênica. Começa pela locação, uma tenda gigante (reaproveitada do Rock in Rio) em que foram implantados jardins e lavouras de trigo, e termina com os cenários e figurinos, compostos de materiais como papel e sucata.
Lia Renha, a cenógrafa, conta que a idéia da tenda surgiu por causa do formato do próprio mundo. “A gente não vê o mundo com quinas, então não podia ser um quadrado.”
Em uma das cenas, chamada de “homens de papel”, as roupas são feitas exatamente desse material. O autor da façanha é o estilista Jum Nakao, que levantou a última edição da São Paulo Fashion Week com seu desfile vanguardista em que as modelos vestiam-se de diversos tipos de papel e usavam perucas que imitavam as dos antigos bonecos Playmobil. “Uso o papel por causa dos inúmeros recursos que ele possui. É mais plástico e permite uma roupa com vida”, diz.
Além dessa cena, Nakao usou o papel para compor partes menores de outros figurinos de tecido, como o do personagem Asmodeu (o diabo). “Partes da roupa dele vão ser animadas, como se fossem tentáculos. Isso não permite que o personagem dissimule suas reais intenções, mesmo quando se finge de bonzinho”, explica o estilista.
Contudo, só papel não é suficiente para alcançar os efeitos cênicos desejados. Alguns efeitos de animação são usados conjuntamente, principalmente nas cenas do pássaro que acompanha a menina Maria. “A animação serve para deixar o movimento mais próximo da realidade”, conta Luiz Fernando Carvalho, o diretor.
Há, ainda, em cena, bonecos manipuláveis criados pelo tradicional grupo mineiro de teatro Giramundo. O artista plástico Raimundo Rodrigues montou uma série de peças nas quais utiliza sucatas. Dentre elas estão os cavalos de fibra de vidro - em tamanho real- que têm, em sua superfície, diversos tecidos e até marmitas de alumínio, entre outros materiais. “Para mim, são pedaços de sentimentos que as pessoas jogaram fora. Costumo dizer que tudo que não serve para os outros serve para mim”, diz o artista plástico.
O grupo mineiro é responsável pelos personagens Gralha da Morte, Jibóia e Dinossauro, além de outros “figurantes”.
Marcos Malafaia, diretor de planejamento do grupo, contou que o “namoro” do diretor da minissérie Luiz Fernando Carvalho com os bonecos do grupo tem mais de dez anos. A aproximação e os trabalhos para a minissérie, no entanto, só aconteceram em agosto do ano passado, quando demonstrou especial interesse pelos marionetes não-restaurados, mais precários e inacabados do acervo do grupo, e caiu de amores por um dinossauro de 1988.
“Foi o único boneco reaproveitado. É uma espécie de alucinação na história, mas uma alucinação do diretor. As referências da minissérie são muito específicas, com dois campos: o embasamento da cultura popular e da arte erudita, com mamulengos, bonecos rústicos, e Villa-Lobos e Portinari”, diz Malafaia, que cita duas fortes influências para a formação artística da minissérie.
O Giramundo é responsável também por um dos principais destaques da série: o par romântico de Maria adulta. O Pássaro Incomum, versão “Feitiço de Áquila” de Amado (Rodrigo Santoro), teve cinco protótipos antes de chegar ao boneco original, com 12 quilos e 20 fios.
Cultura
A minissérie também reúne cultura popular, folclore e brasilidade. Ela mostrará, em seu primeiro capítulo, a infância e a desgraça de Maria menina (Carolina Oliveira) que, depois do casamento do pai, fugirá de casa para se livrar da madrasta. Nos capítulos que seguem, terá sua infância roubada – quando virará Letícia Sabatella -, e percorrerá meio mundo de Brasil.
Em sua trajetória, Maria encontra o diabo e é acompanhada por um pássaro que vira humano à noite e por quem, mais velha, ela se apaixona. É uma versão popular da fábula universal da gata borralheira.
O dramaturgo Carlos Alberto Soffredini concebeu o texto inspirado em contos populares passados de geração a geração pela tradição oral e registrados em dois livros: “Contos Tradicionais do Brasil”, de Luís Câmara Cascudo, e “Contos Populares do Brasil”, de Silvio Romero. O autor costurou histórias que pertencem ao imaginário de um povo e fez um apanhado de personagens.