09 de julho de 2026
Articulistas

Os elefantes e os escaravelhos


| Tempo de leitura: 3 min

Os elefantes são animais extremamente inteligentes, admirados em diversas culturas, estando quase sempre associados à grandiosidade, à longevidade e à pureza. Em sua higiene, os elefantes produzem por indivíduo, em média, 150 quilos de estrume por dia. A natureza providenciou para que, no rastro deles, viessem os escaravelhos, que consomem gratuitamente os rejeitos dessa grande produção.

O comportamento dos escaravelhos, também conhecidos como “besouros rola-bosta”, é assim descrito por S. Olívio: “No meio do pasto, o velho escaravelho se arrasta entre as patas das vacas que, despreocupadas, pastam. Para ele, o pasto é terra de gigantes, porém, se arrisca em sua lida à procura de comida, feito uma miniatura de rinoceronte. Com seu chifre e casca dura, tem grande força e uma estranha compostura: cava buracos no campo, a sua casa, seu abrigo, e para dentro dele rola as bolas de excremento. Por isso tem apelido (parece até xingamento) de “rola” ou “vira-bosta”, graças ao seu comportamento. Mas se para nós é jocoso, indecente e causa nojo, para ele é profissão”.

E no mundo dos humanos: quem são os elefantes e quem são os escaravelhos? Antes de propor alguma resposta a esta pergunta vamos ao relato de três casos recentes:

Caso 1: Um cidadão trabalhava, desde abril de 2002, para uma empresa que presta serviços para uma empresa de telefonia, no cargo de atendente de informações do serviço 102. Em setembro de 2003, após atender uma ligação onde uma criança perguntava qual era o telefone do presidente Lula, o funcionário interrompeu a ligação, pois entendeu que se tratava de um “trote”. Naquele momento, a ligação estava sendo monitorada por um supervisor, que relatou o fato aos seus superiores. Com isso, a empresa encontrou motivos para dispensá-lo por justa causa, já que o trabalhador, naquela ocasião, deixou de seguir as normas de comportamento exigidas nesse tipo de situação. Você achou justa a decisão? O Tribunal Regional do Trabalho do Mato Grosso do Sul considerou que não.

Caso 2: Um falso e-mail sobre uma suposta campanha do governo federal para arrecadação de alimentos às vítimas do tsunamis na Ásia vem sendo divulgado por aí. Scammers e crackers estão se aproveitando da tragédia para roubar senhas de clientes de bancos. O e-mail vem com o título “Ajuda Internacional”. No corpo do e-mail, uma mensagem, assinada pelo ministro da Saúde brasileiro, induz o usuário a fazer o download de um formulário de doações que, na verdade, é um programa para roubar dados do computador.

Caso 3: Um inglês de 40 anos foi preso acusado de enviar falsos e-mails aos familiares e amigos das vítimas do maremoto na Ásia. Ele se passava por um funcionário do governo britânico e enviava às famílias falsas informações sobre a morte de seus parentes.

Minha breve resposta: enquanto a sociedade (os pequenos e grandes elefantes) busca produzir a informação, a tecnologia, o progresso, a sobrevivência, o desenvolvimento, a paz social etc, aqui significando a contribuição desde o trabalhador comum até os líderes de Estado, no rastro dessa produção estão aqueles que buscam ganhar com o atraso, com as tragédias, com a desinformação. São os hackers, os troteadores, os problemáticos, os divulgadores do “quanto pior melhor”, os especuladores etc (os escaravelhos) que vivem se alimentando do estrume gerado pelos limites das pessoas e instituições e pelas falhas no funcionamento das estrutura da sociedade humana. E você: qual é a sua resposta?

O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor da Universidade São Francisco