08 de julho de 2026
Geral

Mototaxista devolve carteira 'recheada'

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Sem nem mesmo saber que havia perdido a carteira com todos os documentos pessoais, cartões de crédito, talão de cheques e um cheque assinado no valor de R$ 1 mil, um microempresário de Bauru foi surpreendido, ontem pela manhã, com um telefonema do mototaxista José Luís Sapata, 43 anos, que o procurava para devolver a pasta.

“Só abri a carteira para procurar o telefone do dono e devolver. Achei um cartão dele, telefonei e ele apareceu para buscar”, conta Sapata, que afirma que em momento algum pensou em ficar com o bem perdido. “Não me sentiria bem se não entregasse. E sei o quanto é difícil perder documentos e ter que tirar tudo de novo”, frisa.

Preferindo não identificar-se, o microempresário atesta que nada foi retirado da carteira. “Poderiam até passar o cheque, mas estava tudo lá. Eu acho que esqueci a carteira em cima do capô do carro e ela caiu quando eu saí”, comenta ele, que já perdeu carteira anteriormente e igualmente achou. “Na primeira vez, a carteira estava com vários cheques e dinheiro e a recuperei com tudo. Já a carteira que eu achei e devolvi, só tinha documentos”, diz.

A atitude do mototaxista, inesperada para muitos, não é isolada. Na semana passada, o professor de tênis Júlio José Bonachela perdeu uma carteira com R$ 160,00 em dinheiro, todos os documentos pessoais e também teve a grata surpresa de ser procurado pelo frentista Fabrício Martins, 25 anos, que havia achado o bem.

“Eu estava de moto e acho que perdi a carteira ao passar por uma lombada. Quando percebi, como ainda era madrugada, fiz o caminho de volta e não achei. Estava dando por perdido quando o frentista ligou no meu trabalho dizendo que viu a carteira cair, a pegou e queria devolvê-la. Fui lá, estava tudo, inclusive o dinheiro, e ele não aceitou nem a gratificação que eu queria dar”, comenta.

Martins explica que não quis a gratificação oferecida porque entende que não fez mais que sua obrigação. “Há cerca de dois meses perdi meu celular. Liguei para o número e a moça que havia achado me devolveu. Então era isso também que eu tinha que fazer e fiz, sem esperar ganhar nada”, compara.

Bonachela, por sua vez, relata que também já achou carteira com documentos e procurou o dono para devolver. “Mas nem sempre é isso que ocorre. Tem gente que fica com o dinheiro e joga a carteira com os documentos”, pondera.

Em Bauru, todos os dias, entre dez a 15 documentos pessoais achados nas ruas são deixados nos Correios. “O documento mais freqüente aqui é o RG. Também aparecem carteiras com dinheiro, mas isso é mais raro”, relata Claudemir Aparecido Alexandre, supervisor dos Correios.

Ontem, havia cerca de 500 documentos perdidos à espera de retirada na Agência Central dos Correios em Bauru, localizada na Praça Dom Pedro e que concentra todos os objetos achados, de acordo com Alexandre. Além de documentos pessoais e carteiras, os Correios também recebem outros objetos perdidos, como óculos.

Alexandre conta que é feito um cadastro dos documentos e bens perdidos, que ficam à disposição para consulta. Mas a entrega só é feita se a pessoa comprovar - através de outro documento, de dados pessoais ou pela descrição do objeto - que o bem perdido a ela pertence. A taxa de resgate é de R$ 3,00.

Um dado curioso: é na segundas-feiras que os Correios recebem o maior número de objetos perdidos. “Chega a ser até 25% acima da média dos demais dias da semana”, conta Alexandre. Além das agências dos Correios, os carteiros nas ruas podem receber objetos perdidos.

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‘Devolver compensa mais’

Com rendimento mensal entre R$ 600,00 e R$ 800,00, o mototaxista José Luís Sapata afirma que devolver o bem achado, independentemente do valor, é sempre a melhor alternativa. Após receber R$ 20,00 de recompensa do dono da carteira achada, ele disse que voltaria para casa ontem com a certeza de ter tomada a decisão certa. “Devolver compensa mais”, diz.

JC - Alguém chegou a lhe questionar porque você não ficou com o cheque?

José Luís Sapata - Não, não comentei com ninguém sobre a carteira antes de devolver.

JC - E depois de devolvê-la, o que as pessoas comentaram com você sobre a carteira?

Sapata - O que todo mundo quer saber é se tinha dinheiro. Eu digo: “Eu nem olhei. Só abri a carteira para pegar telefone, endereço do dono”.

JC - É a primeira vez que você acha carteira e documentos nas ruas?

Sapata - Não, já achei várias vezes. Quando não encontro o dono, deixo na caixa dos Correios.