Uma pesquisa realizada com 500 motoristas da Capital de São Paulo no ano passado sugere quais são as principais razões de estresse e de comportamentos agressivos ao volante. O estudo ouviu homens e mulheres de diversas faixas etárias que conduzem seus veículos no mínimo três vezes por semana e foi desenvolvido pela psicóloga Gislene Maia de Macedo em sua tese de doutorado defendida no final de 2004 na Universidade de São Paulo (USP).
Ser “fechado” numa estrada lidera a lista do que mais incomoda, seguido por ter alguém dirigindo muito próximo ao seu pára-choque traseiro ou com farol alto e ter sua vaga “roubada” por outro veículo na espera para estacionar. Foram itens citados por mais de nove em cada dez motoristas.
Mas a pesquisa ressalta que os condutores também admitiram cometer “pecados” no trânsito. Exceder o limite de velocidade foi citado por 29% dos entrevistados e, diante do erro dos outros, 38% reconheceram reagir com hostilidade, como gestos e gritos, e 30% responderam utilizar a buzina. Por isso, em suas conclusões, Macedo relaciona a agressividade ao volante a comportamentos de risco e contradições dos mesmos motoristas.
O estudo constatou vários exemplos dessas situações. Quase 95% dos condutores disseram se irritar com quem fica muito perto do pára-choque traseiro do veículo, mas 26% admitem que também costumam “grudar” no carro da frente para forçá-lo a andar rápido ou a dar passagem. Outro “pecado” citado e cometido por 49% dos motoristas foi o fato de ultrapassar pela direita um veículo lento na faixa da esquerda.
Um outro aspecto da pesquisa apontou a falta de consciência em relação aos riscos de acidentes viários, que fazem mais de 30 mil mortos anualmente no País: 18% confessaram dirigir mesmo sabendo que ingeriram mais bebida alcoólica do que a quantidade permitida por lei.
Para a psicóloga bauruense Daniela Gibin Duarte, a presença do estresse é fato consumado atualmente no trânsito. “Quando o indivíduo entra no veículo, já carrega consigo as pressões do dia-a-dia, notadamente os problemas pessoais, familiares e profissionais. E o trânsito, com seus congestionamentos, ruas estreitas, pistas esburacadas e motoristas mal educados, só faz esta pressão aumentar, o que pode ser a gota d’água que faz o copo transbordar em um acidente de grandes proporções”, sustenta.
Entre as justificativas para os comportamentos agressivos ao volante, Duarte considera que, dentro de seus veículos, as pessoas sentem-se fortes e necessitam exteriorizar essa imagem. “Elas buscam no carro a auto-afirmação para compensar a insegurança e o sentimento de inferioridade”, avalia a psicóloga, que separa os motoristas em três níveis de estresse.
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Fases do estresse
Pressa, impaciência, termos pejorativos, palavrões, gesticulações, arrancadas bruscas, excesso de velocidade, uso constante da buzina e discussões são comportamentos considerados inadequados vistos com grande freqüência no trânsito e classificados como falta de educação, maluquice ou estupidez por muitas pessoas. “Não é o que pensam os profissionais psicólogos do trânsito”, salienta a psicóloga bauruense Daniela Gibin Duarte.
Ela alerta que tais atitudes, além de perigosas, são sintomas indicativos de estresse ao volante, que pode ser enquadrado em três fases: alarme, resistência e exaustão. A primeira é a mais “branda” e seus sintomas característicos são a ansiedade, aumento súbito de motivação, insônia situacional, desempenho irregular e perfeccionismo.
Já a de resistência é considerado o nível intermediário do estresse e costuma manifestar-se através de problemas de memória e atenção, sensação de flutuação, hipersensibilidade emotiva, irritabilidade excessiva e perda do senso de humor.
No entanto, é a de exaustão a mais perigosa. Caracterizada pela insônia ou excesso de sono, agressividade alta, apatia ou depressão, é nesta fase em que o motorista torna-se mais suscetível aos estímulos externos e vulnerável aos acidentes de trânsito. Duarte enfatiza que as pessoas nesse estágio mais avançado possuem insegurança de status, hiperagressividade, franca hostilidade e a “doença da pressa”, como os profissionais da área apelidaram.
“A insegurança de status representa as pessoas que possuem baixa auto-estima e precisam se auto-afirmar no trânsito. A hiperagressividade envolve um desejo de dominar a situação sem levar em consideração os sentimentos e direitos dos competidores ou oponentes. Já a franca hostilidade refere-se à fúria que se mostra com freqüência em resposta a acontecimentos triviais. E a doença da pressa deriva do desejo insaciável de apressar as atividades diárias e se envolver em várias atividades ao mesmo tempo”, ressalta a psicóloga