Os nomes que indicam as ruas de qualquer município revelam a história do lugar. Na frieza e objetividade estética e de informação, as placas remetem a personagens ilustres ou a pessoas menos conhecidas, todos com alguma importância para a cidade.
O jornalista e historiador bauruense Luciano Dias Pires guarda relatos de quem tem seu nome nas sinalizações das vias, num trabalho de recuperação da história.
A importância da pessoa pode ser medida pela repercussão do seu nome. Ele conta que quando alguém mencionava que precisava ir onde hoje é a rua Araújo Leite, na época em que a via não tinha denominação, era comum dizer simplesmente que ia na rua do Araújo Leite, local aonde o personagem residia e, atualmente, que tem seu nome estampado nas esquinas e listas de endereços.
Um que criou folclore em torno de seu nome foi o mineiro João Batista de Carvalho, comerciante que se estabeleceu em Bauru no século XIX. No livro Viagem Através das Ruas de Bauru, a pesquisadora Márcia Regina Nava Sobreira conta a passagem em que Batista de Carvalho teria expressado sua indignação com os nomes que eram dados às ruas de forma inovadora. Ele teria afixado na via em que morava e que ainda estava livre de denominação a placa com os dizeres “rua dos esquecidos”. Esta rua foi batizada com o nome de Batista de Carvalho.
A movimentação na Batista deu vida ao termo “batistar”, característico de Bauru e que nada mais é do que passear por esta rua. Outro que batizou com seu nome o local aonde residia foi Antônio Alves. Sobre o personagem, Pires comenta que foi o primeiro delegado de polícia da cidade, cargo exercido por longo tempo.
O abolicionista Antônio Silva Jardim cede seu nome a rua em Bauru sem ter uma relação de proximidade com a cidade. Uma tragédia marca a sua vida. Nava narra em sua publicação que ao visitar a cidade italiana de Pompéia, em 1891, foi conhecer o vulcão Vesúvio. No momento em que Silva Jardim chegou ao topo houve uma erupção que causou sua queda dentro do vulcão, onde desapareceu.
Políticos sempre são homenageados com seus nomes emplacados nas ruas, escolas e praças. Pires diz que Gerson França foi homenageado pela construção do primeiro prédio próprio da Câmara Municipal de Bauru, imóvel onde hoje é a Caixa Econômica Estadual de frente para a praça Rui Barbosa.
É comum denominar de marginal as vias largas e de circulação rápida de trânsito. Bauru quase teve sua marginal. Inicialmente, este seria o nome da avenida Nações Unidas. Pires relembra que a avenida foi obra de vários anos e alguns governos. Ele conta que a fase inicial foi na administração de Nicola Avalone Jr. (Nicolinha), que construiu até nas imediações de onde hoje é o prédio do Senac.
Mudança
Um fato marcante na denominação de ruas em Bauru é o costume de mudar o nome, inclusive com o despretígio quando se trata de uma pessoa.
Pires descreve que a avenida Rodrigues Alves antes era Alfredo Maia. Este personagem do século XIX foi engenheiro civil da Estrada de Ferro Central do Brasil, secretário da Agricultura, ministro e diretor da Estrada de Ferro Sorocabana. Em seu livro, Nava atribui a ele o feito de conquistar o prolongamento da ferrovia até o rio Paraná, infra-estrutura que colaborou para o surgimento e desenvolvimento de muitos municípios brasileiros. Hoje, Alfredo Maia cede seu nome a uma avenida na Vila Falcão.
A rua Agenor Meira é campeã das mudanças com pelo menos quatro denominações diferentes. Pires conta que era rua Liberdade, depois José Gomes Duarte e, ainda, Newton Prado.
Quem caminha da rua Bandeirantes à avenida Duque de Caxias ou pesquisa no mapa da cidade deve ficar, no mínimo, curioso pelo fato de duas ruas quebrarem uma seqüência estabelecida. A mudança só é percebida quando se pesquisa a origem dos nomes das vias. Planejou-se que ruas paralelas na área central homenageariam datas cívicas e personagens importantes do Brasil.
A seqüência de ruas paralelas do Centro em direção ao Altos da Cidade começa com a rua Bandeirantes, a próxima foi denominada, inicialmente, Inconfidência, e tempos depois alterada para Cussy Júnior.
Este personagem foi delegado de polícia e político em Bauru nas décadas de 20 e 30 do século passado.
A 7 de Setembro retoma a temática histórica, acompanhada pela 15 de Novembro. A rua Manoel Bento Cruz quebra novamente com a seqüência, que termina na avenida Duque de Caxias.
A rua Inconfidência ganhou outro endereço e foi parar na Vila Vergueiro, também próximo ao centro. Apenas na gestão de Osvaldo Sbeghen (1977-1982) foi criada uma lei proibindo a mudança do nome das ruas.
Heróis
Bauru não só reverencia os heróis nacionais nos nomes de ruas, como o Duque de Caxias, como também projeta os seus.
Um trio em especial se destaca pela participação na Revolução Constitucionalista de 1932. A morte em combate de Agenor Meira, Alfredo Ruiz e Rubens Arruda está narrada com detalhes no livro de Nava.
Algo interessante é como as pessoas utilizam diferentes mecanismos, não oficiais, para se localizar no emaranhado urbano. A rua Monsenhor Claro nem sempre teve este nome. Já foi rua Noroeste, mas era conhecida como “Santa Casa. A presença da instituição superava a referência oficial da rua. O mesmo acontece com a rua Araújo Leite, que é a primeira rua a receber uma denominação, entretanto costumava a ser chamada “rua da Telesp”. A Azarias Leite também é conhecida como “rua da delegacia”.
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Ocupação promove rua a ponto histórico
O jornalista e historiador Luciano Dias Pires lembra que nas décadas de 30 e 40 a esquina das ruas Rio Branco e Primeiro de Agosto era o point dos bauruenses. Numa esquina era o bar Cristal, da família Padilha, e onde mais recentemente estava instalado o Banco Bandeirantes. Do outro lado da rua, o bar Crivelli, imóvel hoje ocupado por uma lotérica. Do outro lado, a Gruta da Baiana, e tempos depois o bar e restaurante Fuentes.
Pires acrescenta que as proximidades desses bares era considerada a cinelândia, salas de cinema famosas. Havia o Cine Bauru, Cine Brasil, Cine Teatro São Paulo, Cine Bandeirantes, que depois foi transformado em Cine Capri. Nos arredores estavam instalados os salões de bilhar, com destaque para o do Neca, Central e São João. Um complexo de entretenimento onde a população fazia o “footing”, passeio a pé. Um costume que se pode comparar ao que acontece hoje nas badaladas avenidas Nações Unidas e Getúlio Vargas. A diferença é que, atualmente, o “footing” costuma ser de automóvel.
A rua Batista de Carvalho se marca pela tradição de abrigar as rodas de conversa, freqüentadas por políticos, assessores e afins. Pires relembra que nos anos 50 o ponto de encontro dos políticos era na esquina da Batista com a rua 13 de Maio. Na história recente de Bauru, um café na quadra 7 da Batista marcou época como ponto de acaloradas discussões políticas, entremeadas por um cafezinho.O ponto comercial fechou, entretanto os políticos, continuam a se reunir na Batista de Carvalho agora migraram para a quadra 6.
O historiador frisa que a rua Costa Ribeiro, atual Presidente Kennedy, era conhecida como “rua do pecado”, por concentrar as casas de prostituição, na época instaladas na região central.