09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A luta entre direito de viver e a ignorância


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Grandes avanços nas áreas de genética humana e biologia molecular vêm provocando mudanças significativas na medicina. Os últimos dez anos, em particular, marcaram a expansão do conhecimento sobre células-tronco. O valor dessas células e seu potencial no tratamento e cura de doenças está criando um novo paradigma para o futuro.

No entanto, as pesquisas com células-tronco são limitadas devido a barreiras legais impostas por algumas nações como é o caso de Brasil e Estados Unidos. Em nosso país, o Senado aprovou a pesquisa com células-tronco congeladas há mais de três anos. Quanto à clonagem terapêutica, esta ainda é ilegal. Já no país de George W. Bush, as células-tronco se transformaram em um dos principais temas de debate das eleições presidências do no passado. Bush opõe-se ao uso de embriões humanos como fonte de células-tronco. Por isso, não há financiamento do governo federal para as pesquisas.

Em países como Japão e Coréia do Sul, estudos com células embrionárias já estão sendo desenvolvidos. Ou seja, com o passar do tempo, maior será o número de técnicas patenteadas, o que vai dificultar muito o trabalho de países que atualmente mantêm proibições com relação a essas pesquisas.

Os estudos com células-tronco são tão requisitados porque no futuro, depois da dominação das técnicas, essas células podem servir de substitutas em tecidos lesionados ou doentes, como nos casos do Mal de Alzheimer, Parkinson e doenças neuromusculares em geral. Ou ainda, no lugar de células que o organismo deixa de produzir por alguma deficiência, como no caso do diabetes.

As células-tronco podem se diferenciar e constituir diferentes tecidos no organismo. Outra capacidade específica dessas células é a auto-replicação, ou seja, elas podem gerar cópias idênticas de si mesmas. No entanto, somente as células-tronco embrionárias têm poder de diferenciação “garantido”. Por isso, os embriões que seriam descartados por clínicas de fertilização assistida estão no centro da discussão, pois eles são fontes de células-tronco.

Outro método possível para a obtenção de células-tronco embrionárias seria a clonagem terapêutica. Este método consiste na transferência do núcleo de uma célula para um óvulo sem núcleo. Ao primeiro momento, pode haver uma confusão com a clonagem reprodutiva. Mas, apesar da semelhança da técnica empregada em ambos procedimentos, na clonagem terapêutica não há a transferência desse óvulo para um útero humano, portanto, não haveria possibilidade de reprodução. A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição, se o doador fosse a própria pessoa. Em 2004 cientistas coreanos anunciaram ter clonado embriões humanos, pela primeira vez, para a obtenção de células-tronco.

É justamente a clonagem terapêutica que está no centro de grandes discussões. Os dois principais argumentos contrários a este que poderia ser um enorme avanço da ciência são: a clonagem terapêutica iria abrir caminho para a clonagem reprodutiva e seria provável o surgimento de um comércio de óvulos e embriões. Para a primeira hipótese bastaria proibir a transferência do óvulo para um útero humano. Quanto ao comércio de óvulos e embriões, é a mesma situação que ocorre hoje com o comércio de órgãos. Qualquer tecnologia tem seus riscos e benefícios.

O que não pode haver é a proibição do desenvolvimento da ciência. Pois, devido à ignorância e à cega conduta de dogmas religiosos por alguns poucos, várias pessoas que sofrem de doenças degenerativas estão vendo sua esperança de cura ir por água abaixo. A sociedade não é canônica. Quem tiver objeções à tecnologia tem todo o direito de não usá-la, mas é inaceitável que se impeça que outros se beneficiem dela.

Lívia Maria de Souza é aluna de jornalismo da Unesp