Umas gotinhas para tirar a dor de cabeça, um comprimido para aliviar a dor muscular antes de dormir depois de um dia estressante, um efervescente para curar a azia – atacar o armário de remédios ao primeiro sinal de desconforto já se tornou um hábito mundo afora. O que poucas pessoas consideram é que mesmo os remédios mais comuns podem trazer problemas. Alguns deles, bem graves.
Produtos à base de ácido acetil-salicílico (Aspirina, Melhoral, AAS e muitos outros), por exemplo, estão entre os medicamentos mais vendidos e usados no mundo. Famoso por seu efeito analgésico, o princípio ativo também é freqüentemente prescrito para pacientes com problemas cardiovasculares, no intuito de prevenir a formação de coágulos sangüíneos em veias e artérias.
Diante de uma febre ou dor de cabeça, muitas pessoas tomam logo um desses comprimidos. O problema é que febre e dor de cabeça são sintomas de uma infinidade de doenças diferentes. Se a pessoa estiver contaminada pela dengue e ingerir essa substância, pode estar colocando a própria vida em risco.
Uma das características da dengue é causar hemorragias. Um dos efeitos do ácido acetilsalicílico é “afinar” o sangue. Se a pessoa estiver suscetível a uma hemorragia por causa da dengue e tomar o medicamento, a perda de sangue pode ser muito maior. E o controle da hemorragia torna-se muito mais difícil.
“Pessoas com suspeita de dengue, mulheres menstruadas, pessoas que passaram por cirurgia recente não devem ingerir essa droga, porque potencializa o risco de hemorragias”, acrescenta o farmacêutico Gilberto Fernandes, professor de química farmacêutica e bioquímica na Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru.
Ele cita outro exemplo de remédio comum, cujo uso indiscriminado pode ser prejudicial à saúde: aqueles à base de dipirona. “Essa substância causa uma alteração sangüínea (depressão na medula óssea) que inibe totalmente o sistema imunológico do indivíduo, ou seja, o organismo pára de produzir elementos de defesa. A pessoa pode morrer de um simples resfriado ou uma gripe comum”, lerta.
“Claro que isso vai depender de outros fatores - da resistência de cada um, da dose e freqüência em que ela ingere o medicamento, mas são situações previstas.
Tanto que, em muitos países, a dipirona é proibida. No Brasil, só agora começa a ser discutida a necessidade de prescrição médica para ela”, acrescenta.
Muito pior, segundo Fernandes, é tomar antibióticos por conta própria. É muito comum a criança ter uma infecção de garganta e os pais tratarem-na com o resto do antibiótico usado em outra infecção de garganta recente. Só que existem diversos grupos diferentes de bactérias e cada grupo responde a um tipo diferente de antibiótico.
Na prática, só o médico tem condições de avaliar a doença e indicar o melhor tratamento para cada caso. Além disso, o paciente precisa saber a dose que vai tomar, quantas vezes por dia, os melhores horários - são condições que interferem diretamente na eficácia dos medicamentos.
A ordem geral é só tomar remédios indicados por um médico e só sair do consultório depois de ter todas as dúvidas respondidas.
“Quando você toma um remédio, ocorre uma interação bioquímica com outras substâncias do organismo - enzimas, hormônios, proteínas. E essas reações podem desencadear efeitos colaterais e inúmeros transtornos”, completa Fernandes.