08 de julho de 2026
Ser

Muito além das ONGs

Rose Araújo
| Tempo de leitura: 6 min

Há quatro anos, a aposentada Dirce Lemes Guimarães lidera um movimento no seu condomínio em prol do espírito da boa vizinhança e da solidariedade. Ela procura incentivar os moradores a se aproximarem mais e a resgatar a amizade e a religiosidade entre eles. “Acho que o mundo está precisando disso. As pessoas têm de se aproximar umas das outras e cultivar o bom relacionamento”, diz.

E ela vai além disso: promove sempre que possível eventos no prédio com o intuito de arrecadar roupas e alimentos para serem doados a comunidades carentes.

No final do ano passado, por exemplo, ela conseguiu juntar 80 quilos de produtos não perecíveis, que foram encaminhados a instituições assistenciais da cidade. “Realizei uma missa no prédio e cada pessoa que participou levou sua doação”, destaca.

Esse tipo de união e colaboração dos moradores do condomínio aponta para um movimento muito maior e em expansão: o surgimento de um quarto setor na sociedade, representado por pequenos grupos de pessoas que se aproximam para promover bem-estar, qualidade de vida e harmonia da comunidade.

Isso ultrapassa o conceito de Organização Não-Governamental (ONG), que viveu seu auge na década de 90. Estas entidades cresceram e se institucionalizaram.

O psicoterapeuta Ricardo Mokdici salienta que o ser humano está vivendo um novo momento de sua existência. “Ele vem de um processo de egoísmo e individualismo que resultou em uma crise existencial geral”, salienta.

Isso está estimulando as pessoas a buscarem uma maneira diferente de encontrar a felicidade. “Hoje em dia, as pessoas estão percebendo que esse sentimento depende muito mais dos relacionamentos do que de bens materiais”, afirma o profissional.

Mokdici explica que encontrar esse eixo que permite uma vida harmônica e equilibrada depende tanto do ser em si quanto do grupo. “Não podemos confundir as coisas: a nossa felicidade não depende de outra pessoa, mas de nós mesmos. Mas, para poder desfrutar dessa felicidade é preciso estar inserido em um grupo”, explica.

Mesmo tendo à mão todas as ferramentas que permitem viver isolado do resto da sociedade, o homem não alcança a realização. “Viver trancado em casa ou no seu próprio mundo não satisfaz, não garante qualidade de vida”, diz o psicoterapeuta.

Por isso, é cada vez mais comum observar a formação de pequenos grupos que visam um bem coletivo.

E isso está ocorrendo até mesmo na Internet. Prova disso é que o site que mais faz sucesso no momento é o orkut (www.orkut.com), um instrumento usado para criar comunidades e promover o relacionamento entre as pessoas.

Gratificação

No condomínio administrado por Dirce, o clima de amizade entre os moradores está fazendo com que o dia-a-dia seja muito mais leve e gratificante para as pessoas. “Hoje em dia, todo o mundo tem uma rotina estressante. Então, é preciso arrumar um tempo para o amor. Nós procuramos cultivar isso no condomínio”, diz a aposentada.

Mesmo sendo evangélica, ela reuniu os seus vizinhos em uma missa realizada no salão de festas do prédio no final do ano. Praticamente todos os moradores marcaram presença.

Semanalmente, ela diz que realiza encontro para orações e bate-papo. Duas vezes por ano, realiza uma festa entre os moradores, na qual são arrecadados alimentos e roupas para serem doados para as comunidades carentes. “Tem um grupo de senhoras que faz artesanato. Em julho, a gente vende os produtos e o montante arrecadado serve para comprar agasalhos para distribuir entre os mais necessitados”, salienta.

O advogado Tibúrcio de Mattos, morador do condomínio, diz que essa união traz conforto espiritual e é gratificante. “A relação entre os vizinhos é muito melhor dessa maneira. Isso faz com que nosso dia-a-dia fique muito mais agradável”, destaca.

Segundo ele, essa proximidade garante uma troca maior de afeto e amizade entre as pessoas, algo que faz muita falta hoje em dia.

No trabalho

Esse retorno ao conceito de comunidade não está nascendo apenas entre a vizinhança. No local de trabalho, é comum encontrar hoje em dia pequenos grupos voltados a um bem comum.

O incentivo às ações sociais está enraizando entre as corporações e “contaminando” os funcionários, que criam a consciência de que um é mais do que dois e que a força de uma equipe pode garantir uma vida melhor para todos.

A Editora Alto-Astral tem entre suas diretrizes incentivar esse sentimento de forte união entre seus colaboradores. “Nós temos uma comissão social que procura interagir com a comunidade sempre que possível”, explica a auxiliar do setor pessoal, Valéria Sanches.

O grupo é formado por 14 pessoas, mas pode “inchar” à medida da necessidade. “Quando temos um projeto, avisamos todos os funcionários da empresa e fazemos um convite para que eles também sejam voluntários. Quem se interessa, participa”, explica.

Entre os trabalhos realizados pelo grupo está a reforma da creche do distrito de Tibiriçá. Há pouco mais de um ano, a comissão social se organizou, arrecadou donativos e os voluntários colocaram literalmente a mão na massa.

Aos finais de semana, eles se reuniam para cuidar pessoalmente das obras na creche. “No final, ficamos muito felizes de ver a concretização daquele trabalho”, explica Valéria.

Ela conta que a comissão está sempre em contato com a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) de Bauru para saber quais as entidades que mais precisam de ajuda. Com indicação do órgão público, são feitas doações ou realizados trabalhos voltados diretamente para tais necessidades.

O grêmio recreativo da empresa também serve para as obras do grupo. No final do ano, por exemplo, eles fizeram uma grande festa para as crianças atendidas pelo Projeto Crianças em Ação, do Jardim Ferraz, com brincadeiras e presentes.

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Solidariedade em alta

Alguns cientistas acreditam que as tsunamis - ondas gigantes que assolaram o sul da Ásia e o norte da África no final do ano passado - alteraram o eixo de rotação da Terra.

Mas o psicoterapeuta Ricardo Mokdici vai além: para ele, houve uma mudança de comportamento do ser humano depois dessa tragédia. “Para mim, esse fato acabou afetando o eixo psicológico das pessoas em geral, deixando no ar uma energia de dor e tristeza”, salienta.

Essa energia, segundo ele, acaba impulsionando o ser humano em outras direções. “As pessoas estão se unindo mais e resgatando o seu espírito de solidariedade”, reforça.

Para a professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandra Calais, é no momento de desamparo que as pessoas descobrem a necessidade de se unir ainda mais. “Nessas horas, o ser humano percebe que se torna muito mais forte quando está em grupo”, destaca.

Segundo ela, antes tinha-se a impressão de que ninguém precisava de ninguém, que o individualismo dava as cartas e determinava a trajetória de vida das pessoas. “Mas agora é possível observar que as pessoas estão se unindo mais e buscando, assim, uma melhor qualidade de vida”, frisa.