O disque-denúncia da Polícia Civil de Bauru, acionado através do número 197, recebe ligações gratuitas, mantém o total anonimato do denunciante e é, reconhecidamente, um instrumento fundamental no combate à criminalidade. Mesmo assim, o novo número - até setembro do ano passado o serviço respondia no número 147 - ainda é pouco acionado pelos cidadãos bauruenses.
O Centro de Comunicações da Polícia Civil (Cecom) não possui estatísticas sobre o volume de chamadas que chegam ao serviço, mas o delegado-assistente Doniseti José Pinezi, respondendo interinamente pela Delegacia Seccional de Bauru, estima uma média de dez ligações diárias. Seria um número razoável, não fosse o fato de que muitas ligações acontecem por ocasião de crimes graves, como homicídios.
“Quando isso (crime de repercussão) acontece, chovem ligações, mas são 20 chamados sobre o mesmo fato. Então, há dias em que registramos 30 ligações, mas outros em que ninguém liga”, relata Pinezi, rejeitando que tenha havido falta de divulgação do serviço. “Quando o número mudou para 197, em setembro, divulgamos o fato na imprensa. Mas acho importante reforçarmos essa divulgação”, diz.
O mesmo não acontece com a Polícia Militar (PM), cujo telefone 190 já está amplamente consolidado entre as pessoas. A exemplo da Polícia Civil, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) também não mantém estatísticas sobre a quantidade de denúncias recebidas, mas seu coordenador, capitão Wellington Venezian, garante ser um “volume fantástico”.
A importância da divulgação deste tipo de serviço pode ser comprovada pela eficiência registrada por um terceiro canal de denúncia criminal anônima, o Disque-Denúncia da Capital, acionado pelo 0800-156315. Fruto da parceria entre a organização não-governamental (ONG) “Instituto São Paulo contra a Violência” e a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado, o serviço conta com uma consistente campanha de divulgação na mídia.
Em função disso, informa a assessoria de imprensa do Disque-Denúncia de SP, o serviço recebeu no ano passado quase 113 mil ligações, um volume 78% maior que o registrado em 2003. Deste total, 183 denúncias foram referentes a crimes que aconteceram em Bauru. Desde sua criação, em outubro de 2000, o serviço já atendeu a quase 300 mil denúncias que, ainda segundo a assessoria de imprensa, foram decisivas para a solução de 11,6 mil crimes.
Tanto o delegado Pinezi quanto o capitão Wellington concordam que a denúncia anônima é um instrumento poderoso na resolução de muitos crimes. “Em Bauru, a imensa maioria dos casos que acabam resolvidos pela PM teve início com uma denúncia anônima”, atesta o coordenador do Copom.
Exemplo disso aconteceu na última sexta-feira, quando policiais militares detiveram dois homens - um acusado de tráfico e outro fugitivo da Penitenciária de Campinas - com base neste tipo de denúncia feita por cidadãos. “O flagrante (de tráfico) só foi possível após uma ligação que recebemos pelo 190”, afirma o tenente Paulo César Valentim, comandante da Base Oeste da PM e que participou da operação.
Pinezi destaca que no serviço 197 da Polícia Civil de Bauru, a grande maioria das denúncias, “cerca de 90% das ligações”, refere-se a casos envolvendo entorpecentes.
A prevalência deste crime também é confirmada pelo capitão Wellington e pelos números do Disque-Denúncia da Capital, que apontam um total de 37% dos registros relacionados a tráfico e porte de drogas.
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Intrigas e trotes
O delegado-assistente Doniseti Pinezi avalia que as denúncias procedentes, ou seja, as que resultam em esclarecimento de delitos, somem entre 20% e 30% do total de ligações recebidas. Ele lembra que os “trotes” não representam um volume significativo das ligações improcedentes, mas destaca outras situações que acabam, também, atrapalhando os trabalhos de investigação.
Segundo Pinezi, é muito comum brigas entre vizinhos acabarem com notificações falsas ao serviço. “Por ‘bronca’ de um vizinho, a pessoa aproveita-se do anonimato e liga para o 197 para que, por exemplo, a polícia investigue seu desafeto, só pelo prazer de vê-lo em uma situação constrangedora”, explica Pinezi.
O delegado lembra ainda que há casos também em que o denunciante suspeita de um crime que se mostra inexistente quando averiguado. Em todos os casos, porém, Pinezi garante que a polícia investiga as denúncias recebidas.
O coordenador do Copom, capitão Wellington Venezian, destaca que o índice de trotes no serviço 190 da PM “é baixíssimo”, mas mesmo assim a corporação possui um procedimento padrão para desestimulá-los. “Gravamos e identificamos todas as ligações e quando notamos um trote, muitas vezes feito por crianças, despachamos uma patrulha para orientar seu autor a não repeti-lo, pois isso atrapalha nosso trabalho”, diz o policial.
Apesar disso, o capitão Wellington garante que isso não afeta o princípio do anonimato da denúncia. Segundo ele, a gravação das ligações serve para aprimorar o serviço prestado à população e até como material de prova em caso de reclamações de mau atendimento no Copom. “Não temos qualquer interesse em quebrar o anonimato do denunciante, pois nossa intenção é incentivar cada vez mais a população a contribuir com o trabalho da polícia”, explica.