Ontem a reportagem do Pesca & Lazer recebeu a ligação do pescador João Pereira dos Santos em um tom bastante chateado, poderíamos dizer, indignado. Santos é o que podemos chamar de pescador fanático, pois não passa um único fim de semana sem ir pescar. Quando o tempo está para águas salgadas, Ilhabela é seu roteiro preferido, agora se é data para água doce, os destinos são variados, mas ele não resiste aos tucunarés de Panorama ou de Piacatu e dos rios brasileiros, como o Xingu. Mas sua indignação nada tem a ver com pesca, o negócio é o futebol.
Há poucos dias, em uma partida com os amigos, Santos literalmente pisou na bola, caiu sobre a mão e teve uma lesão no pulso, resultado: dois meses sem pescar. Aí o homem ficou uma fera: “Sem pescar? Como? Impossível.” Mas o caso é delicado, e é assim que deverá ser. Mas a história de Santos e sua paixão pela pescaria só vêm ilustrar essa ligação que o homem tem com a pesca há milhares de anos.
“O mistério escondido sob as águas é que atrai o pescador. Ele quer descobrir o que existe lá embaixo”, comenta Ezequiel Theodoro da Silva, pescador e editor da revista virtual Pescarte. O surpreendente é descobrir que a pesca é tão antiga que fica até difícil precisar quando o homem lançou sua primeira isca. Interessante são os achados arqueológicos, que vêm para atestar o caminho certo ao pescador, com anzóis muito semelhantes aos utilizados hoje, se não pelo material – afinal, osso de alce já caiu em desuso – mas pelo formato.
O interessante é que as descobertas continuam e não só o anzol era usado, mas também redes de pesca. Uma reportagem da Agência Folha indica que arqueólogos descobriram no Peru a primeira civilização avançada que se desenvolveu nas Américas, segundo artigo publicado na revista “Nature”. A matéria, divulgada em dezembro passado, diz que “o padrão cultural estabelecido por essa civilização em uma pequena área no terceiro milênio antes de Cristo estabeleceu as fundações para 4 mil anos de florescência cultural em outras partes dos Andes”, nas palavras de Jonathan Haas, do Field Museum, de Chicago (EUA).
E essa civilização avançada plantava algodão, que era trocado com os habitantes do litoral por peixes. Olha aí, novamente o interesse do homem pelo peixe, mas como eles eram capturados? As populações litorâneas, por sua vez, usavam o algodão para fazer redes de pesca, diz a matéria da Agência Folha.
Realmente, o peixe como alimento faz parte da evolução do homem, que chegou a encontrar na pesca o prazer do contato com a natureza, da descoberta, do primitivo, do misterioso. Por isso, muitos pescadores são considerados mentirosos, o que é uma injustiça, pois os adeptos da pesca sabem o que pode acontecer em uma pescaria. Há poucos dias, o pescador Elço Bonomo, em contato com o Pesca & Lazer, narrou a história de sua pescaria do fim de semana no rio Paraná, e o que aparentemente parecia uma grande mentira, com toda certeza aconteceu, mas isso é papo para outra história, que ele mesmo vai contar.
Os anzóis
A arqueologia, além de múmias e pirâmides, traz descobertas curiosas que refletem muito a vida contemporânea. Na história dos anzóis, em pesquisa realizada em sites como o da Sociedade Marlin Negro de Pesca e Lançamento, é difícil precisar há quanto tempo o homem se utiliza de anzol para pescar, mas acredita-se que os anzóis mais antigos já encontrados datam do período paleolítico, que terminou há mais de 10 mil anos. Eles foram achados em escavações na Checoeslováquia, mas a Noruega é campeã em achados.
Mas há quem acredita que o homem de Cro-Magnon, que surgiu entre 30 a 40 mil anos, tenha usado anzóis para garantir sua sobrevivência. Isto é, há muito tempo! Muitos foram os materiais usados para confeccionar artesanalmente os anzóis, desde conchas, chifres, ossos, pedra, madeira, bronze até chegar ao aço. A Ilha de Páscoa esconde os mais mórbidos, pois eles eram confeccionados com ossos humanos, já que era comum o sacrifício de pessoas naquele lugar. Eles não tiveram dúvida, “já que não temos grandes mamíferos para aproveitar os ossos, vamos usar de gente mesmo!”.
Com sua criatividade, o homem também conseguiu fazer anzóis compostos aproveitando vários materiais que eram amarrados. Na Rússia, em Volosova, foi encontrando um anzol assim fabricado. Outro dado interessante, os anzóis da antigüidade não possuíam fisga ou qualquer tipo de refinamento. Anzóis encontrados na Dinamarca e na Noruega indicam que só depois de centenas de anos eles passaram a ter fisgas, entalhes e furos para facilitar a amarração da linha de pesca.
Acredita-se que o cobre chegou perto de 4000 AC, e que foi se desenvolvendo até chegar no uso do bronze. Entre as civilizações mais antigas, onde o cobre foi usado, estavam aquelas ao longo das margens dos rios Eufrates e Tigre, rios de abundante pescado e grande volume de água.
Numerosas descobertas têm sido feitas na área dos anzóis de cobre, que são centenas de anos mais antigos que a Mesopotâmia de Abraão (ao redor de 1800 AC). As pinturas também representam a pesca e o uso do anzol em várias civilizações. Conhecer a história, é uma forma de aprender com nossos antepassados, que também eram pescadores e devem ter escondido muitos segredos e causos fantásticos.
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