10 de julho de 2026
Geral

Falta de cidadania motiva ciclo desvirtuado do lixo

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Em dia de coleta domiciliar, Maria acorda mais cedo e coloca o lixo para fora para ser recolhido à tarde. Depois, vai trabalhar. Sem desconfiar, a personagem fictícia comete semanalmente uma irregularidade. Ela não sabe que os sacos plásticos devem ser dispostos na rua no máximo duas horas antes do caminhão passar, conforme prevê a lei municipal 3832/94. O resultado da gafe pode ser conferido nos terrenos baldios da cidade, onde o lixo orgânico vem sendo dispensado.

Na maioria dos casos, o ciclo do lixo é desvirtuado com a colaboração dos catadores de materiais recicláveis, que se antecipam à coleta domiciliar realizada pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). Não é raro abrirem os sacos plásticos para vasculhar, recolherem o que lhes interessa e abandonarem o restante na primeira área desocupada encontrada pelo caminho.

Confirma a informação Idalina de Souza, que há 22 anos atravessa Bauru em busca de papelão. “Já vi muito catador fazendo isso”, garante. Ela, no entanto, diz adotar medida contrária. Quando leva lixo orgânico para casa, situada no Fortunato Rocha Lima, faz a separação do material no quintal. O que não é possível aproveitar como fonte de renda, Idalina dispensa para a coleta domiciliar.

Já Marco Antonio de Oliveira, na profissão há três anos, não leva matéria orgânica para a própria residência, no Jardim Europa. “Só carrego o que está limpinho, pronto para vender. Não mexo nesse tipo de lixo”, afirma. Porém, ele e os ajudantes Osvaldo José Nicolau e Deomar Gomes dos Santos já presenciaram gente remexendo sacolas, posteriormente lançadas em terrenos próximos.

Mas está enganado quem pensa que os catadores são os únicos responsáveis por esparramar lixo pelo município. “Tem gente que pára aqui de Audi para jogar sacolas no terreno. É gente da alta sociedade”, informa a moradora do Jardim Paulista Maria Elene de Grava. De acordo com ela, a situação fez com área em frente ao seu imóvel se transformasse em criadouro para cobras e ratos. Um destes invadiu a residência dela.

Apesar do problema afetar também as casas das imediações, muitos moradores acondicionam os sacos nas lixeiras independentemente da data e do horário cumpridos pelos caminhões da Emdurb. Duas domésticas consultadas pela reportagem alegaram confusão com a data.

“A gente coloca o lixo no horário, mas eles demoram para passar. O horário aqui é pela manhã, mas ouvi o caminhão subir depois do almoço”, conta Edna Nicodemo, moradora do Jardim Aeroporto. Assim como todos os outros entrevistados, ela desconhecia o conteúdo da lei municipal.

Pesquisa empírica

Em apenas 8 horas, quatro integrantes da Organização Não-Governamental União Internacional Protetora dos Animais (Uipa) percorreram e fotografaram 40 terrenos de Bauru que tornaram-se depósitos de lixo. Espalhados por 13 bairros, a maioria deles está situada na Zona Sul.

“Começamos pelas áreas nobres para mostrar que o problema do lixo não está concentrado apenas na periferia. Alguns bairros menos abastados estão melhores. Isso mostra um descompromisso da sociedade para com o lixo. O acúmulo de matéria orgânica provoca doenças, como a leishmaniose. Alguém tem de tomar uma providência”, destaca a presidente da Uipa, Ângela Maria Heiffig da Silva.

Ela vai propor ao Executivo uma reunião entre as várias secretarias municipais e ongs de Bauru para juntas elaborarem um projeto educativo, cujo objetivo será o de orientar a população a dispor o “lixo na hora certa”. O encontro também terá a serventia de desenvolver alternativas para estimular a reciclagem entre os munícipes e para organizar os catadores de lixo em associações.

Com a iniciativa, Ângela aposta na recuperação dos cerca de 70 mil terrenos baldios de Bauru, situados em aproximadamente 415 bairros da cidade.