08 de julho de 2026
Geral

Carteiros ainda temem cães de guarda e Internet

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Os carteiros de Bauru e região que lotaram as dependências de uma chácara às margens da rodovia Marechal Rondon, ontem, próximo a Agudos, consideram os cachorros e a massificação dos veículos de comunicação eletrônicos os principais “inimigos” da carreira.

Os trabalhadores se reuniram para comemorar o aniversário da profissão, lembrado no dia 25 de janeiro de cada ano. No evento, os profissionais dos Correios acompanharam a formalização do acordo coletivo que rendeu reposição de 17,75%. Segundo o presidente do Sindicato dos Empregados dos Correios de Bauru e Região (Sindecteb), José Aparecido Gimenes Gândara, este foi o melhor acordo dos últimos tempos.

A entidade conta com cerca de 800 associados, em um universo de 1.500 profissionais que atendem a 192 cidades ao redor de Bauru. Mas, em pleno almoço, os temas mais comentados em algumas das rodas de bate-papo durante o evento foram o cão e a Internet.

Paulo Roberto Pereira, 45 anos e 19 de profissão, que o diga. Ele já foi mordido cinco vezes, duas vezes com certa gravidade. “O cachorro continua sendo a maior dificuldade para trabalhar. Levei cinco mordidas e em um dos casos fiquei afastado 10 dias do trabalho”, conta.

Para o funcionário eficiente no ofício de entrega de correspondentes, a questão continua sendo cultural. “Muitas pessoas não compreendem ou não têm vontade de entender que o cão solto sem um lugar adequado para entregar as correspondências é perigoso”, opina.

Em sua avaliação, o cão sem raça é o mais arriscado de enfrentar. “O vira-lata é pior, engana a gente com sua carinha de inocente. Invadiu seu território é ataque”, menciona Pereira, que já trabalhou cinco anos a pé, quatro com o uso de bicicleta e já acumula nove anos com o serviço sendo realizado com a ajuda de uma motocicleta.

A regional dos Correios em Bauru conta com cerca de 250 profissionais de rua. A entrega é motorizada nos bairros com a utilização de 40 motos. Mas na opinião do gerente de um dos três Centros de Distribuição Domiciliar (CDD) de Bauru, o da Vila Falcão, Luiz Francisco Gimenez, nem só de cão o homem desta profissão viverá.

“O aumento do número de computadores nas casas e a Internet podem prejudicar o hábito das pessoas de enviar correspondências. O que ainda mantêm o volume de cartas é o preço cobrado e o romantismo da correspondência, que não se perdeu”, pondera Gimenez com a bagagem de 28 anos de Correios.

Na sua gerência, a média de correspondências é de 26 mil por dia. Ele conta que 45% desse total é de entrega na cidade. “Nos meses de outubro a dezembro é quando temos mais correspondências, por causa das festividades do final do ano. Em janeiro, o aumento ocorre por causa dos carnês do IPTU”, avalia o gerente.

Na presença de dezenas de carteiros não foi difícil localizar quem tivesse tido problema com o ataque dos cães protetores de seu território. Nem tão fácil foi encontrar quem confessasse outros “obstáculos” do dia-a-dia.

Mais experiente, Paulo Pereira foi um dos poucos que se arriscou a confirmar que, entre uma entrega e outra, o malote caiu por causa de clientes que o recepcionaram em condições nada convencionais.

“Às vezes acontece. Um dia uma senhora me atendeu de camisola e uma mulher certa vez também abriu a porta sem roupa, fechando logo em seguida com um pedido de desculpas”, cita sob o riso implacável ou invejoso dos colegas que acompanharam a entrevista.