09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O canto das sereias


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Aposto como a maioria dos leitores já ouviu a expressão “o canto das sereias”. Quem eram as sereias? Para alguns, pássaros de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para outros, metade mulheres do corpo para cima, metade pássaros; ou ainda metade mulheres, metade peixes. Alguns dicionários consideram-nas ninfas, outros monstros e até demônios.

Homero, na Odisséia, narra que as sereias atraíam e perdiam os navegantes e que Ulisses, para não perecer ao ouvir seu canto, tapou os ouvidos com cera, fez o mesmo com seus remadores e ordenou que o amarrassem no mastro. Para tentá-lo, as sereias prometiam o conhecimento de todas as coisas do mundo.

A mitologia é sábia, por isso mesmo vem varando os séculos, chegando aos nossos dias e até confundindo a cabeça dos mais inteligentes, que chegam a misturar a lenda com a história. O que intriga é saber como podem as sereias, até hoje, continuar encantando não mais os navegantes dos mares - que esses já escassearam - mas, sim os esquadrinhadores de terras, que se querem tornar seus proprietários, através de reinados, feudos ou, mais atualmente, de mandatos políticos.

O político continua ingenuamente deleitando-se com as sereias, ouvindo de sua boca a voz doce como o favo de mel, certo de sair mais sábio, porque acredita que elas conhecem todas as coisas, por determinação dos deuses. E que se vê, então? O deslumbramento dos políticos com esse canto nefasto. Engalanam-se como pavões, vestem o manto refulgente do fascínio, adquirem uma parafernália para realçar ainda mais sua suntuosidade: meios de transporte nababescos, hospedagem em hotéis ofuscantes, bebidas de altíssimo preço, roupas e sapatos de grife. Estão inebriados com o canto de mel...

Enlouquecidos, não percebem que essas aves proporcionam uma felicidade vaga como as águas nas quais se apresentam. Por isso, é lamentável que esses representantes públicos não tomem o exemplo de Ulisses, tapando os ouvidos com cera. Ou melhor ainda, deveriam fazer como Orfeu, o dulcíssimo: mais melífluo que as sereias, quem cantou foi ele, invertendo a situação. E cantou de forma tão harmoniosa, tão verdadeira, que as sereias precipitaram-se ao mar e foram transformadas em rochas, porque sua lei era morrer quando alguém não sentisse seu feitiço.

Que bela metáfora! Fossem nossos políticos tão precisos, tão claros como Orfeu, que contrapôs a inconstância das águas às venturas firmes da terra, por certo não teriam sido contaminados com o aceno execrando das sereias e elas, desmistificadas, acabariam por desaparecer definitivamente de nossas vistas! Nós, cidadãos honrados, tampouco passaríamos por tamanhos dissabores, até mesmo por acessos de ira, tendo de presenciar a farra miliardária, desonesta e vergonhosa dos enfeitiçados pelo canto desses demônios malditos.

Dra. Maria da Glória De Rosa - mgderosa@bol.com.br