Sempre que viajo - e viajo muito - gosto de dar carona. Tenho, como qualquer pessoa, medo dos ruins, mas não creio que o medo dos ruins deva ser motivo o bastante para deixar de estar perto dos bons. E nas caronas que dou sempre aprendo, porque, na verdade, acaba sendo uma oportunidade para conversar, vislumbrar novos mundos, conhecer novas histórias e pessoas. É nas caronas que encontro conversas mais humanas, menos técnicas, sem jogo de interesses ou coisas assim. Dia desses, dei carona a Dona Neusa. Uma senhora com seus 50 ou 60 anos - ou talvez menos - apenas judiada pela vida. Estava ali, na beira da velha estrada, no trecho onde ficam alguns presídios.
Dona Neusa é, sem dúvida, o retrato de uma senhora do povo: gorda, cabelos mal cuidados, uma imensa sacola nos braços e inúmeras marcas no rosto - como se fossem as marcas do que a vida lhe fez. Ao entrar no carro agradeceu muito - a chuva forte lá fora não respeitava qualquer tipo de abrigo. Logo me perguntou se eu era “doutor” - pois achava que eu tinha ar de gente importante. Achou engraçado quando disse que não. E aí danou a falar. Contou do lugar onde morava, das faxinas que fazia em casa de gente chique para sustentar as duas filhas mães solteiras, os netos e a mulher do filho que estava preso. Contou que gostava de ouvir musica sertaneja e que quando era jovem pensava em ser artista. Foi indo da alegria para a tristeza até que começou a falar do filho que tinha ido visitar. “Sabe moço, ele é um menino tão bonito, meu filho mais velho - o pai nunca viu o rosto dele. É homem importante que abusou da minha inocência e mocidade. Nunca deixei faltar nada, mas mesmo assim ele andou sempre com pessoas erradas e deu no que deu. Venho aqui toda semana. Trago uma fruta, um biscoito, cigarros e, às vezes, minhas filhas reclamam que eu tiro delas que estão comigo para dar para ele que só nos fez passar vergonha e desgosto. Mas, seu moço, ele é meu filho, nasceu da minha barriga e para mim vai ser sempre um menino que eu amo como se ainda pudesse pegar no colo”.
Eu acho que ela nem teve tempo de ver que, no meio da conversa e em plena chuva, coloquei meus óculos escuros para esconder as lágrimas e fiz força para que o choro não fizesse minha boca se mexer. Menos ainda talvez venha a saber que naquele dia me ensinou muito sobre amor incondicional. Deixei-a na entrada do seu bairro e segui viagem. Ela agradeceu e disse “Deus te acompanhe”, mal sabendo que pouco antes suas palavras de anjo haviam trazido de volta Deus ao meu coração.
O autor, Cosmo Palasio de Moraes Jr., é articulista