As plumas e cores das fantasias, as rainhas à frente da bateria e som dos tamborins e dos bumbos, como que ressoando dentro dos foliões, já parecem ser parte apenas da história de Bauru. Dos desfiles que reuniam milhares de pessoas na avenida Nações Unidas, e posteriormente no Sambódromo, naquele que já foi um dos maiores Carnavais do Interior de São Paulo, só restam as lembranças.
Para carnavalescos e amantes da festa, o retorno dos desfiles, ainda que possível, é um desafio com diversos obstáculos. Neste ano, novamente sem os desfiles no Sambódromo, nem mesmo os bairros terão chance de conferir as escolas e blocos.
O radialista e apresentador de TV Tuba Ferreira viveu o Carnaval bauruense por 29 anos, como espectador e como profissional, fazendo a cobertura da festa. Ele opina que a volta dos desfiles grandiosos, que atraíam milhares de turistas, depende da boa administração das escolas, da organização correta de uma festa com caráter popular e da paixão da comunidade pelo evento, como ocorria nos “anos de ouro” do Carnaval bauruense.
“Também precisamos voltar a ter um Sambódromo, porque do jeito que ele está, é impossível. Depois, a cidade deveria promover um Carnaval popular, com ingressos a preços menores, ou até mesmo com os foliões recebendo uma cerveja ou um refrigerante em troca do ingresso, realmente para chamar a população de volta”, frisa.
Na tentativa de recuperar a festa, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e a Liga das Escolas de Samba de Bauru (Lesec) já planejam o lançamento do Carnaval 2006, que seria realizado no dia 25 de março no Sambódromo. Em matéria publicada na semana passada pelo JC Cultura, o secretário José Augusto Ribeiro Vinagre adiantou que a pasta deve restaurar a passarela do samba para o lançamento. O espaço, que foi inaugurado em meados de 1990, é administrado pela Lesec e se encontra em estado de abandono, sem iluminação e instalações elétricas, com as arquibancadas tomadas pelo mato, banheiros e alambrados destruídos.
Após o lançamento, as escolas teriam cerca de 11 meses para realmente organizar os desfiles do próximo ano. E enquanto alguns carnavalescos defendem que a própria entidade deve gerar seus recursos, promovendo atividades para criar seu desfile, outros reiteram a importância e o dever da prefeitura para a elaboração da festa.
Na opinião do vereador Paulo Madureira (PP), diretor de Carnaval do Grêmio Recreativo Cultural e Escola de Samba (GRES) Acadêmicos do Cartola, o maior desafio para a volta dos desfiles é conseguir o que ele chama de “vontade política” da administração. “Precisa de vontade política, o secretário (de Cultura) precisa sair atrás dos empresários e promover atividades, incentivar parcerias com a Lesec e as escolas, para termos o Carnaval de volta”, afirma.
Na opinião de Madureira, o principal motivo para o fim dos desfiles no Sambódromo e a retração das escolas e blocos foi justamente a falta de esforço político da administração municipal anterior. “Já não havia vontade política do prefeito da gestão anterior, não havia vontade de fazer a cultura popular, de levar a festa para os bairros. Esqueceu-se a tradição da maior festa que Bauru tinha”, completa.
Por outro lado, o presidente da GRES Flor da Laranjeira, Alexsandro Bussola, acredita exatamente no contrário. Em entrevista ao JC Cultura na semana passada, ele reiterou que a intenção da escola é buscar independência da prefeitura e da SMC para a obtenção de recursos. A saída seria a promoção de eventos pela própria entidade. “Queremos uma parceria com a SMC, como ocorre em outras cidades, para a contratação de profissionais e carnavalescos para oferecer cursos. Não temos interesse na subvenção da escola”, destacou Bussola.
História popular
De acordo com Ferreira, o Carnaval de Bauru teve início de maneira “romântica”, com a organização de pequenas sociedades nos bairros, por conta da paixão pela festa. “Quando os desfiles saíram da avenida Rodrigues Alves e foram para a Nações, foi seu melhor momento, e as escolas cresceram nos bairros. A primeira escola a crescer e ganhar destaque foi a Mocidade Independente da Vila Falcão”, relembra.
O radialista aponta a má administração das GRES como o principal fator para o início da decadência da festa na cidade. “As escolas ficaram nas mãos de pessoas não tão preparadas para administrá-las. Nesse momento, as escolas tinham muito poder político, quando grandes nomes da política bauruense estavam por trás delas, e aquele romantismo se perdeu. Virou um grande negócio, mas nas mãos de pessoas não-preparadas”, analisa.
Na opinião de Vinagre, o cancelamento dos desfiles no Sambódromo, com a falta de organização das escolas, teve reflexos diretos para o turismo em Bauru, assim como para os bailes nos clubes da cidade. “O Carnaval como um todo diminuiu, antes tínhamos uma quantidade muito maior de bailes do que hoje em dia. Todos foram prejudicados”, lamenta.
Ele reitera, no entanto, que a festa em Bauru não está perdida. “É preciso retomá-la de forma profissional, com o envolvimento da comunidade onde a escola está. Não é apenas juntar gente no final do ano, receber a verba e desfilar. Não é mais assim. Acredito que, com o trabalho das comunidades, vamos retomar os desfiles no ano que vem”, finaliza.