Da Redação
Considerada até alguns anos atrás um “nicho inexpugnável da masculinidade” dentro da força policial militar do Estado São Paulo, a Polícia Rodoviária (PR) vem atraindo cada vez mais nos últimos tempos o interesse das policiais femininas. A abertura ao que até então era tachado como o “sexo frágil”, ocorreu a partir de 1998, quando a corporação comemorou o seu cinqüentenário e incorporou as primeiras policiais para atuar apenas no sistema Anchieta/Imigrantes.
Passados sete anos, porém, a proporção de policiais femininas na PR mal conseguiu superar o 1% na comparação com os homens - dos 3.947 policiais rodoviários no Estado, apenas 44 são mulheres. Já considerada “normal” na região da Capital e na Baixada Santista, onde o efetivo feminino é maior, a presença de mulheres fardadas nas pistas do Interior ainda causa surpresa a alguns motoristas no momento da abordagem.
E não é para menos. Afinal, na região do 2.º Batalhão da Polícia Rodoviária, sediado em Bauru, mas que abrange 223 municípios e mais de 6,7 mil quilômetros de estradas, são apenas sete as policiais femininas - três em Bauru, uma em Marília, uma em Araçatuba, uma em Presidente Prudente e outra em Lins.
“Mas estamos chegando”, avisa a cabo Danielle Trentin Gomes de Souza, 30 anos, a única entre as três policiais lotadas na 1.ª Companhia da PR de Bauru qualificada a realizar abordagens na pista e as chamadas fiscalizações de trânsito. A qualificação é obtida em curso de especialização realizado em convênio entre a Secretaria de Segurança Pública (SSP) e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER).
Esta condição diferenciada garante a cabo Danielle a utilização da indumentária clássica do policial rodoviário, com quepe de viseira plástica e brasão da corporação, além da bota “três quartos” de couro. Primeira mulher a integrar a corporação em Bauru, Danielle chegou à cidade em setembro de 2003, após transferência de um pelotão de infantaria da Polícia Militar (PM), na Capital, de onde também vieram, no ano seguinte, a soldado Cíntia Xavier de Aguiar, 32 anos, e a sargento Marina Bicudo Rossi, 43 anos.
Apesar de atuarem a maior parte do tempo nos chamados serviços administrativos, o tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos, comandante do 1.º Pelotão da PR de Bauru, ressalta que, toda semana, as policiais deixam seus gabinetes para atuar “na pista” e também em ações específicas do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR), como as que prescindem de revistas minuciosas em mulheres.
Nestas ocasiões, observa o comandante, a reação dos motoristas abordados geralmente é de surpresa, fato que é confirmado pelas policiais. Todas, porém, garantem que o desempenho é similar ao dos homens, às vezes com algumas vantagens. “Quando fiscalizamos, os motoristas geralmente se comportam de modo mais cortês e educado”, atesta a sargento Marina. “Os usuários se dirigem a nós com um tom de voz mais baixo”, reforça a soldado Cíntia.
De forma unânime, elas também juram que jamais foram vítimas de abordagens desrespeitosas ou “cantadas”. Vaidosas assumidas, as três policiais garantem que jamais saem para os trabalhos de campo sem os devidos cuidados com a beleza - protetor solar e batom são indispensáveis.
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Empatia
O tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos, comandante do 1.º Pelotão da Polícia Rodoviária em Bauru, atesta a eficiência das policiais rodoviárias principalmente com base na opinião dos usuários. Segundo ele, a PR possui um processo de avaliação de seus serviços fundamentado em pesquisas junto ao público. “Os resultados da avaliação (das policiais) tem apresentado resultados bastante positivos”, diz.
Segundo ele, as policiais demonstram um “feeling” especial para certas situações, como no tratamento com idosos e crianças. “Elas não transmitem aquele ‘ar de autoridade’ comum aos homens, apesar do rigor na sua atuação ser o mesmo”, avalia Santos.
O usuário Arnaldo Vicente, 47 anos, é um dos que certamente avaliariam positivamente o trabalho das policiais. Surpreso ao ser abordado pela primeira vez por uma policial rodoviária, o psicólogo clínico diz que se sentiu “tranqüilo”. “Não importa que seja homem ou mulher. O que vale é que a abordagem seja pontual, objetiva e educada”, diz.
Segundo o psicólogo, as pessoas ainda alimentam o mito de que o homem é a representação da autoridade e, a mulher, da simpatia. “Isso é um mito furado, pois estas características independem do sexo da pessoa”, diz. “O importante é a meta (fiscalização) ser cumprida. E elas fizeram isso muito bem”, completa.
O tenente Luiz Carlos avalia como “pequeno” o número de mulheres na corporação, mas lembra que o efetivo total de força é definido por lei. Mesmo assim, ele espera que os eventuais “claros” do quadro sejam preenchidos com policiais femininos. “Há interesse do comando em ter as policiais”, revela o oficial.