08 de julho de 2026
Saúde

45% dos jovens já perderam dentes

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde mostra que a saúde bucal dos jovens brasileiros vai muito mal: 45% dos adolescentes com 18 anos já perderam pelo menos um dente e cerca de 2,5 milhões deles (13% ) nunca sequer visitaram o dentista.

De acordo com a professora do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/ USP), Sílvia Sales Peres, os índices brasileiros estão assustadoramente aquém do que preconiza a Organização Mundial de Saúde.

“A meta da OMS para o ano 2000 era que pelo menos 85% dos adolescentes com 18 anos tivessem todos os dentes. E a meta para 2010 é que 100% deles tenham todos os dentes. Mais que isso: a OMS quer que, em 2010, o mundo tenha somente 5% de desdentados na faixa etária entre 65 e 74 anos”, comenta.

Para atingir essas metas, os países precisarão investir pesado na saúde bucal nos próximos anos. E para ter idosos com dentes fortes, é preciso ensinar crianças, adolescentes e adultos a cuidar desses dentes. Isso pode ser mais fácil na infância, quando pais e professores supervisionamos cuidados bucais, mas torna- se um problema quando se trata dos adolescentes.

O assunto foi um dos destaques semana retrasada no 23.º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo (Ciosp). Segundo o dentista Mário Kruczan, membro da Federação Européia de Periodontia, essa faixa etária apresenta alterações bucais muito específicas e, por isso, merece atenção e programas específicos.

As alterações hormonais decorrentes da puberdade são citadas como uma das peculiaridades para a saúde bucal nesta faixa etária. Segundo os especialistas, elas favorecem o aparecimento da gengivite (inflamação que provoca dor e sangramento nas gengivas), mesmo quando há boa higienização.

Se não for tratada, ela pode levar à perda dos dentes. Outra situação muito comum na adolescência citada por Kruczan e Peres é o uso de aparelhos ortodônticos. Além de reter uma quantidade muito maior de resíduos alimentares na boca, eles ainda dificultam significativamente a higienização.

A soma desses dois fatores pode resultar em aumento no número de cáries e, conseqüentemente, maior risco de perda de dentes. “Outro problema dos adolescentes é a dieta fortemente cariogênica”, destaca Peres. O abuso de refrigerantes, balas, chicletes, chocolates, salgadinhos e condimentos (maionese, mostarda, ketchup) e outras guloseimas favorece o aparecimento das cáries.

Por um lado porque são alimentos muito ricos em sacarose (tipo de açúcar com maior ação cariogênica), por outro, porque são ingeridos nos intervalos entre as principais refeições e dificilmente o jovem escova os dentes depois desses lanches.

O aumento do estresse nessa faixa etária também afeta a saúde bucal, segundo os especialistas. “O jovem sofre uma queda no Ph da boca (acidez), que facilita a desmineralização dos dentes, que é o primeiro estágio para a cárie”, explica Peres.

Traumatismos dentais decorrentes de atividades esportivas e a colocação de piercings dentais também são citados como fatores de risco por Kruczan. E, em tempo de “ficação”, ele chama a atenção para a doença do beijo. “Transmitida pela saliva, a doença atinge, na maioria das vezes, adolescentes e crianças. Os sintomas são parecidos com os da gripe: febre, mal-estar e dor de garganta”, acrescenta.

Além de todos esses fatores, maus hábitos como o tabagismo, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas e o descuido com a higienização também aumentam os riscos para a saúde bucal entre os jovens.

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Erosão nos dentes

A preocupação exagerada dos jovens com a aparência favorece o aparecimento dos chamados transtornos alimentares. Um dos mais graves é a bulimia, em que a pessoa provoca o vômito todas as vezes que se alimenta no intuito de emagrecer ou não engordar.

De acordo com o dentista Mário Kruczan, além de todos os prejuízos nutricionais e para a saúde como um todo, esse distúrbio também pode trazer sérios problemas para a saúde dos dentes.

“A bulimia pode causar um fenômeno chamado de erosão dental, em que o ácido clorídrico encontrado no estômago danifica as estruturas dentais”, comenta.

A dentista Sílvia Sales Peres explica que a cárie é causada pela ação conjunta das bactérias Streptococus mutans e lactobacilos. “Os Streptococus se fixam na superfície lisa dos dentes e liberam um ácido que causa perda de cálcio, fósforo e fluor na subcamada dos dentes. Com o tempo, elas causam fissuras na superfície do dente, por onde os lactobacilos entram e se fixam, fazendo a evolução da cárie”, descreve.

A erosão dental facilita esse processo, abrindo caminho mais rápido para a fixação desses agentes.

Além de tratar a bulimia, usar creme dental com flúor é um importante instrumento de prevenção, pois o flúor forma uma camada de proteção sobre os dentes, impedindo a ação dos germes.