08 de julho de 2026
Articulistas

Brasil pandeiro


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O Carnaval sempre foi uma festa popular no Brasil, desde o século 19 quando se chamava “Entrudo”, por ser uma introdução ao período de jejum e penitência da Quaresma. Com a proximidade dos 40 dias de abstinência dava-se adeus à carne, alimento que provoca gases para produzir no corpo o “sopro cósmico” das almas do céu. Assim dizia a Igreja. Nos dias de folia valia tudo, nada tinha limites ou responsabilidades. O povo tomava um “porre de felicidade” e aproveitava para vingar-se da burguesia. O fluxo de opressão e humilhação se invertia, durante o tríduo. O arquiteto Grandjean de Montigny, contratado por D. Pedro II para remodelar o Rio de Janeiro, era odiado pelo povo. Desalojou os pobres dos seus barracos para “arejar” a cidade e não comprometer o estilo neoclássico que estava implantando. Nem ao menos se preocupava em indenizar ou conseguir novas moradias aos desalojados. “O povo que se dane. A estética é essencial”. Quando quis ver o Entrudo de perto e saiu às ruas misturando-se ao populacho levou um balde d’água na cabeça que o deixou encharcado. O ilustre, duas semanas depois, aos 74 anos, morria de pneumonia. Os pobres estavam vingados.

No Carnaval, o povo deixa de ser objeto para se tornar sujeito da própria arte. Os brancos aplaudem sentados nas arquibancadas os protagonistas negros e mulatos. Intelectuais prestam vassalagem aos compositores de samba-enredo. “Conta como é a história e deixa comigo”. Atualmente, branco rico e turista estrangeiro que quiser desfilar tem que pagar e caro por um lugar na passarela. Em Salvador, os abadás e turbantes do afoxé Filhos de Ghandi, que caracterizam o grupo atrás de um trio elétrico, chegam a custar mais de R$ 1 mil.

Em Bauru, quiseram oficializar o Carnaval e acabaram matando-o. A prefeitura “oficializou” o desfile e subvencionou as escolas (cada uma com o seu patrono vereador ou pretendente a cargo eletivo) até que os tempos bicudos e a lei impediram as benesses populistas que nos deram um Sambódromo. Imagine os lixeiros da Emdurb desfilando num bloco de cenourinhas para dar a volta por cima naqueles que quiseram tomar seus empregos. Na verdade, os prefeitos de Bauru quiseram ajudar, transformar a manifestação numa coisa “distinta”, colorida e televisiva. Acabaram foi por inibir a capacidade de organização popular espontânea. Nos grandes centros as escolas já aprenderam a sobreviver sem o Estado.

A visão dos modernistas de 1922 também dava esse sentido de desabafo do povo em cima dos que o fazem sofrer. Uma forma de resistência “antropofágica” às imposições. Uma espécie de liquidificador capaz de transformar tudo em loucura carnavalesca. Esse conceito foi muito bem exemplificado na célebre frase de Oswald de Andrade: “Nunca fomos catequizados. Fizemos Carnaval”. Festa viva e ligada ao seu tempo, o Carnaval brasileiro não ficaria fora das grandes influências da rede mundial de computadores, a World Wide Web (www). Segundo “O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro”, de Felipe Ferreira (Ediouro), desde meados da década de 1990 existem homepages das principais escolas de samba e grupos. Entretanto, a maior modificação que a Internet vem promovendo com relação à festa carnavalesca encontra-se na imensa possibilidade de atuação e contatos diretos colocados à disposição do folião, que passa a ter uma influência maior na própria festa. Nesse sentido, as listas de discussões têm se revelado um importante terreno de troca de informações e opiniões entre pessoas interessadas no Carnaval que anteriormente encontravam-se dispersas. (...)

O Carnaval faz parte há muito da identidade brasileira. Quando, em 1940, Assis Valente compôs “Brasil pandeiro”, já coroava essa imposição nacional do samba como associada à imagem do país. “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, começava o samba, para terminar incentivando o Brasil a esquentar seus pandeiros, iluminar seus terreiros, “que nós queremos sambar”. A maior festa do mundo é, cada vez mais, a maior festa do samba.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC