Relatos de consumo de drogas e conflitos familiares compõem o cotidiano do Conselho Tutelar de Bauru, um dos órgãos que acompanha na cidade a realidade de crianças e adolescentes em situação de risco.
Em 2004, o conselho registrou 81 atendimentos de usuários de drogas - um aumento de aproximadamente 252% comparado ao ano anterior, quando o número limitou-se a 23 casos.
Segundo a presidente do órgão, Sandra Cristina Ferreira, o crescimento da procura não significa que tenha ocorrido aumento de dependentes. Para ela, o resultado está relacionado a um trabalho mais incisivo de conscientização, realizado com os responsáveis, sobre a necessidade de tratamento.
“Eu acredito que em 2004 os pais tenham buscado mais ajuda em relação a situação de seus filhos. Nós conseguimos informá-los e conscientizá-los mais sobre a necessidade do tratamento (dos usuários)”, diz Sandra, destacando que esse trabalho de conscientização incluiu palestras em escolas.
A estatística do Conselho Tutelar refere-se apenas ao número de atendimentos prestados e não consegue precisar a quantidade de novos usuários que passaram pelo órgão. Por isso, o resultado final é influenciado também pela reincidência dos dependentes, que desistem do tratamento, retornam para o vício e depois de algum tempo procuram novamente os serviços do conselho. Nessa dinâmica, um único usuário pode passar várias vezes pelo órgão durante o ano.
De acordo com Sandra, a reincidência é um problema comum no trabalho de recuperação, que exige persistência tanto do dependente quanto da própria família.
O desafio torna-se ainda maior quando envolve menores que não possuem estrutura sócio-econômica e apoio familiar.
“Para a pessoa que utiliza drogas, mas tem uma situação sócioeconômica razoável e apoio da família, já não é fácil. Imagine para essa clientela que não conta com essas condições. Para o usuário sair desse mundo, tem que estar muito bem fortalecido, tanto psicologicamente quanto no âmbito familiar. E muitas vezes isso não acontece”, diz Sandra, lembrando que o índice de recuperação entre essa população é baixo.
O Conselho Tutelar atende crianças e adolescentes de todas as classes sociais, porém é mais procurado pelas famílias de baixa renda. “Isso não significa que a droga não seja utilizada por todos os segmentos”, lembra a presidente do conselho. Depois de passar pelo órgão, os pais recebem orientação e os usuários são encaminhados para o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) para avaliação. A equipe do Caps define o tipo de tratamento mais adequado para os casos de dependência, avaliando, inclusive, a necessidade de internação ou encaminhamento para abrigo. O perfil do usuário que passa pelo conselho é geralmente do jovem com problemas familiares, como maus-tratos e abandono, e situação sócio-econômica precária. Segundo Sandra, em situações desfavoráveis como essas, muitos vão para as ruas e encontram a porta de entrada para o vício.
Gosto amargo
M., 17 anos, é uma das adolescentes que figuram nas estatísticas de 2004 do Conselho Tutelar. Filha única de uma família de classe média, ela afirma que começou a utilizar drogas por curiosidade, quando saiu de casa aos 15 anos para morar com o namorado.
A mãe não aceitava o relacionamento da menina que, diante das brigas diárias, resolveu abandonar a casa. Antes desse rompimento, M. já tinha um histórico de desentendimentos com o padrasto.
A adolescente conta que seu namorado comercializava drogas e, em poucos meses, maconha, tinner, cocaína e crack passaram a fazer parte de sua rotina. “Eu comecei fumando um baseado, depois evoluí para o mesclado (pedra de crack com maconha) e fui indo”, descreve a menina, que no auge do vício fumava crack diariamente.
Aos poucos, M. também atravessou a linha que separa o usuário do micro traficante e começou a comercializar pequenas quantidades de entorpecentes para sustentar o vício.
No começo, ela conta que era prazeroso, mas as coisas foram perdendo controle. Há cerca de seis meses, depois de uma briga com o namorado, M. entendeu que precisava de ajuda e voltou a procurar a mãe. “Eu queria sair dessa, mas não conseguia, precisava de ajuda. Foi aí que eu concordei com a minha mãe em ser encaminhada para cá”, diz.
Hoje, aos 17 anos, M. está internada em um abrigo tentando se recuperar do vício, mas diz que o gosto do crack insiste em permanecer na boca. “Eu estou só há seis meses abstinente. A recaída é fácil”, reconhece a menina, que já pensou diversas vezes em fugir do local.
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Grupo foi iniciado na escola
Um grupo de adolescentes, com idades entre 15 e 17 anos, abordado pela reportagem afirma que iniciou o consumo de maconha dentro da própria escola. A droga não foi apresentada por traficantes, mas pelos amigos da classe, que já eram “iniciados” no assunto.
O primeiro contato com o “baseado”, segundo eles, foi na quadra de esportes do colégio e, ainda hoje, o ritual é mantido. “A maioria dos nossos colegas fuma maconha”, afirma o jovem de 16 anos, destacando que a prática envolve tanto os garotos quanto as meninas.
O adolescente conta que não usar o entorpecente é um forte motivo para ser excluído da roda de amigos. Também acredita que o fato de fumar maconha traz prestígio com as meninas.
Os adolescentes revelam que já foram apreendidos várias vezes pela polícia, não por causa da droga, mas por pichação. Devido à prática, um deles já coleciona cinco boletins de ocorrência.
Mesmo enfrentando alguns riscos, esse continua sendo um dos principais passatempos dos meninos. “Bauru não tem nada para fazer”, afirma um deles, justificando o porquê de fumar maconha e pichar paredes.
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Jovens negam dependência
Segundo dados do Conselho Tutelar de Bauru, muitos adolescentes dependentes de droga negam o vício e acreditam que têm a situação sob controle.
Essa é a posição de J., 15 anos. A garota admite utilizar cocaína regularmente - principalmente durante programas noturnos com amigos - mas descarta a possibilidade de vício. “Eu sei que consigo parar na hora em que quiser”, afirma.
Segundo ela, o acesso ao produto em Bauru é bastante simples. Ela se reúne com amigos à noite, cada qual contribui com uma quantia em dinheiro, e a cocaína é adquirida por meio de um “disk droga”.
M., 17 anos, também descreve a facilidade de aquisição. “Em todo o lugar que você vai tem uma boca, tem gente que vende, amigo que usa, que fornece. A droga está em todo lugar, da classe alta à baixa”, diz.
A adolescente, que atualmente está em tratamento, afirma que viveu a ilusão de que seria fácil abandonar o vício. “Eu achava que a hora em que quisesse poderia parar. Demorou um tempo para perceber que não era isso. Quando aconteceu, eu já estava afundando. É muito difícil sair disso, se você não tiver uma idéia fixa e um apoio, não consegue”, relata.