08 de julho de 2026
Bairros

Marginalização justifica localidade

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Utilizados ao longo da história para a expressão de setores marginalizados da sociedade, os terreiros de religiões afro-brasileiras foram sendo constituídos distantes dos centros urbanos. Em Bauru a dinâmica não foi diferente, segundo a professora Dalva Aleixo, pesquisadora de cultura religiosa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

A pesquisadora destaca que, na primeira metade do século passado, a prática de religiões de origem africana era motivo de repressão policial, assim como a prostituição e os jogos proibidos. Reunindo-se em regiões mais periféricas, os adeptos tentavam sair do raio de ação dos policiais.

Segundo o professor de cultura brasileira da Unesp Luiz Fernando da Silva, essa repressão estava diretamente relacionada à ideologia das classes mais favorecidas, que viam no catolicismo a única forma legítima de manifestação religiosa num País “civilizado”. “Eles imaginavam que tudo aquilo que ofendesse a moral cristã deveria ser reprimido”, afirma.

Dalva lembra que, historicamente, as casas de umbanda e candomblé também foram reduto de rebeldia e resistência política. A pesquisadora conta que no Brasil da década de 20, por exemplo, esses espaços funcionaram como abrigo de líderes políticos de movimentos anarquistas e comunistas. Daí decorreu também a necessidade de estarem localizados em pontos de menor visibilidade.

“Esses líderes se escondiam nessas casas e freqüentavam esses locais. Sempre as casas de umbanda e candomblé foram centros de lideranças comunitárias”, observa a professora.

Silva destaca outro fator que teria levado à acomodação desses terreiros em locais periféricos. As religiões afro-brasileiras têm uma relação profunda com a natureza, por isso seus praticantes também buscaram regiões mais distantes dos centros urbanos, onde esse contato fosse facilitado.

Foi exatamente esse o motivo que levou o pai-de-santo Paulo Roberto Mauad a instalar seu terreiro de candomblé em um terreno com uma grande área verde, no Jardim Carolina. O local, que se destaca pela harmonia, foi especialmente projetado para essa finalidade e comporta, inclusive, um quarto para cada orixá.

Entretanto, o exemplo de infra-estrutura do terreiro de Mauad é exceção em Bauru. Grande parte dos terreiros não é acomodada em espaços independentes. Ao contrário, funcionam dentro das residências dos líderes espirituais, em um cômodo adaptado ou nos fundos da casa, sem muita infra-estrutura.

Em geral, suas fachadas também não têm letreiros ou outro tipo de indicação visual expressiva.

A pesquisadora Dalva Aleixo destaca que há poucos dados e documentos sobre a história das manifestações religiosas afro-brasileiras em Bauru. A fundadora oficial da umbanda no município, segundo ela, foi a mãe-de-santo Ida Piasi, que morreu há cerca de três anos. Na década de 40, na zona rural, ela fundou a cabana espírita Nosso Senhor do Bonfim de Bauru.

Não declarado

Os terreiros de umbanda e candomblé, segundo pais- de-santo consultados pelo JC nos Bairros, são freqüentados por indivíduos das mais diferentes classes sociais.

Há uma relativa concentração dos setores de baixa renda, mas uma parcela das classes média e alta também marcam presença nesse território, que hoje congrega pessoas de diferentes raças e idades.

Muitos dos freqüentadores, no entanto, não adotam a umbanda ou candomblé como religião oficial e freqüentam esses espaços de forma velada. É o que afirma a pesquisadora Dalva Aleixo.

O pai-de-santo Ricardo Tavares confirma a tendência. “Tem prefeitos, gente da polícia, artistas (que vão até os terreiros), mas não assumem”, revela.

Segundo o presidente da Federação Espírita de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo, Evandro de Ogum, somente a umbanda tem hoje 40 milhões de freqüentadores no Brasil. Em Bauru, não há números precisos sobre o assunto.

Entretanto, sabe-se que o município concentra templos – principalmente de umbanda – nos mais diversos bairros da periferia da cidade, o que representa a existência de um público significativo acompanhando essas manifestações religiosas.

Entre os exemplos de bairros que possuem terreiros estão o Jardim Carolina, o Núcleo Beija Flor, a Vila Independência, Vila Nova Paulista, Jardim América, Vila Garcia, Jardim Godoy, Alto Paraíso, Parque Bauru, Jardim Bela Vista e Parque São Geraldo. “Bauru toda tem terreiros”, conclui Evandro de Ogum.