Além de paisagens naturais como o mar, cachoeiras e matas, a religiosidade afro-brasileira se apropriou também de alguns espaços urbanos para levar aos orixás suas oferendas – popularmente conhecidas como “despacho”.
O cemitério é um desses pontos, utilizados principalmente por adeptos da umbanda. Por isso não é difícil encontrar bebidas, alimentos, velas coloridas e outras oferendas, especialmente próximo aos cruzeiros ou atrás de sepulturas localizadas rente ao muro.
Nos cemitérios da Saudade e Redentor, em Bauru, o JC constatou a ocorrência desse ritual religioso. Na segunda-feira (dia das almas) e sexta-feira à noite, a freqüência é maior, segundo informações dos administradores dos cemitérios.
“Há uma linhagem de templos que trabalham na sexta-feira, porque energicamente seria um dia melhor”, divaga o umbandista Evandro de Ogum.
Alguns rituais realizados nos cemitérios são ofertados para exus - simbolizado nas religiões afro-brasileiras como a entidade das aberturas dos caminhos e de comunicação com os orixás.
O cemitério também é referência simbólica para orixás como Obaluaiê/Omulu (considerado o dono da terra e de tudo que tem dentro da terra, inclusive do chão do cemitério) e Iansã (rainha dos mortos). Parte das oferendas encontradas nesse local é direcionada ao culto desses orixás, ou - no caso da umbanda - também para os guias que estão sob regência dessas divindades.
“É essencial para as religiões de origem africana a oferenda, porque ela é a única forma de receber axé, energia vital. Você oferece para os deuses e os deuses te mandam energia. Ela também é realizada no cemitério porque esse espaço é o centro do encontro da vida e da morte”, explica a pesquisadora em cultura religiosa Dalva Aleixo, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Para a umbanda e candomblé, o axé dos orixás encontra-se sobretudo em ambientes naturais. Entretanto, ao longo do processo de urbanização, alguns adeptos também se apropriaram de espaços urbanos, como ruas, encruzilhadas e cemitérios, para realizar oferendas às entidades divinas.
“Dentro da nossa crença, nós entendemos o cemitério como um santuário natural de conexão principalmente com a divindade Obaluaiê e Omulu (que representa o término e o início das coisas)”, diz o pai-de-santo Rodrigo Queiroz. “A umbanda não tem igreja. O templo da umbanda são os pontos naturais”, completa.
Segundo o umbandista, muitas das ofertas devem ser realizadas à noite e esse fato causa problemas para os adeptos, já que os cemitérios funcionam somente em horário comercial. “Muitas vezes é preciso ir à noite. A própria entidade solicita isso por uma questão energética. Por isso, alguns pulam o muro”, conta Queiroz, revelando as estratégias para uso do espaço.
Pais-de-santo consultados pelo JC afirmaram que a maior parte dos adeptos de candomblé não utiliza o cemitério e prefere os espaços naturais para realizar despachos. Tanto na umbanda quanto no candomblé a crença é de que as entidades divinas são agradadas através de oferendas
Segundo Rodrigo Queiroz, hoje, a cidade de São Paulo já conta com cemitérios que possuem espaços reservados para cultos e oferendas das religiões afro-brasileiras.
“Isso significa uma vitória, um grande respeito e o reconhecimento dessa necessidade. É importante delimitar um espaço, senão a gente vai ver muitas pessoas com outras intenções abusando do espaço geral do cemitério”, diz o umbandista, que defende esse tipo de medida em Bauru.
Repressão
Para a pesquisadora Dalva Aleixo, a entrega de oferendas nos cemitérios é um ritual que se estabeleceu em um período em que havia muita repressão contra as religiões de origem afro-brasileira.
Em locais ermos, como as ruas e cemitérios no horário noturno, os fiéis podiam entregar as ofertas e cultuar as divindades, distante do olhar repressor de outros grupos sociais e sem serem molestados pela polícia.
Historicamente, na avaliação da professora, as religiões afro-brasileiras também foram construindo mitos para justificar a necessidade de realização de ritos no período noturno. “As crenças também são usadas para adaptar as pessoas à sociedade”, observa.