09 de julho de 2026
Articulistas

A escola de Pilatos


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Parece correto identificar Pilatos como o grande ícone das situações nas quais ninguém quer assumir suas responsabilidades. De fato, para não se comprometer, esse macabro personagem jogou o inocente nas mãos dos verdugos. Situação semelhante estamos vivenciando no município de Bauru. Ao voltar às aulas, 52 professoras aparecem como o bode expiatório da Lei da Responsabilidade Fiscal. Me explico. Numa medida tomada arbitrariamente (resquícios da ditadura?), o poder público municipal cancelou o convênio que mantinha, desde décadas, com as creches municipais e tirou as 52 professoras desses lugares para corrigir a “falta de 142” professores na Rede Municipal de Ensino. Medida sábia! Afinal, qual a importância das crianças mantidas pelas creches? Merecem ter professores de qualidade? Não são munícipes de Bauru? Qual a responsabilidade do poder público com essas entidades? Parece, pelas medidas anunciadas, que a única responsabilidade é repassar “dinheiro” para que possam contratar novos profissionais. A quantidade divulgada começou em torno dos R$ 500,00 por professora (equivalente ao piso inicial do magistério na cidade de Bauru), mas parece que diante do protesto desencadeado pelas professoras o Poder Público Municipal, numa clara intenção de colocar as creches contra as professoras, estaria disposto a aumentar essa quantia. Garantias para as creches de que essa verba chegará mensalmente? A mesma que você tem quando compra um guarda-chuva de um camelô. Essa situação merece algumas reflexões. Quem são essas professoras? Funcionárias de carreira, algumas nas portas da aposentadoria, outras com mais de dez anos de trabalho nas creches, pessoas que moldaram sua vida, profissional e particular, nas ofertas de trabalho oferecidas pelo poder público municipal, incluindo entre elas as creches mantidas pelo convênio. Agora, em decorrência dessa medida “politicamente correta”, receberam a recompensa por anos de dedicação e cumprimento de sua nobre missão junto aos mais carentes: foram colocadas no nível mais baixo da carreira dos professores municipais. Existe humilhação pessoal e profissional maior? Impossível. Obrigadas a escolher “o que sobrou”, aparecem como as culpáveis pela situação caótica em que se encontra a educação municipal. Pelo visto roubaram, oneraram os cofres públicos, enganaram a administração municipal... ou seja, trabalharam com os mais carentes e necessitados. Existe saída? Sem dúvida! A saída é política, senhora secretária da Educação. Sua função primordial é defender ética e moralmente essas professoras. É da responsabilidade municipal investir na educação e na saúde, tal como prometeu o senhor prefeito: “Se for necessário colocarei professores nas entidades e associações”, ou já esqueceu as promessas de campanha? Se estamos nos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, que se diga onde estão os maiores salários do município, que se enxugue a máquina, que se diminuam secretárias, que se acabem com os cargos comissionados, começando pela própria Secretaria de Educação (aliás, senhora secretária, quantas diretoras a senhora tirou de seus lugares para ir na Secretaria de Educação?), mas pelo amor de Deus, que não sejam punidos os que de maneira honesta sempre trabalharam!!! Senhores vereadores, essa situação não merece sua atenção? Onde está a Câmara Municipal? Não estaria na hora de verificar quantos cargos e comissões foram extintos e quantos foram criados desde o dia primeiro de janeiro de 2005? A esperança de 52 professoras está nas suas mãos. Não deixem, mais uma vez, que as atitudes dos pilatos gerem injustiças!!! Tenham a coragem de pensar nos mais prejudicados: as crianças.

O autor, Maximiliano Martin Vicente, é professor da Unesp-Bauru