08 de julho de 2026
Cultura

Sexy 70

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

No começo de sua adolescência em Bauru, o pequeno Alexandre assistia escondido ao “Sala Especial”, todas as sextas-feiras, às 23h, na TV Record. Escondido e com o som baixo, para ninguém na casa perceber que o motivo de tanto esforço era a seleção de pornochanchadas nacionais exibidas no canal. Agora, ele homenageia os filmes – ingênuos até - que fizeram a alegria de toda uma geração, hoje com cerca de 30 anos, com o CD “Sexy 70 – Music Inspired by Brazilian Sacanagem Movies of the 70’s”, ou música inspirada – literalmente – nos filmes de sacanagem brasileiros da década de 70.

“Queria fazer uma homenagem a essa época do cinema nacional pouco valorizada e, principalmente, do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Eram filmes de produção baixíssima, à margem da Embrafilmes”, explica Alexandre Caparroz, ou Che, músico, produtor de trilhas e antigo baterista da banda Professor Antena.

A idéia inicial era homenagear as pornochanchadas com uma compilação das trilhas sonoras dos filmes. No entanto, Che conta que teve dificuldades para encontrar os autores e até mesmo para identificar as músicas. “Revendo os filmes, percebi que as trilhas não eram muito lineares, não eram temas compostos para o filme. Dava a impressão de uma coisa feita às pressas. Com exceção de grandes filmes, como ‘Rio Babilônia’, na maioria não havia soundtrack, não saia em disco”, diz.

O CD, então, se formou com temas originais, compostos pelo músico com inspiração nas produções como “Mulher Objeto” e “Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois”, que virou “Um Grapete Antes, Um Cigarro Depois”. Algumas músicas têm nos títulos homenagens às atrizes que rondavam o imaginário masculino da época, como Helena Ramos, Aldine Muller e Vera Gimenez. “Helena x Aldine” e “Vera, a Diaba Loira”, propositalmente ou não, estão entre os temas mais sensuais do disco.

Helena, inclusive, contribuiu com sua voz para a gravação das vinhetas que permeiam o CD, juntamente com Paulo César Pereio. “Criei diálogos fictícios e entrei em contato com os dois. A Helena topou na hora, ficou superlisongeada. O Pereio quis saber como era, disse que o ano passado tinha sido o ano das homenagens para ele e que estava de saco cheio (risos). Mas ele veio ao estúdio, curtiu e quis gravar”, relembra Che.

Segundo o músico, que se aventura solo pela primeira vez em “Sexy 70”, a banda para os shows já está montada. “Vamos tocar no Vivo Open Air em São Paulo, dia 29 de março, depois no Rio e em Brasília. O lançamento oficial deve ser em abril, no Blen Blen (São Paulo). E é tudo 100% tocado, não tem nada seqüenciado. Na banda, vou tocar bateria e piano”, avisa.

Retrô do bom

As frases das vinhetas, mesmo criadas pelo músico, são perfeitos retratos dos roteiros dos filmes. Na que abre o CD, com “Eu não sou mais virgem... faz muito tempo”, “Ora, mamãe, você nunca fez isso com o papai?” e “Sobe aí que eu te levo para tomar um sorvete”, fica claro o que vem a seguir.

Apesar da inspiração na produção B do cinema nacional, o CD não tem nada de trash. As músicas são bem tocadas, a gravação com grande qualidade e os arranjos são verdadeiras máquinas do tempo, que remetem diretamente ao clima dos irreverentes homenageados. Numa classificação “hype”, o CD seria todo lounge, ideal para animar qualquer festinha íntima ou espaço com sofás e drinques. Inclusive, o lançamento já recebeu diversas críticas positivas nas principais revistas semanais e jornais paulistas.

Che revela que buscou nos instrumentos utilizados na época, como o vibrafone e pianos elétricos, o ponto de partida para os temas. “Para essa homenagem, tinha que começar pela sonoridade, e procurei ser o mais fiel possível”, destaca.

As músicas são maravilhas soul-funk-lounge-bossa-jazz com tempero da Boca do Lixo e uma sonoridade que remete diretamente ao que de melhor foi feito na música nacional década de 70 – aquele soul sacana, com órgão blasé, baixo estourando e os metais, quando entram, para derrubar.

“A Jeitosa do Morro”, que abre o CD após a primeira vinheta sacana com as vozes de Pereio e Helena Ramos, é um soulzão com o trambone esperto de Tiquinho, que também ataca em “Desejos Ardentes”. “Helena x Aldine” tem um clima meio caribenho, meio Henry Mancini, e “Suite para Pereio” vai para um lado meio bossa-jazz, enquanto “Sala Especial” tem um pé na disco.

Na verdade, tudo no CD, todo instrumental, tem um quê de sacanagem, ou melhor, de sacana. As músicas ficam longe do óbvio soul-funk enlatado, e viajam na sonoridade retrô que se convencionou chamar de easy listening. Mas “Sexy 70” não é som de elevador. Quer dizer, depende do que se vai fazer dentro do elevador.