08 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Beleza


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O que seria do amarelo, se todos gostassem do azul? Ditado popular, de tão discreta inspiração, reúne uma sabedoria tão velha quanto a humanidade - e talvez por isso tão alentadora.

Uma jovem e promissora artista plástica certa vez convidou um velho especialista em arte para ver, em primeiríssima mão, sua primeira mostra de telas antes da abertura oficial ao público. Olhos brilhantes e fixos na expressão do mestre, com a ansiedade própria dos jovens, fazendo suspense, abriu devagar a porta do salão de exposições. Acendeu as luzes. A partir de então, coração e mente do especialista entraram em ebulição. Como dizer àquela jovem, horas antes de seu primeiro vernissage, que o tipo de criação apresentado era, para ele, despido de qualquer beleza, em nada criativo. À medida em que olhava silenciosamente e à distância, para ter melhores ângulos, sua cabeça fervilhava com as possíveis, verdadeiras, e o quanto menos agressivas pudessem ser as observações finais que, fatalmente, lhes seriam pedidas.

Como tudo nesta vida, também aquela apreciação chegou ao fim. Após alguns minutos de silêncio, que pareceram uma eternidade para ambos, a jovem fez a pergunta tão ansiosamente contida: e então, mestre? Medindo cuidadosamente as palavras, disse o especialista: 30 anos me separam de você. Além de sermos de gerações diferentes, com que velocidade o mundo mudou nestas últimas décadas. Assim, só posso me ater aos aspectos técnicos que vão desde o material utilizado às texturas trabalhadas. Além disso, nada mais. O que é belo para você, não é belo para mim, o que não significa que a beleza esteja ausente de sua obra; eu, porém, não consigo vê-la.

Passados 20 anos, é possível que o amadurecimento tenha dado à aquela artista o pleno atendimento do que lhe foi dito, então. Na aparente saída pela tangente, estava presente importante lição: o conceito de beleza, como tantos outros, é absolutamente subjetivo. Forma-se em razão de uma série de fatores que, freqüentemente, independe até mesmo da vontade pessoal do indivíduo.

O posicionamento verdadeiro diante de qualquer situação (é o mínimo que esperam de nós), e a verdadeira empatia em relação ao outro (única condição de avaliação de um fato), poderiam ser as práticas ideais para vivermos uma ordem divina expressa, e tão simples: ama o teu próximo como a ti mesmo. A medida do amor é o amor. Se eu quero ser respeitado, querido, assistido, amparado, ajudado, estimulado, corrigido com generosidade, perdoado, essa é a receita da ação a ser praticada com o semelhante. Qualquer semelhante. É muito fácil amar os amáveis, porque simpáticos e gentis; saudáveis, porque não portadores de doenças e deficiências graves; belos porque naturalmente belos ou, em última hipótese, porque “sarados” ou “siliconados”.

Agora que o ano efetivamente começa, é hora de retomarmos aqueles bons propósitos aos quais nos dispusemos em espírito de Natal e, só assim, seremos de fato felizes.

A autora, Maria Antonia Pires de Carvalho Figueiredo, é escritora e colaboradora de Ju Machado - Escritório de Arte