08 de julho de 2026
Geral

Quando chega a hora de sair de casa

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Passar pela concorrência do vestibular pode ser apenas o primeiro desafio para quem está entrando em uma universidade. Para muitos calouros, essa é a hora de mudar de cidade e enfrentar a dinâmica de uma nova moradia.

A saída da casa dos pais, em geral, traz um gosto de independência e liberdade. Entretanto, especialmente nos primeiros meses, é comum o estudante deparar-se com alguns desafios durante o processo de adaptação.

Saudade da família, falta de domínio do espaço físico, convívio com pessoas estranhas e aumento das responsabilidades são alguns exemplos, segundo a professora do departamento de Psicologia da Unesp Alessandra Turini Bolsoni Silva. “Eles precisam de um tempo para aprender a se virar e se adaptar ao novo contexto”, diz.

Sem os cuidados do convívio familiar, morar sozinho ou em república também pode representar uma certa “perda de mordomia” e o início de uma série de aprendizados, inclusive no campo das tarefas domésticas. É o que acredita a caloura Ieda Vaisner, 19 anos, que deixou a casa dos pais na semana passada, em Descalvado (SP) e se mudou para Bauru.

“Eu não tenho muita organização, não sei cozinhar, estou aprendendo agora. Eu sempre tive tudo na mão em relação a isso, roupa lavada, passada, comida feita”, confessa a estudante. Ieda ainda não encontrou local definido para morar e está hospedada de forma improvisada em uma república. Admite que ainda se sente uma “estrangeira” em Bauru.

Apesar da insegurança e ansiedade, a estudante afirma que está estimulada com a idéia de começar nova vida em uma cidade de maior porte e considera o ingresso na universidade uma importante conquista.

Igualmente ansiosa, a estudante Mariana Augusta da Silva, 17 anos, ainda não se sente preparada para sair da casa dos pais, em Garça. Mesmo assim, está de mudança marcada para Bauru, onde vai cursar enfermagem.

“Eu vejo dificuldade porque nunca sai de casa. Eu acho que vai ser bacana morar sozinha, mas não é fácil sair do conforto de casa para ter que se virar por conta própria. Mas é necessário”, conforma-se a estudante, dizendo que a mudança será uma oportunidade de amadurecimento.

Opinião semelhante tem o estudante de engenharia elétrica Vitor Hermoso Mustacio, 18 anos, que vai sair do convívio doméstico para estrear na vida em república neste ano.

“Ficando sozinho, você tem que se virar, não vai ter mais ninguém para fazer janta, almoço, lavar sua roupa. Acho que isso é uma coisa que faz a gente aprender a viver”, avalia.

Dificuldades

A professora do departamento de Psicologia da Unesp afirma que não são raros os casos de estudantes provenientes de outras cidades que enfrentam problemas de adaptação nos primeiros meses em Bauru.

Por conta disso, foi criado há cerca de três anos no câmpus local um projeto de assistência a universitários, coordenado pela professora e desenvolvido com o auxílio de estagiários de psicologia. O projeto tem como um dos objetivos evitar a evasão escolar, já que há exemplos de estudantes que chegaram a desistir do cursos por problemas de adaptação.

A Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (USP), também desenvolve um trabalho de assistência e orientação aos calouros, potencializado nas primeiras semanas de aula. A assistente social da faculdade, Christine Habbib, diz que a mudança de cidade, a distância da família e a necessidade de convívio com pessoas estranhas, faz com que alguns estudantes procurem apoio psicológico.

Para os pais, separação também é sofrimento

Quando os filhos saem de casa para cursar uma universidade, é natural que também os pais tenham de se adaptar a uma nova realidade.

Aprender a conviver com a distância e a saudade, por exemplo, será o desafio da supervisora de ensino Maria Manuela Brito, 50 anos, moradora de Bauru. Seu único filho, Marcelo de Brito, 18 anos, passou no vestibular e deve partir hoje para Capital.

“A gente sente muito por se separar dos filhos, por não conviver mais com ele, ter um contato diário, acompanhar sua rotina de perto. Mas ao mesmo tempo a gente sente alegria por essa conquista”, define.

A supervisora afirma que tem se esforçado para não demonstrar tristeza e insegurança. “Se você fica chorando e se lamentando, atrapalha o sabor dessa vitória. O lado positivo nessa hora tem de prevalecer”, observa.

Apesar do esforço, a comerciante de Garça Geni Vicente da Silva, 39 anos, conta que não está conseguindo segurar o choro. A filha de 17 anos entrou no curso de enfermagem da Universidade do Sagrado Coração (USC) e está de mudança para Bauru.

A comerciante diz estar confiante no preparo da filha para morar sozinha, mas confessa que, mesmo antes da partida, está sofrendo de saudades. “Eu choro todo dia. Mas vou ter que acostumar”, diz.

Também a bancária de Pederneiras Elizabeth Hermoso Mustácio, 46 anos, tenta se adaptar à recente partida do filho, que veio para Bauru cursar engenharia elétrica na Unesp.

“Para mim e meu marido, agora ficou difícil. Quando chegamos em casa do trabalho, a casa está quieta e vazia”, descreve a bancária, que já tem uma filha estudando fora, no Paraná. Apesar da saudade, a mãe se mostra orgulhosa em relação aos filhos e afirma que sempre dá asas aos seus projetos.