09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Terra, planeta água, até quando?


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Acho lamentável a forma com que a humanidade caminha para seu cadafalso sem perceber que ela própria é a causa de sua destruição. Acho lamentável como a ignorância entorpece a razão e o bom senso. E é lamentável que o vereador Rodrigo Agostinho, ao tentar censurar o mau uso da água, mais uma vez receba insensatas e injustas críticas de alguns cidadãos e vereadores.

Censurar sim, pois “gasto” diferencia-se de “consumo”. Ao contrário do que alegou uma leitora que mora em Roma e outros tantos que ainda não pararam para raciocinar direito, a água faz parte do patrimônio de interesse difuso (pertence a todos, indistintamente) e, por essa razão, não pode depender do arbítrio individual para que se decida se vai ou não ser jogada pelo ralo. A água, para conhecimento dos mais desavisados, é um bem da vida finito e está com sua capacidade de renovação natural deveras comprometida. Basta se lembrar que, desde o início dos tempos terrenos (cerca de 5,5 bilhões de anos), nenhuma gota sequer de H2O foi adicionada ao nosso planeta e que, desse imenso mundão de água, apenas 0,5% está em condições de consumo.

É um erro achar que somos o “oriente médio” do líquido vital. Conquanto temos reservas imprescindíveis ao consumo global, somos os campeões mundiais do desmatamento, 98% dos esgotos são jogados diretamente nos rios, os mananciais sofrem com a destruição das matas ciliares e somos recordistas em desperdício.

Apenas cegos não percebem que estamos diante de um quadro clínico quase irreversível, caminhando para a bancarrota, e isso não é alarde falso de ONGs, mas fato real e evidente.

E, como a água é um bem de interesse difuso e coletivo, não se pode aceitar o argumento “eu pago, logo, desperdiço se quiser”, já que as conseqüências futuras serão sentidas por todos, mesmo por quem fez a sua parte no consumo racionalizado. Lavar calçadas, não arrumar vazamentos, regar a rua para assentar a poeira ou qualquer outra forma de desperdício é, no mínimo, um nefasto desrespeito e uma afronta desmedida aos milhões de infelizes que sobrevivem de cacimbas ou carregam latas na cabeça, muitos dos quais em nosso próprio país. É um luxo inaceitável vermos água clorada e fluorada escorrendo pelas guias, enquanto se luta ou se morre por ela.

A única crítica construtiva que faço ao projeto do nobre Rodrigo é que julgo desnecessário a multa ser precedida de um “aviso”, pois poderia ser sacramentada de imediato. Mas como “fazer valer a lei” e “multar infratores” é uma medida impopular num país onde o crime e a infração tornaram-se banalidade, tenho a infeliz certeza de que os demais vereadores não irão aprovar, como não o fizeram num passado recente, desguarnecendo nosso município dessa preciosidade jurídica que só nos traria dividendos a médio e longo prazo.

Fica registrado aqui, então, na condição de usuário desse patrimônio universal, meu elogio à atitude corajosa do ilustre edil. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)