Apressa em atingir os objetivos propostos é a grande responsável pelo overtraining na maioria dos casos, segundo os especialistas. Ansiosos em ver as mudanças no corpo ou em ultrapassar os próprios limites, os alunos desrespeitam o programa de treinamento elaborado pelo professor e ultrapassam os limites do próprio organismo.
“Isso é muito comum, talvez até pelo próprio modismo apregoado pela mídia. O fato é que eles não querem ter de esperar três a seis meses para ver o resultado. Eles querem ver agora e acabam exagerando”, comenta o educador físico Silvio de Araújo Fernandes Júnior.
Segundo ele, um treinamento adequado tem entre uma hora e uma hora e meia por dia. “Quando você se exercita mais de duas horas seguidas, em jejum, o organismo começa a sentir e o exercício, que deveria fazer bem, começa a se tornar prejudicial. Nos primeiros meses, o aluno não sente nada. Com o tempo, as lesões começam a aparecer”, destaca.
Na opinião da médica do esporte Fernanda Lima, chefe do Ambulatório de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas de São Paulo, o problema é agravado por uma falsa (e natural) sensação que o próprio corpo proporciona ao iniciar um esporte. Ou seja, o “fôlego” que ele sente ter pode enganar o atleta. Isso ocorre porque o aparelho cardiovascular responde mais rápido do que o aparelho locomotor aos exercícios.
“A pessoa sente que tem fôlego para fazer mais, mas o aparelho locomotor dela ainda não está adaptado para um aumento do exercício. Daí resultam as tendinites e lesões de todo tipo, principalmente nos joelhos e ombros. Algumas são graves e a pessoa precisa parar de praticar o esporte”, ressalta.
Nos parques e dentro das academias, essa falsa sensação - junto com a ansiedade - também contribui para que muitos alunos desobedeçam aos professores e aumentem por conta própria o tempo ou carga do treino. Caem em outro perigo, estimulando, muitas vezes, apenas um tipo de musculatura.
“Não pode correr e depois fazer musculação nos membros inferiores no mesmo dia. Isso vai sobrecarregar e estressar as articulações e músculos daquela região”, explica a personal trainer e triatleta Adriana Piacsek. “O mesmo vale para quem nunca correu e, em três meses, quer participar de maratona. Pode sentir que tem fôlego, mas está forçando demais o corpo”, observa.
Diagnosticar e tratar
Mas, respeitando a individualidade, como evitar o overtraining? A primeira resposta dos médicos é simples: não durma menos do que está acostumado apenas para se exercitar mais. Além disso, reserve sempre um dia para descanso e respeite pelo menos 24 horas de intervalo entre as práticas. O corpo precisa descansar.
Também é importante lembrar que sentir dores por muito tempo não é normal. Se isso estiver acontecendo, é importante procurar um médico, fazer exames de sangue e capacidade cardiovascular.
Segundo Silvio Júnior, o professor ou treinador é o primeiro a perceber o problema. “O aluno, normalmente, não fala que está sentindo dor. Mas a gente percebe porque há lesões, ele não consegue mais terminar um treino, sua capacidade aeróbia (fôlego) diminui. Nesse estágio, se ele não fizer uma pausa drástica, o quadro não melhora”, adverte.
Ele explica que o primeiro passo é reduzir a carga de exercícios para apenas 40 minutos de exercícios três vezes por semana (quantidade mundialmente recomendada para a manutenção da saúde). O segundo passo é procurar um médico para avaliar a gravidade das lesões e tratá-las. Na maioria das vezes, o tratamento exige remédios e sessões de fisioterapia.
A recuperação demora, em média, 30 a 40 dias quando não há lesões mais sérias. Depois, o aluno é orientado a retomar o treinamento progressivamente e seguindo à risca a programação feita pelo professor.
“O que acontece no overtraining é que a pessoa vem para a academia buscando saúde, exagera e acaba ganhando uma patologia. E o overtraining é um círculo vicioso. A pessoa sente cansaço, não agüenta terminar o treino, sente-se frustrada e aumenta o treinamento para compensar, agravando o problema”, reforça.
“Exercício é uma das coisas mais saudáveis que existem, desde que feito de forma adequada”, arremata a médica Fernanda Lima.