09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Madeira-mamoré - entra em cena Mad Maria


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Em 1 de agosto de 1912, a Madeira-Mamoré Railway Company (ferrovia do diabo - a mais épica das obras de engenharia civil do País) foi inaugurada em sua extensão de 366 quilômetros a um custo de 62.194 contos, pelos valores da época, equivalente a 28 toneladas de ouro, com aproximadamente 6 mil mortos. A sonhada ligação do Atlântico ao Pacífico, foi uma idéia que nasceu na Bolívia, em 1846. Em julho de 1872, a empreiteira inglesa Public Works, chegou a Santo Antônio, às margens do Madeira para iniciar as obras dessa equipe pioneira. Muitos morreram de malária, ou de outras doenças tropicais. Em 1873, foram embora, abandonando todos os equipamentos sem nenhum quilômetro de ferrovia assentado. O coronel George Earl Church, responsável pela execução da ferrovia, não mediu esforços na certeza de ganhos futuros, pois as terras eram ricas em seringais e castanhas. O mercado internacional pagava bom preço ao látex e o Brasil era o maior produtor mundial. Numa segunda tentativa, foi contratada a P. Y. & Collins, que também faliu em agosto de 1879. Church estava quebrado quando, em setembro de 1881, o governo federal cancelou a concessão para a construção da ferrovia.

Em 1903, o Barão de Rio Branco, para garantir a posse definitiva do Acre, fez um acordo com as autoridades bolivianas, indenizando-a com 2 milhões de libras esterlinas e comprometendo-se a construir a ferrovia ao longo do rio Madeira. Este acordo foi ratificado com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903. Em agosto de 1907, após comprar a concessão de Catrambi, Farquhar funda a Madeira-Mamoré Railway Company e, para evitar os fracassos de seus antecessores, Farquhar contratou médicos, enfermeiros, farmacêuticos e construiu um moderno hospital, o da Candelária, em Santo Antônio. De 1907 a 1912, 21.817 estrangeiros foram arregimentados. Farquhar chegou a contar com Oswaldo Cruz para fazer uma avaliação da insalubridade da região e da saúde de seus funcionários e com o marechal Rondon que construiu o sistema telegráfico da ferrovia.

Em 1912, a ferrovia foi finalmente inaugurada, mas a lucratividade esperada não se concretizou. O preço do látex havia caído em função da concorrência dos seringais do Oriente, a Bolívia estava com boas ligações com o Pacífico e para piorar o Canal do Panamá ficaria pronto em 1915. O complexo empresarial de Farquhar não agüentou a crise da Europa em 1913 e entrou em situação pré-falimentar. Os ingleses administraram a ferrovia de março de 1919 até 1931, quando a União assumiu. A ferrovia agonizava, velhas locomotivas a vapor estavam fora do padrão tecnológico, a degradação foi aumentando até que em 1972 os trens pararam de circular. Trens foram jogados no rio Madeira, trilhos e dormentes foram roubados, locomotivas e litorinas acabaram depredadas e muita fundição apodreceu nas oficinas de Porto Velho. Em 1980, o coronel Jorge Teixeira de Oliveira, primeiro governador de Rondônia, iniciou um processo de recuperação da ferrovia. Reativou um trecho de 7 quilômetros de Porto Velho a Santo Antônio, recuperou locomotivas e organizou o museu da ferrovia.

Até o ano 2000, o trecho funcionou regularmente, mas a queda de um bueiro a cerca de 2 quilômetros da estação principal paralisou o passeio turístico. Em setembro de 2004, o governador de Rondônia, Ivo Narciso Cassol, investiu R$ 1.000.000,00 (governo, empresas e fundações) para bancar os custos de ajuda à Rede Globo, para que essa realizasse ali a sua minissérie Mad Maria. Recuperou locomotivas, vagões, trilhos, máquinas, assentou estradas e abriu espaço na selva amazônica. A locomotiva número 10, de 1910, foi totalmente recuperada. Um hospital cenográfico, imitando o da Candelária, foi totalmente reconstruído. Fala-se hoje em recuperar 2 trechos para fins turísticos. De Porto Velho a Santo Antonio - 8 km, de Quajará-Mirim a Iatá - 28 km. Algo em torno de 36 km. Muitos vão se perguntar a partir dessa minissérie da Rede Globo: como ela está hoje? Está como foi deixada em sua desativação em 1972. Abandonada. O que se viu na Madeira-Mamoré ou Madmamrly, como os americanos a chamavam (e daí vem Mad Mary e Mad Maria), foi uma morte lenta e gradual.

E como uma fênix (ave mítica que renasceu das cinzas), a centenária guerreira de aço mais uma vez vai entrar em cena. Sempre aparece um motivo para que ela volte à vida, nesse caso, a minissérie Mad Maria. (Carlos Iunes - professor, poeta, ator e declamador)