09 de julho de 2026
Regional

Trote violento é investigado pela polícia

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Garça- A Polícia Civil de Garça (70 quilômetros a noroeste de Bauru) investiga se João Paulo Gonçalves Franco da Silva, de 17 anos, foi vítima de coação para participar de um trote. O rapaz teve queimaduras de primeiro e segundo graus na sola do pé direito ao participar da recepção para calouros promovida por alunos veteranos, no dia 31 de janeiro.

O delegado encarregado das investigações, Ricardo Luiz de Paula Martines, já identificou cinco estudantes apontados como organizadores do trote violento. O delegado diz que os veteranos poderão ser indiciados caso o laudo do Instituto Médico Legal (IML) aponte lesões graves.

Martines explica que os veteranos confirmaram em depoimento o trote, mas alegam que os iniciantes concordaram com a brincadeira. Silva confirma que participou espontaneamente apenas do corte de cabelo e da pintura no rosto e corpo. “A gente até espera, né.” Em sua versão, Silva diz que foi coagido junto com outros 15 estudantes. Ele conta que os alunos foram amarrados à caminhonete, descalços e sem camisa, enquanto o carro circulava pelas ruas da cidade. Logo em seguida, ele pediu ajuda, mas o veículo não parou.

Um dos calouros, percebendo o problema com Silva, pediu para que a caminhonete fosse parada. Daí os próprios veteranos levaram o estudante ao pronto-socorro do Hospital São Lucas, em Garça. Um laudo provisório do IML apontou que ele teve queimaduras de primeiro e segundo graus.

Silva acusa os veteranos de terem furtado um relógio e uma camisa. Seu par de tênis foi devolvido na faculdade por calouros. O delegado aguarda o depoimento de João Paulo Gonçalves Franco da Silva que será ouvido em Barra Bonita, cidade onde reside. O jovem comentou ontem ao JC que ainda não foi intimado a depor. De acordo com o delegado, outros calouros também serão ouvidos. O inquérito foi instaurado para investigar lesão corporal, crime de constrangimento ilegal (coação) e furto dos pertences.

Trauma

João Paulo Gonçalves Franco da Silva diz que não voltará a estudar em Garça. Agora, irá começar de novo, no cursinho pré-vestibular. Ele explica que ainda não conseguiu superar o trauma do trote violento. Ele pretendia cursar agronomia em Garça. O jovem acrescenta que não esperava passar por uma experiência tão violenta.

A reportagem também tentou um contato com a mãe do estudante, Maria Elisabete Bentivenha. No momento que Silva foi entrevistado, sua mãe estava no trabalho e seu celular permanecia desligado. Até o fechamento desta edição, ela não retornou o contato com a reportagem.

Alunos veteranos podem ser expulsos da Faef

O diretor da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal de Garça (Faef), Carlos Eduardo de Mendonça Otoboni, diz que os estudantes veteranos comprovadamente envolvidos no trote violento contra José Paulo Gonçalves Franco da Silva correm risco de serem expulsos. Por enquanto, a faculdade instaurou uma sindicância interna e acompanha a apuração feita pelo inquérito policial. Ele comenta que conversou, ontem, com os policiais que investigam o caso e que foi informado de que pelo menos cinco alunos veteranos estão envolvidos.

Otoboni diz que o Regimento Escolar da Faef prevê a expulsão dos estudantes. “Está previsto no Regimento Escolar. Como se fosse as leis da faculdade”, ressalta.

A mãe do aluno ferido, Maria Elisabete Bentivenha, deu declarações à imprensa de Garça afirmando que a faculdade tem a responsabilidade e deveria garantir ao aluno o direito de assistir à aula. Para Bentivenha, houve omissão da Faef na prevenção do trote violento contra seu filho.

Otoboni discorda porque entende que providências, como a sindicância interna, já estão sendo tomadas. “A escola se redime de qualquer punição em função de que as pessoas que provavelmente estejam envolvidas vão ter que responder pessoalmente na sindicância”, justifica.

Ele explica que nunca houve um problema como o que vitimou José Paulo Gonçalves Franco da Silva. Otoboni comenta que foi alterado o Regimento Interno da Faef depois da morte do calouro de medicina da USP, Edison Tsung Chi Hsueh. Este estudante foi encontrado morto na piscina da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, em fevereiro de 1999, depois de um trote promovido pelos veteranos da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Conforme o diretor da Faef, foi adotada uma cláusula que proíbe qualquer tipo de atividade caracterizada como trote violento.

Ele ressalta que a faculdade tem a precaução de solicitar aos veteranos que não façam a costumeira recepção aos calouros. Otoboni ressalta que o trote solidário, muito praticado pelas instituições de ensino como alternativa, se caracteriza como apologia ao nome “trote”. “A gente não pratica nenhum tipo de trote. A gente procura aqui dentro da escola evitar qualquer tipo de contato desse tipo (trote). Aqui dentro eles são orientados e nem se atrevem a fazer isso.” Ele acrescenta ainda que a faculdade sempre foi muito rígida em relação ao trote dentro de suas dependências. Conforme o diretor, já no primeiro dia de aula é dado matéria, chamada em sala de aula e registradas faltas para quem está fora.