09 de julho de 2026
Bairros

Blitz leva temor do desemprego a vendedores de churrasquinho

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Luciana La Fortezza

Nem a animação dos clientes aglomerados no entorno da churrasqueira é capaz de espantar a preocupação de parte dos ambulantes que vendem espetinho de carne nas calçadas de Bauru. Para eles, a blitz intensificada na última semana pela Seção de Controle de Gêneros Alimentícios da Vigilância Sanitária, órgão da Secretaria Municipal da Saúde, anda de mãos dadas com um velho conhecido: o desemprego.

“Me agarrei a isso por falta de opção. Eu estava desempregado. Depois de trabalhar oito anos na Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB), saí sem receber nada. Quase perdi minha casa (por causa das prestações atrasadas). Cortaram água e luz. Consegui sobreviver assim”, conta um deles, que pediu para ter o nome preservado por medo da fiscalização.

Conforme o JC veiculou, nesta semana, sete pontos foram vistoriados. Todos descumpriam as exigências sanitárias. Em quatro deles a churrasqueira foi apreendida e, em outros dois, a carne foi descartada por estar armazenada de forma inadequada. “Agora estou trazendo menos carne porque se a fiscalização vier, eu não perco tudo. Se me multarem, vou tentar negociar. Se me proibirem, levarei minhas contas para eles pagarem. Vou tirar dinheiro como? Ou então, terão de me dar emprego na prefeitura”, ameaça um outro ambulante, que também pediu para não ser identificado.

Depois de “quebrar” como paisagista, a família dele quase passou fome, diz. Mas graças ao churrasquinho, o ganha-pão foi garantido. “Desde que as fiscalizações voltaram, eu e a minha mulher não dormimos mais. Tenho carro para pagar. Estou com medo”, confessa, mostrando parte dos espetinhos vendidos ao preço de R$ 1,00.

A comercialização lhe garante renda média superior a R$ 2 mil mensais. Mesmo assim, na opinião dele, os recursos são insuficientes para possibilitar a abertura de um bar ou restaurante que respeite as exigências da Vigilância Sanitária. Se depender dele, a churrasqueira improvisada e o isopor para acondicionar a carne não sairão de uso.

“Quem abre um negócio, quebra. Esse negócio é assim mesmo. Tem que estar na rua. O cliente está passando, pára e pede um. Ninguém vai pegar uma condução para comprar num lugar. Se recolherem minhas coisas, no dia seguinte eu estou de volta. Não sou ladrão. Não estou fazendo nada de errado. Mostro as notas da carne. Se quiserem organizar e cobrar imposto, tudo bem. Mas não querem negociar com a gente”, acrescenta um terceiro ambulante, há seis anos no ramo.

Já Sílvio Ramos de Oliveira entrou para o segmento ontem e não teme as fiscalizações da Vigilância Sanitária. “A carne fica na geladeira. No preparo, nem encosto nelas. Minha mão é limpa. Não tem como ter problema. Quer experimentar?”, convida o novo ambulante.

Código é implacável

O Código Sanitário Municipal é implacável com os ambulantes que vendem churrasquinho nas ruas. De acordo com ele, ou os trabalhadores informais locam um imóvel e providenciam uma reforma pautada nas exigências sanitárias, ou abandonam a atividade. Não existe meio termo.

“Se a gente não fiscalizasse, a Vigilância Sanitária estaria prevaricando. Intensificamos a vistoria porque as queixas aumentaram. Os munícipes reclamam da fumaça e da sujeira que fica na calçada”, informa a chefe da seção de Controle de Gêneros Alimentícios da Vigilância Sanitária, Marisa Grazziano.

No entanto, durante a blitz realizada nesta semana, outros problemas foram identificados. Entre eles, carne fora da temperatura adequada e falta de cuidados como luvas, máscaras e toucas. Ontem, três pessoas que incorreram nas falhas procuraram a Vigilância Sanitária para solicitar informações sobre as exigências do código.

Um deles, proprietário de um estabelecimento que vende espetinho de carne, foi autuado em R$ 491,85 por comercializar o produto de maneira irregular. Em caso de reincidência, ele pagará o dobro. “Ainda não temos registro, mas a carne imprópria para o consumo pode provocar intoxicação alimentar”, afirma Grazziano.

Neste caso, o consumidor pode sofrer com diarréia, vômito e, em alguns casos, febre.

Fernando Henrique Matos de Souza, cliente de um dos cerca de 100 ambulantes que trabalham na cidade, nunca passou por isso. “Como churrasquinho todo dia. Eu moro perto, não resisto ao cheiro. Acho que deviam deixar do jeito que está”, diz ao defender o amigo ambulante. Estima-se que o produto seja vendido em 630 pontos de Bauru, incluindo os 100 informais.