08 de julho de 2026
Geral

Regras ‘matam’ setor aéreo brasileiro

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

O bauruense Ozires Silva, 74 anos, já deixou o setor aeronáutico após dedicar praticamente toda a vida à aviação, mas continua sendo uma das maiores autoridades do mundo no assunto. Nesta condição, o criador e primeiro presidente da Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer) não hesitou em culpar o governo pelo turbilhão de dificuldades que praticamente engoliu as empresas aéreas do País.

Em visita a Bauru, onde participou de uma aula inaugural numa faculdade e de uma reunião para definir detalhes sobre a homenagem a um antigo aviador bauruense, Silva lembrou que todo o serviço de transporte aéreo no mundo é uma concessão pública e que, no Brasil, o poder concedente (governo federal) mantém uma regulamentação absolutamente ultrapassada.

“Quando o governo federal fala dos problemas das empresas aéreas, ele precisa ver que a maior parte de tudo isso que está acontecendo foi criada por ele próprio”, diz Silva, ressaltando que, por isso, “cabe a ele (governo) resolver”. “Neste caso (crise do setor), o governo não é juiz; é réu”, completa.

Uma prova disso, sustenta Silva, é que as companhias com as maiores dificuldades são justamente as mais antigas. “Se quisermos ter empresas saudáveis, precisamos modernizar todo o sistema, refazendo as atuais regras que estão ‘enferrujadas’. E cabe ao governo criar uma regulamentação inteiramente nova, como, aliás, fizeram todos os países do mundo”, defende, ressaltando que o transporte aéreo é um elemento fundamental para o desenvolvimento de qualquer país, em especial de um com as dimensões continentais do Brasil.

Questionado sobre a validade das recentes medidas adotados pelo governo para socorrer as empresas aéreas em dificuldades, Silva é taxativo e irônico: “Quais medidas?”. Ele lembra que o ministro José Dirceu (Casa Civil) propôs que a situação fosse resolvida com uma “solução de mercado”. â€œÉ uma declaração vaga. Como adotar uma ‘solução de mercado’ se todos os insumos do setor vêm do governo, que não age segundo os critérios do mercado?”, questiona.

No caso específico da Varig, empresa que presidiu entre 2000 e 2003, Silva lembra que uma “solução de mercado” seria um encontro de contas, já que a empresa deve ao governo que, por sua vez, também deve à empresa. “A Varig é uma das melhores marcas que o Brasil tem, conhecida mundialmente. E o governo está jogando esta marca no vinagre”, dispara.

Ele lembra que, em 1993, o presidente dos EUA, Bill Clinton, declarou ao Congresso que a aviação civil é um “recurso essencial” para o desenvolvimento da nação, que deveria ser balizado pelo tripé desafio-supremacia-competitividade. “A partir disso, foi criado lá (EUA) um sistema legal que garantisse esses três elementos ao setor”, relata, lembrando que o setor aéreo norte-americano detém 45% do mercado mundial, enquanto no Brasil ele é deficitário.

Um exemplo desta gestão governamental equivocada, diz Silva, é a construção do aeroporto em Bauru. “Agora surge o debate sobre o que fazer com aquilo. Mas isso tinha que ser feito antes do início das obras. Afinal, tem dinheiro público ali”, diz.

Ele destaca que no mundo todo a tendência nas grandes cidades caminha para aeroportos centrais, lembrando que, para isso, os ingleses aterram parte do rio Tâmisa e os japoneses fizeram o mesmo com um trecho do mar. “Todo mundo está puxando os aeroportos para o centro das cidades e nós, na contramão, o expulsamos”, compara. Silva garante que, segundo os mais modernos conceitos, o complexo do Aeroclube bauruense, com algumas adaptações, deixaria a cidade bem servida na questão do transporte aéreo.

Homenagem a Zico

O ex-presidente da Embraer Ozires Silva participou ontem de reunião no Aeroclube de Bauru que definiu o dia 14 de maio para homenagear o cinqüentenário da morte do aviador bauruense Benedicto César, o Zico. Considerado um prodígio, Zico adquiriu seu brevê de piloto com apenas 12 anos de idade. Amigos de infância, Ozires Silva e Zico lideraram um grupo de entusiastas da aviação no Aeroclube local.

A trajetória dos dois, que adentraram juntos, em 1948, na Força Aérea Brasileira (FAB) como cadetes do ar, só foi interrompida em 1955 quando Zico morreu, aos 26 anos, num acidente durante um treinamento militar. “Ele tinha uma visão de futuro espetacular, a mesma que adotei na luta pela criação da Embraer”, diz Silva. “A homenagem quer trazer de volta este espírito empreendedor que era comum em Bauru”, completa.

Para a solenidade, que contará com o apoio do Jornal da Cidade e será precedida de um ato na Câmara Municipal, está prevista a presença de autoridades federais, como ministros e o alto comando do Departamento de Aviação Civil (DAC). Os organizadores também planejam a apresentação de um grupo de caças da mesma base onde Zico serviu.