08 de julho de 2026
Cultura

Válvulas do som

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

De olhos fechados, a impressão que se tem é de estar ouvindo um show ao vivo. Ao abrir os olhos, dá-se conta de que, na verdade, o som fiel está sendo reproduzido por um dos aparelhos Hi-Fi confeccionados no quintal do aposentado Carlos Pinheiro, no Jardim Coral, em Bauru.

Trata-se de um tipo de máquina que atualmente não é mais fabricado no Brasil e que era mais comum na primeira metade do século passado. Com o advento dos transístores, pelos idos de 1950, os aparelhos de som tornaram-se mais baratos e populares do que o Hi-Fi, que utiliza sistema de válvula e que praticamente foi abandonado, por ser mais caro.

A qualidade do som, entretanto, é incomparável. Com o sistema antigo, o som reproduzido é encorpado e aveludado. Além disso, não há distorção, mesmo com volume máximo do aparelho.

“Você pode abrir todo o volume que não tem distorção. A distorção de um transístor, com um pouquinho acima do meio, já racha. Não tem como. A qualidade do som do transístor é áspera”, frisa o aposentado, que curte música clássica em seu Hi-Fi, nas horas vagas.

“Isso aqui é para pessoas que têm ‘ouvidos bons’. É uma relíquia. Não é qualquer um que tem. A pessoa tem que gostar. Quando você ouve uma ópera, parece que você está ouvindo a pessoa cantar na sua frente. Isso porque o sinal de áudio passa através dos filamentos da válvula. E passa puro. No transístor, é por meio de corrente”, explica.

Um aparelho de Hi-Fi pode ser plugado a um aparelho de CD, DVD ou a um televisor. Antes de ligá-lo, é preciso aquecê-lo por cerca de 15 minutos.

História

Confeccionar esse tipo de aparelho no Brasil e, principalmente, em casa, é uma coisa rara. O próprio Carlos desconhece outra pessoa que se dedique à mesma arte. “Eu sei que tem um em São Paulo, mas ele não faz todas as peças que eu faço em casa, como o transformador de saída. Ele importa. Dá para contar no dedo quem faz”, garante o morador do Jardim Coral, responsável inclusive pelo design de cada aparelho.

Ele, por sua vez, é autodidata. Aprendeu sozinho a entender e copiar sistemas diferentes de aparelhos de Hi-Fi. “Eu comecei por necessidade. Eu tive que aprender porque meu chefe mediu para eu arrumar um rádio para ele. Tinha queimado um transformador. Então me veio a idéia de começar a trabalhar com isso. Fui praticando, até chegar onde cheguei”, diz.

Hoje, o aposentado recebe encomendas de pessoas de diversas cidades do Estado, inclusive da Capital. “As pessoas pedem para eu fazer um idêntico ao que elas viram na Internet, de outros países, e eu faço”, orgulha-se.

As únicas peças importadas são as válvulas. E é justamente delas que depende o preço final de cada Hi-Fi. Um de 30 Watts de potência por canal, por exemplo, e com válvulas norte-americanas (consideradas as melhores) custa até R$ 2.600,00. “E 30 Watts é um absurdo num Hi-Fi. Você não consegue ouvir porque é um som muito alto”, enfatiza Carlos. Um Hi-Fi importado, de mesma potência, pode chegar a custar US$ 4.000,00.

A qualidade total do som depende também das caixas de falantes. “A caixa tem que ter qualidade, com forração interna, amortecimento, etc. Tem uma série de fatores na caixa em si. Tem que ser um casamento entre ela e o Hi-Fi”, orienta.

Serviço

Encomendas de Hi-Fi com Carlos Pinheiro podem ser feitas através do telefone (14) 3232-8234.