08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador


| Tempo de leitura: 4 min

Óia o gás

“Nos meus tempos de moleque, eu sempre passava boas temporadas com meus avós em Santa Branca, numa chácara na beira do Paraíba. Quando estava por lá, meu avô vira e mexe dava um jeito de me carregar com ele para pescar ou andar pelo mato; às vezes só nós dois, outras com alguns dos tantos amigos que ele tinha espalhados por lá.

Coisa que o véio Carlos gostava muito era de sair com uma turma de Taubaté para caçar tatu. Quem conhece o Vale do Paraíba sabe do morraréu que é a região e dá para imaginar o que seja caçar tatu por aquelas bandas.

Era bonito ver o pessoal se juntar na casa de um deles, sojigar a cachorrada assanhada que parecia adivinhar a noitada, arrumar os enxadões e lampiões de carbureto e sair no caminhãozinho do seu Dito Florêncio para a fazenda de algum conhecido.

A solta da cachorrada era uma festa! Subir pelo espigão da serra acompanhando o rumo da matilha pela pastaria, a correria morro acima e morro abaixo atrás do levante, até a acuação... A trabalheira de cavar rápido pra não deixar os bichos fugirem.

E tinha ainda a pior parte, que era quando eles me mandavam tirar o tatu da toca. Diziam que, como garoto miúdo, era minha a obrigação de enfiar o dedo no c... do bicho “pra mór dele relaxá” e ser puxado pelo rabo porque dedo grosso de homem podia estragar alguma carne de comer! Coisas que marcaram demais a minha infância e que faziam eu me sentir importante, metido naquele mundo de gente grande.

Um tempo depois que meu avô foi fazer companhia para São Pedro, bateu a saudade e eu fui a Taubaté rever aquela turma. Fizeram uma baita festa quando eu apareci e, para comemorar, marcaram uma corrida aos tatus no dia seguinte.

Quando o pessoal começou a se juntar para a caçada, estranhei a falta dos cachorros e da algazarra que eles faziam. Estranhei, mas não dei parte. Porém quando o povo subiu no caminhão sem levar nenhum enxadão, eu não agüentei:

- Gente, nós vamos caçar tatu sem cachorro nem enxadão!?

Caíram na gargalhada, contaram que tinham “miorado a ténica” e que em Taubaté o povo também tava ficando modernoso. Só mostraram para mim uns bujõezinhos de gás, daqueles barrigudinhos de usar com lampião. Segurei firme a curiosidade de perguntar mais, esperando para ver o que é que ia sair daquela caçada sem cachorro nem ferramenta!

Quando chegamos na fazenda, descemos do caminhão e começamos a andar pelos pastos procurando os buracos de tatu, eu meio com cara de besta atrás deles.

Foi daí que o Zé da Zica gritou que tinha achado! Chegamos lá junto dele e eu vi uma toca bem com jeito de cavocado fresco. Pegaram o bujão de gás com uma mangueirinha atochada no bico, enfiaram o que podiam dela no buraco e abriram a válvula bem devagarzinho.

Pois não é que daí um trisco o tatu saiu da toca, todo troncho, trançando as pernas, tontinho por causa do gás! Foi só pegar pelo rabo e colocar no saco, que ele nem fez questão de espernear como tatu de respeito!

A turma toda morreu de rir com o meu espanto e quando reclamei que não tinha a graça das caçadas de antes, responderam que ninguém ali tinha mais idade para ficar subindo e descendo morro na correria atrás dos cachorros.

Não passaram dois anos, recebi um convite deles para um churrasco e mais uma corrida aos tatus à noite. Apesar de não ter o mesmo gosto, a mesma emoção das caçadas de outros tempos, resolvi ir para matar a saudade do pessoal.

Churrasco caprichado pro visitante, roda de papo animado junto de um corote da branquinha, eles contaram que eu ia ter uma surpresa. Escovado já da outra vez e para cutucar os brios deles, perguntei se agora tavam caçando tatu no pio! O Dito Florêncio só me olhou meio assim de lado, com aquele jeitão de gozador dele e disse rindo:

- Arrespeita os mais véio, moleque!

Quando saímos atrás dos tatus, percebi que eles pegaram só uns sacos de aniagem... nem um cachorro, nem enxadão, nem bujão de gás! Me segurei para não dar parte de curioso e esperei pra ver no que aquilo ia dar. Afinal, caçar tatu sem cachorro eu já tinha visto, mas sem o gás era novidade!

Chegamos na fazenda escolhida, lugar bonito e sossegado e saímos procurando até chegar num canto de mato que era daqueles bem no jeito de ter bastante tatu. Era ali que ia ser a caçada. Saímos andando e eles começaram a gritar:

- Ói o gás! Ói o gás!

Vocês podem duvidar, mas eu juro que é verdade! A tatuzada começou a sair dos buracos e era só o pessoal abaixar e mostrar o saco, que eles iam entrando direitinho... tinha uns que até faziam fila pra não perder a vez!!!”

Oscar de Azevedo Nolf é pescador, contador de histórias e foi classificado em segundo lugar no concurso de Causos de Pescador, da Revista Virtual Pescarte (www.pescarte.com.br)