As organizações não-governamentais (ONGs) envolvidas nos trabalhos de preservação das regiões de fundos de vale concordam que a situação de degradação de áreas já trabalhadas por ambientalistas só sofrerá um retrocesso a partir de ações educativas e do envolvimento das comunidades.
Uma das experiências neste sentido acontece no projeto de recuperação do fundo de vale do Córrego do Barreirinho, manancial localizado entre o núcleo Bauru 2000 e o Jardim Flórida. Implementado pelo Instituo Ambiental Vidágua com financiamento do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro), o projeto foi desenvolvido a partir de uma iniciativa da comunidade local.
A necessidade de envolver a população da região na iniciativa propiciou, inclusive, o surgimento da ONG Sociedade Amigos para a Cidadania e Meio Ambiente, criada para promover ações educacionais principalmente nas escolas dos bairros adjacentes ao córrego. â€œÉ mais fácil educar as criançasâ€, diz José Raul Franco Canheti, diretor de meio ambiente da ONG.
Mesmo assim, ele admite que o trabalho não é fácil e os resultados podem surgir somente no médio prazo. Afinal, o projeto desenvolvido no Córrego do Barreirinho, a exemplo do que acontece em outras bacias, sofre com os “ataques†do homem, que vão desde a soltura de animais de criação, passando pelos incêndios criminosos, até deposição de lixo doméstico em áreas cercadas de reflorestamento. Por tudo isso, Canheti estima que, dos 34 hectares reflorestados nas duas margens do córrego, pelo menos cinco hectares já tenham sido totalmente perdidos.
O diretor de meio ambiente da ONG insiste, no entanto, que ações educativas podem frear a atual situação. Para ele, as redes estadual e municipal de ensino deveriam adotar como obrigatória a disciplina de educação ambiental. “Precisamos criar um novo conceito de preservação ambiental e entusiasmar as novas geraçõesâ€, defende. Canheti anuncia que, com a volta às aulas, a Sociedade Amigos para a Cidadania também retomará sua agenda de palestras nas escolas estaduais João Maringoni, Padre Jorge Lima e Ada Cariani.
O coordenador de projetos do Fórum Pró-Batalha, David Geraldo Pompei, concorda com a proposta de obrigatoriedade da disciplina, mas reforça que as ações educativas visando a preservação do trabalho das ONGs têm de ser pontuais, específicas para cada iniciativa.
“Nossas ações de recuperação das matas ciliares precisam, obrigatoriamente, agregar a educação ambiental das comunidades atingidasâ€, defende Pompei. “Só a educação resolve este problema, juntamente com o envolvimento da comunidade, que precisa entender que os benefícios (da recuperação dos mananciais) serão revertidos para ela mesmaâ€, completa Ivan de Marche, diretor-executivo do Vidágua.
Ações repressivas, porém, são rejeitadas por todos os envolvidos, até mesmo em certa medida pelo poder público, que teria instrumentos para isso. O titular da Secretaria do Meio Ambiente, Carlos Barbieri, reconhece os problemas surgidos no Córrego do Barreirinho após o reflorestamento. “Se há problemas com cavalos, devemos envolver a comunidade e, por exemplo, criar uma associação de carroceiros para debater a situação e encontrar saídasâ€, diz. “Só não dá para ficar reprimindo sempreâ€, completa.
Barbieri, porém, acredita que ações mais incisivas podem ser adotadas em casos específicos. Ele sugere, por exemplo, o envolvimento dos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs) e da própria prefeitura, através da Secretaria de Planejamento (Seplan), na retirada dos rebanhos das áreas preservadas. Para isso, ele invoca a lei municipal 4.286, de 1998, que impede a presença de grandes animais na área urbana.