A mesma água que hoje é jogada rua abaixo cada vez que se lava a calçada poderá valer como ouro num futuro muito próximo. Com pouca oferta, o recurso hídrico do planeta vai ser supervalorizado e se transformar em preciosidade.
Pensando nisso, empresas multinacionais já reservam o seu quinhão. Comentários no cenário econômico dão conta de que companhias como Nestlé e Coca-cola já começaram a corrida pelo novo “ouro”, adquirindo reservas com fontes pelo mundo inteiro. “A água mineral será o ouro do século 21”, diz o ecologista e psicólogo Alexandre Chut.
De acordo com o vereador e secretário do Instituto Vidágua, Rodrigo Agostinho, a preocupação das multinacionais em ter domínio sobre as fontes é meramente comercial. “Elas estão investindo em algo que hoje é abundante, mas, no futuro, poderá esgotar”, salienta.
E não precisa ir muito longe para observar essa tendência. Em Bauru, uma empresa criada há sete anos já nasceu com o objetivo de aproveitar melhor o recurso esgotável.
O diretor da companhia, Silvio Luiz de Moura Leite, conta que decidiu abrir o negócio depois de assistir uma reportagem na tevê. “Eu estava querendo montar uma empresa. Na Copa do Mundo (de futebol) de 98, vi uma repórter falando que tinha pago US$ 1,00 num copo de água na França. Achei um absurdo”, diz.
Depois de pesquisar bastante sobre o assunto, ele decidiu investir na comercialização do produto de uma maneira diferente. Mandou fazer um poço artesiano profundo, de onde retira o recurso para envasar. Para ganhar em diferencial, ele apostou na gaseificação da água e numa distribuição porta-a-porta, com o uso de vasilhame retornável, que não polui o meio ambiente.
A aposta foi certeira, avalia o diretor da empresa. “Hoje atendemos pessoas de 120 municípios, inclusive de outros Estados”, ressalta.
Fonte particular
Com o intuito de pagar menos pelo bem líquido, grandes consumidores estão optando por retirar o recurso diretamente do lençol freático. É o caso dos condomínios e das indústrias, que perfuram poços em busca de uma fonte particular de água. Rodrigo Agostinho estima que há em Bauru cerca de mil poços, sendo grande parte deles irregular. “Algumas regiões da cidade já devem estar no limite de fornecimento de água”, acredita.
O controle da perfuração é feito pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (Daee), que é quem autoriza a abertura dos poços.
O diretor de serviços do órgão em Bauru, Luiz Erasmo Zimmermann, apresenta um número mais moderado que o do vereador ambientalista. Ele destaca que hoje há 220 poços profundos regularizados em Bauru e estima um número semelhante de perfurações clandestinas. “Não existe uma estimativa oficial, mas acreditamos que haja pelo menos um número igual aos regularizados”, frisa.
Os setores mais interessados em conseguir a autorização para ter um poço profundo são as indústrias, os postos de gasolina e os supermercados, de acordo com o Daee.
Lençol subterrâneo
Rodrigo Agostinho faz um alerta: “engana-se quem pensa que está livre da escassez de água só porque possui um poço em suas terras”.
Ele explica que os lençóis subterrâneos também são esgotáveis e podem acabar por excesso de retirada. “Se faltar água, vai faltar para todo o mundo”, diz.
Ele explica que na Cidade do México, por exemplo, o solo já cedeu 17 metros por causa da extração desenfreada de água do subsolo. “A água retirada não é reposta na sua totalidade, principalmente porque o solo está menos impermeável devido à camada asfáltica e de concreto”, salienta.
Outorga para exploração
O diretor de serviços do Departamento de Águas e Energia Életrica do Estado de São Paulo (Daee), Luiz Erasmo Zimmermann, explica os critérios para a outorga de direito de poços profundos:
Jornal da Cidade - O que é preciso para perfurar um poço? Luiz Erasmo Zimmermann- Do ponto de vista da autoridade estadual, o usuário deve procurar uma empresa idônea que conheça a legislação estadual e que possua um geólogo capacitado orientá-lo sobre as providências legais para a obtenção da outorga do direito de uso. O Escritório de Bauru do Daee está à disposição dos usuários para orientação e esclarecimentos.
JC - Quais os critérios para a outorga? Zimmermann - Os recursos hídricos (águas superficiais e subterrâneas) constituem-se em bens públicos que toda pessoa física ou jurídica tem direito ao acesso e utilização, cabendo ao Poder Público a sua administração e controle. Se uma pessoa quiser fazer uso das águas de um rio, lago ou mesmo de águas subterrâneas, terá de solicitar uma autorização, concessão ou licença (outorga) ao Poder Público.
O uso mencionado refere-se, por exemplo, à captação de água para processo industrial ou irrigação, ao lançamento de efluentes industriais ou urbanos ou ainda à construção de obras hidráulicas como barragens, canalizações de rios, execução de poços profundos, etc. A outorga de direito de uso ou interferência de recursos hídricos é um ato administrativo, de autorização ou concessão, mediante o qual o Poder Público faculta ao outorgado fazer uso da água por determinado tempo, finalidade e condição expressa no respectivo ato. Constitui-se num instrumento da Política Estadual de Recursos Hídricos, essencial à compatibilização harmônica entre os anseios da sociedade e as responsabilidades e deveres que devem ser exercidas pelo poder concedente. No Estado de São Paulo, cabe ao Daee o poder outorgante, por intermédio do Decreto 41.258, de 31 de outubro de 1996, de acordo com o artigo 7.º das disposições transitórias da Lei 7.663/91. (RA)
Serviço
O telefone do Daee em Bauru é (14) 3203-3699.