09 de julho de 2026
Articulistas

Profeta do futuro


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Ó tempos! Ó costumes! Severino Cavalcanti, o novo presidente da Câmara dos Deputados, promete a “alvorada de um novo tempo”. Como o sábio Zaratustra, que anunciava, “entre uma aurora e outra, uma nova verdade”, Severino se apresenta como o profeta do futuro, dando a acreditar que conceitos tão opostos como grandeza do Legislativo, aumento de benefícios para os deputados (promessas registradas em cartório) e posições radicalmente fechadas contra pesquisas científicas em células-tronco sejam harmônicos entre si e, mais que isso, compatíveis com demandas sociais. É como se o slogan “H2O, Severino é o maior”, que o novo presidente da Câmara usou na década de 70 em suas campanhas, tivesse algum nexo. O discurso severino - amálgama de folclore, conservadorismo, expressão do chamado baixo clero - funcionou como contraponto ao estilo autoritário, arrogante e impositivo do governo petista. O embate na Câmara resultou na mais extravagante operação política contemporânea: o antiquado venceu o moderno, o baixo ganhou do alto, o menor superou o maior, ou, em outros termos, o PT derrotou a si mesmo. Quem diria que o veneno petista sairia de seu próprio laboratório?

Severino inaugura um tempo de democracia representativa com alto grau de sinuosidade. O lema será: um dia no cravo, outro na ferradura. Se não será um “empecilho” ao conterrâneo Lula, com quem se identifica no currículo sem diploma, também não será linha auxiliar do Planalto, sendo este um ponto de honra de sua plataforma. Inicia-se uma era cunhada com a moeda TT, Taxa de Traição, calculada no overnight em 30%, e cujo escopo é o “dando que se recebe”. (Já anunciou, para breve, aumento de salários para os deputados.) Eis o dilema: como fazer reforma política, premente diante do escândalo de troca de siglas, quando os severinos estarão rezando bem alto a oração “venha a nós o vosso reino?” Os “clérigos”, no gozo do paraíso, venderão caro a alma ao senhor todo-poderoso do Planalto. E pedirão dobrado para mudar regras do jogo. Será difícil qualquer mudança profunda que possa vir a calar o personalismo. O baixo clero descobriu que o voto tem poder de veto. E, quando este poder se transforma num bom cavalo de batalha, é pouco provável pô-lo a serviço da disciplina partidária.

O governo petista, diga-se, extrapolou no desrespeito às instituições e à sociedade. Exagera na imposição de MPs, aperta o bolso de contribuintes, massacra pequenos setores produtivos, despreza atores principais, ignorando relações institucionais com partidos, nivela-os por baixo quando os utiliza como meios de passagem de deputados, pinça nomes do bolso do colete, manobra com a força da máquina, nomeando dez ministros para viabilizar a campanha do petista à presidência da Câmara.

O PT não sabe fazer articulação política. Parece macaco em loja de louças. Há maneira de recuperar parcela do poder que perdeu? Sem dúvida, mas o tributo será bem mais gordo que o pago até o momento. Não apenas pelo despertar do novo clero, que de eclesiástico não tem nada, como pela mudança que se opera no meio social. O fato é que as vozes das ruas centrais se tornam fortes.

Sinais de esquentamento começam a se sentir. São Paulo registrou o maior movimento que já se viu no País nos últimos tempos: 1.111 organizações se uniram contra a MP 232, que onera o setor de prestação de serviços, entre outros. As universidades públicas e privadas se mobilizam contra a proposta de reforma universitária do governo. À insatisfação contra a fúria arrecadatória se junta o medo social da violência em expansão. A expressão de tudo isso é uma onda de contrariedade (um tsunami ou, como diria o presidente, um vendaval) que, alastrando-se no meio da sociedade, poderá chegar às margens antes que Lula e seus ministros despertem da letargia. O governo perdeu os sentidos. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)