Com o perdão do trocadilho, “Menina de Ouro”, filme de Clint Eastwood sobre uma garçonete disposta a se tornar pugilista, nocauteou “O Aviador” de Martin Scorsese na 77ª Cerimônia do Oscar e consagrou o diretor veterano como um dos defensores do cinema autoral e com espírito independente, ainda que incluído na indústria de Hollywood.
Erros
Surpresa quando o “Fantástico” deu lugar na programação da Rede Globo às indicações para o paredão do "Big Brother". E o Oscar, onde fica? Fica que a transmissão, de volta à Globo após cinco anos com o SBT, começou com mais de 40 minutos de atraso.
O jornalista Renato Machado ficou a cargo da apresentação, enquanto o ator José Wilker, comentarista da noite, fazia alguma brincadeira sem graça, ocultando as piadas do apresentador da cerimônia, Chris Rock.Apesar dos esforços da tradutora, Machado se atrapalhou em todos os momentos em que se atreveu a atuar também como tradutor.
No entanto, nada foi pior do que o áudio do estúdio da Globo vazando na transmissão, com direito a tosse e sussurros. Pensando bem, o Oscar de pior gafe vai mesmo para Machado, que conseguiu errar o nome da cerimônia. Saudades da Babi e da Maria Cândido, que pelo menos não falam “Oscár”.
A premiação confirma que “Menina de ouro” foi realmente o melhor filme americano do ano e evidencia a carreira de Eastwood, 74 anos, que partiu da atuação em filmes comerciais, como a série “Dirty Harry” e os faroestes spaghetti, e evoluiu para produções autorais, a maioria delas como protagonista e defensor dos roteiros. Nos últimos anos, sua produção partiu do western “Os Imperdoáveis”, passando por histórias emocionantes e dramáticas, como “As Pontes de Madison”, momentos políticos como “Poder Absoluto” e até mesmo divertidas discussões sobre a velhice em “Cowboys do Espaço”.
A consagração de “Menina de Ouro” vem com os prêmios de melhor filme, diretor, melhor atriz para Hilary Swank, e ator coadjuvante para Morgan Freeman – aplaudido de pé pelos colegas no Kodak Theatre. As vitórias demonstram como uma história relativamente simples e que teria todos os elementos para se tornar um melodrama de lágrimas inúteis consegue se transformar num filme magnífico, enérgico e emocionante nas mãos de um diretor no auge de seu talento. Com um filme maduro, de câmera segura e diálogos precisos, ele prova que ainda tem muito a dizer - e que seu melhor já está vindo.
Apesar de as apostas apontarem certo favoritismo para “O Aviador”, cine-biografia do bilionário Howard Houghes, isso se dava mais pelas consecutivas derrotas do diretor Martin Scorsese em premiações anteriores (concorreu por “Touro Indomável”, “A Última Tentação de Cristo”, “Os Bons Companheiros” e “Gangues de Nova York”) do que pelo produto final.
Os aspectos técnicos, definitivamente, mereceram seus Oscar, mas o filme é elegante demais ao focar o roteiro nos feitos de Hughes das décadas de 1930 e 1940, concentrando apenas seus amores, paixões e manias. Ao final da projeção, a impressão é de que algo está faltando. O perfeccionismo de Scorsese alcançou seu limite, infelizmente, em um filme mediano em sua carreira.
No quesito “Sem surpresas”, ninguém poderia tirar o Oscar das mãos de Jamie Foxx pela “incorporação” de Ray Charles em “Ray”. Já o Oscar de melhor canção para o uruguaio Jorge Drexler, por “Al Otro Lado del Río”, do filme “Diários de Motocicleta”, foi como uma compensação por ele não ter interpretado a música na cerimônia. Por ser a primeira música em espanhol já indicada ao Oscar, sua vitória não é de todo surpreendente, e afinal, a música era a melhor entre as indicadas. O discurso de Drexler não poderia ser outro: ele, enfim, pode cantar a música.