09 de julho de 2026
Polícia

Mulheres são 58% dos vitimizados

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 7 min

Quem é mais vitimizado pela violência, o homem ou a mulher? Pesquisa feita pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) revela que em Bauru 58% das vítimas de algum tipo de agressão - física, material ou moral - nos 12 meses anteriores ao estudo são do sexo feminino.

Os homens representam 42% das vítimas. Em 2000, no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Bauru era composta por 51,1% de mulheres. Além da maior porcentagem de mulheres atingidas por algum tipo de violência, a pesquisa revelou que a maioria dos vitimizados tem entre 18 e 45 anos, é casada, possui ensino médio completo e tem renda familiar entre dois e quatro salários mínimos.

Ou seja, as vítimas são pessoas economicamente ativas, que por isso transitam mais pela cidade, comenta a professora Maria Inês Fontana de Souza, que coordenou a pesquisa. “As vítimas são pessoas que trabalham, que estudam, que saem à noite, e as mulheres, cada vez mais, têm esta rotina. A mulher deixou de ser elemento passivo na sociedade, mas por outro lado, continua mais frágil fisicamente”, diz.

Porém, ela pondera que os pesquisadores observaram que os homens são menos abertos a expor a situação de violência sofrida. “O homem é mais reticente. Na hora da entrevista, se era feita em casa, muitas vezes eles indicavam a mulher para responder o questionário”, frisa.

A pesquisa foi feita no segundo semestre do ano passado e o resultado final e servirá de base para a Polícia Militar (PM) planejar suas ações de combate e prevenção aos crimes. Alunos do terceiro ano do curso de serviço social da ITE, orientados pela professora Maria Inês, sob a supervisão da professora Egli Muniz, entrevistaram 252 pessoas de todas as regiões da cidade que haviam sofrido algum tipo de violência no último ano. A designer Erica, 28 anos, que prefere não ter o nome completo divulgado porque ainda não superou o trauma do seqüestro-relâmpago sofrido em janeiro deste ano, se encaixa no perfil da vítima revelado pela pesquisa. Ela foi abordada pelos ladrões quando estacionava o carro próximo a um bar da cidade, onde iria encontrar-se com amigos.

Ela teve bolsa, documentos, cartões bancários e dinheiro roubado, foi colocada no porta-malas do carro e pensou que iria morrer. Só foi liberada, várias horas depois, próximo a Borebi. “Ainda estou com dificuldade para sair à noite sozinha. Tenho medo de estacionar o carro longe de onde vou. Mesmo que seja durante o dia, olho pelo retrovisor para ver se não tem alguém suspeito. Tenho certeza que, se eu fosse homem, eles (os ladrões) não teriam me assaltado como assaltaram”, diz.

Com a experiência de ter organizado uma pesquisa de vitimização em Marília, Sueli Andruccioli Félix, coordenadora do Grupo de Pesquisa de Gestão Urbana do Trabalho Organizado (Guto) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) daquela cidade, comenta que há uma série de fatores que levam as mulheres a serem mais atingidas pela violência.

“A mulher saiu de casa, trabalha e tem vida social. Ela está se expondo muito mais, passou a ser grupo de risco, e é mais frágil fisicamente. Por outro lado, ela está mais consciente de seus direitos e por isso denuncia muito mais que antes. Ela assumiu uma postura muito parecida com a do homem”, frisa.

Sueli ressalta, porém, que ainda é alto o índice de crimes contra a mulher, principalmente os de violência sexual, que não são notificados. É o caso da auxiliar de serviços gerais Elisabete Cruz, que conta que foi agredida pelo marido três vezes para depois procurar a polícia. “Ele começou a brigar porque, nos feriados, eu saía tarde do meu trabalho. Ele não queria que eu trabalhasse, muito menos que chegasse à noite”, relata.

Após várias brigas e três agressões que lhe deixaram marcas pelo corpo, ela fez a denúncia à polícia e separou-se do marido com quem vivia há nove anos e teve dois filhos. Mas Sueli comenta que nem todas as vítimas de violência doméstica têm a mesma iniciativa de Elisabete. “Falta estrutura para atendê-la, local para abrigá-la”, critica.

51% notificam

Uma outra revelação feita pela pesquisa de vitimização é sobre a notificação dos crimes. Dos entrevistados, 51% disseram que não informaram a polícia ou outro órgão sobre o fato ocorrido. Na avaliação do capitão Wellington Luiz Dorian Venezian, comandante da Companhia de Força Tática da Polícia Militar, o índice de Bauru é alto.

“Uma pesquisa feita em São Paulo, em 2003, apontou que 35% das vítimas comunicavam a violência ocorrida. Este índice de Bauru, de 51%, significa a maior credibilidade da polícia e dos órgãos públicos”, opina.

Ele acredita que a descrença da vítima que o Estado possa dar o resultado esperado e a burocracia na hora de comunicar a violência são os principais entraves para aumentar o índice de notificação.

Outro item pesquisado é a incidência da violência ao longo da vida. Dos entrevistados, 45% disseram que foram vítimas de violência uma única vez; 25%, duas vezes; 13%, três vezes; 11%, mais de cinco vezes e 6%, quatro vezes.

Furto é o crime mais comum

pesquisa feita pela ITE revelou que o furto é a violência mais comum em Bauru. Dos vitimizados, 52% disseram que foram vítimas de furto; 21% sofreram danos materiais e 10% foram roubados. Em 2003, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública, foram registrados 7.538 furtos em Bauru.

A dona de casa Maria de Lourdes Fernandes Ferraz, que mora no Parque União, faz parte das vítimas de furto. Neste ano, sua casa foi invadida duas vezes. “Na primeira, em 23 de janeiro, entraram quando só minha filha estava em casa, tomando banho. Roubaram jóias, celular, bolsa com documentos e R$ 30,00. Chamamos a polícia, que acabou achando a carteira em um terreno baldio com os documentos”, conta. Porém, os outros itens furtados não foram recuperados.

Ela suspeita que o ladrão entrou pela janela, que estava aberta. Alguns dias depois, Maria de Lourdes deparou-se com um rapaz em sua cozinha. “Eu me assustei e ele também. Era um moleque de uns 14, 15 anos. Eu disse para ele sair por onde havia entrado e ele saiu pela janela sem levar nada”, relata ela que depois da ocorrência ergueu o muro e colocou sobre ele cacos de vidro para tentar impedir novas invasões. “Também mandei fazer grades para as janelas e portas”, diz.

Mesmo assim, afirma que não vive mais tranqüila. “Moro aqui há 34 anos e isso nunca havia acontecido. Agora a gente vive de portas e janelas fechadas”, revela.

A professora Maria Inês Fontana de Souza diz que a pesquisa confirmou que furto é a principal preocupação da população com segurança. “Isto ficou muito claro com a pesquisa e com a explanação da PM. A cidade tem homicídio, mas o que mais preocupa a população são os furtos. E diante disso fica o alerta: ao sair de casa, não levar todos os documentos - dar preferência à segunda via -, não andar com muito dinheiro”, orienta.

Outro dado importante também revelado pela pesquisa é relativo ao número de agressores: 17% dos entrevistados disseram que foram vítimas de uma pessoa e 10% que os agressores eram mais de três. Também importante é a informação relativa à presença de arma na ocorrência. A maioria, 60% das vítimas, não viu armas contra 23% que foram ameaçadas por arma. Os 17% restantes não souberam informar.

Resultado ajudará PM a planejar ações

resultado da pesquisa de vitimização servirá de base para a Polícia Militar (PM) direcionar suas ações de combate ao crime, explica o capitão Wellington Luiz Dorian Venezian, comandante da Companhia de Força Tática. “A pesquisa é importante porque envolveu vítimas de violência que registraram a ocorrência e também as que não registraram, tornando o resultado o mais próximo da realidade o possível. Hoje, a PM foca sua atuação com base nos registros de crimes. Não conhecíamos o perfil do que não era registrado e agora podemos fazer planejamento estratégico com base nesta pesquisa”, frisa Wellington.

Após analisar o resultado da pesquisa, a PM já está fazendo algumas mudanças, segundo Wellington. “Estamos redirecionando o estacionamento estratégico das viaturas, que era definido com base nas estatísticas de crimes. Agora também consideramos o resultado da pesquisa, que apontou a mulher como mais vitimizada que o homem. O patrulhamento orientado, que consiste na circulação de viaturas por vias pré-determinadas, também está sendo revisto com objetivo de reduzir o índice de agressão das mulheres”, comenta.

A PM, de acordo com o capitão, também está estudando como realizar trabalho educativo voltado às pessoas que se encaixam no perfil do vitimizado visando a redução de crimes.

Para Sueli Andruccioli Félix, coordenadora do Grupo de Pesquisa de Gestão Urbana do Trabalho Organizado (Guto) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, a pesquisa de vitimização é muito importante no planejamento de ações de segurança pública. “Como se planeja uma ação de prevenção se não se conhece o panorama da violência?”, questiona.