Certa vez, uma mulher passeava pela montanha com uma criança de colo. Num certo momento de sua caminhada, deparou-se com uma caverna. Foi então que a mulher ouviu uma estranha voz interior que lhe dizia: “Entra, mas não esqueças o mais importante”. Tomada pelo espanto, a mulher ficou paralisada, sem saber o que fazer, mas a voz insistiu por três vezes. Diante de tal insistência, a mulher decidiu entrar.
Para sua surpresa e admiração, a caverna estava repleta de objetos maravilhosos de uma riqueza indescritível como jamais havia visto igual. Admirada com o que estava diante de seus olhos, colocou a criança no chão e, num ato impulsivo, começou a recolher, em seu avental, tudo o que podia e que mais lhe interessava. A voz interior por mais uma vez insistiu: “Não esqueças o mais importante”.
Ignorando o real sentido destas palavras, a mulher continuava a pegar tudo o que podia. Passado algum tempo, a voz advertiu: “Você só tem mais seis minutos para sair, depois não poderá mais voltar. A porta será fechada”. Assustada, ela correu para fora carregando as riquezas que havia encontrado e a porta se fechou com um barulho estrondoso. Quando se encontrava prostrada ao chão admirando aqueles objetos maravilhosos e imaginando o que poderia fazer com tudo aquilo, lembrou-se do mais importante: a criança!
Ao analisarmos o nosso pensar e o nosso agir, podemos constatar que somos influenciados pela nossa carga genética, pela cultura de nosso povo, pela educação que recebemos de nossos pais, pela convivência agradável ou desagradável de pessoas à nossa volta. Desta forma, o nosso pensar e o nosso agir muitas vezes reproduzem idéias e comportamentos de outros.
Apesar de todas as influências que podem condicionar o nosso ser, nós, pessoas humanas, possuímos uma grande capacidade para a originalidade. O ser humano não está simplesmente condicionado ao que a natureza e sua cultura determinam, mas possui condições para criar seu próprio caminho, elaborar sua própria forma de ser e de se expressar em seu universo. “Deixe que cada um exercite a arte que conhece” (Aristóteles).
Através desta capacidade de ser original, o ser humano conquista aquilo que chamamos de autonomia. O privilégio de escolher nosso estilo de vida ou estabelecer para nós mesmos normas que desejamos seguir demonstra o grau de nossa autonomia. Este privilégio vamos conquistando no exercício livre de escolha das poucas ou diversas alternativas que possuímos à nossa frente.
Ao optarmos pela alternativa que verdadeiramente desejamos, vamos nos libertando das dependências, condicionamentos e determinismos naturais, econômicos, sociais e culturais. Portanto, o caminho de libertação, de criação da autonomia, da satisfação de sermos autênticos e originais consiste no hábito de pensar.
Damos o primeiro passo para a conquista da autonomia quando nos percebemos como seres pensantes. A autonomia está intimamente ligada ao exercício do pensamento. Com o hábito de pensar, com o exercício da razão, nos descobrimos, conhecemos nossa história individual e social, projetamos nosso futuro e sentimos a vontade de sermos donos de nossa própria história. “Líderes se desenvolvem, não são fabricados” (Charles Handy).
Conquistamos nossa autonomia à medida em que nossas escolhas diante de qualquer alternativa se tornem cada vez mais conscientes. Em outras palavras, somos autônomos quando sabemos o porquê de estarmos fazendo determinada opção. Mesmo que, muitas vezes, sejamos obrigados a realizar o que não desejamos, este ato, apesar de não ser livre, será consciente, desde que saibamos o seu porquê.
A autonomia não consiste somente em fazer o que quiser, mas sim em estar consciente de nossos movimentos, suas origens e para onde eles nos conduzem. “A única coragem é falarmos na primeira pessoa” (Arthur Adamov).
Sem dúvida alguma, a forma mais eficiente de retirar a autonomia de um ser humano é diminuir sua capacidade de pensar por si mesmo. Às vezes, o nosso pensar se torna prisioneiro de uma caverna escura. No ritmo alienante da sobrevivência ou em busca de “riquezas” que podemos perder da noite para o dia, nos esquecemos daquilo que, uma vez adquirido, nunca ninguém pode nos tirar: o hábito de pensar, o conhecimento sobre a vida, os horizontes amplos da cultura. “Ignorante não é aquele sem instrução; é aquele que não conhece a si próprio” (Krisnamurti).