08 de julho de 2026
Articulistas

Severino e Lula


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Baixou um pouco a poeira, mas ainda se ouve e se lê muita bobagem a respeito da eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados. Ele tem sido vítima do mesmo preconceito que move as críticas ao comportamento do presidente Lula quando ele fala direto e sem rodeios ao povo, ferindo os delicados ouvidos de algumas pessoas que se julgam a elite intelectual e política do Brasil. A crítica, a posteriori, ao fato de que ele prometeu durante a campanha aumentar os salários dos parlamentares, é de uma enorme hipocrisia, pois todos os demais candidatos à presidência da Câmara empenharam sua palavra no mesmo sentido. A diferença é que o novo presidente defendeu francamente a sua posição perante os eleitores e na mídia, sem nhenhenhém ou subterfúgios.

Por não pertencer ao PT (cujo candidato derrotou), mas sim ao Partido Progressista, muitos analistas se apressaram em concluir que a vitória de Severino Cavalcanti iria resultar em grandes dificuldades para o governo. Nada mais tolo do que imaginar uma situação de confronto entre os poderes Executivo e Legislativo. Isso só pode passar pela cabeça de quem não conhece nada da personalidade de Lula e Severino. Os dois obedecem a padrões de comportamento muito semelhantes e defendem os mesmos valores familiares e religiosos, o que tende a aproximá-los e deve facilitar muito a solução de litígios que são normais num regime de democracia plena como o que estamos vivendo.

Uma das coisas que o Executivo terá que compreender é que a Câmara dos Deputados passará a agir com mais independência na questão das Medidas Provisórias. É compromisso do presidente Severino coibir o exagero da emissão de MPs que desde o governo passado vem atrapalhando o funcionamento do Congresso. A Câmara fará a avaliação do propósito das MPs que só terão curso se seu conteúdo atender às exigências do rito constitucional: o Executivo só deve recorrer a elas quando puder demonstrar que se trata de matéria de altíssima relevância e urgência. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, esse procedimento vai eliminar algumas dificuldades sérias no relacionamento entre os Poderes, pois destravará a pauta das votações na Câmara, agilizando a aprovação de matérias de interesse do próprio governo.

Esta eleição para a presidência desvendou uma outra particularidade do funcionamento da atividade parlamentar que nem sempre é bem avaliada: na Câmara dos Deputados a palavra vale, a despeito de tudo o que se diz aqui fora. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP)