Ao contrário da performance física, a utilização da inteligência emocional ainda é incipiente no esporte. Para o médico esportivo e jornalista Osmar de Oliveira, esta é a ferramenta que pode fazer a diferença na busca por resultados na área esportiva. Em entrevista exclusiva ao JC, o professor universitário fala sobre a dificuldade de inserção da psicologia no futebol e as oportunidades que podem se abrir em matéria de resultado de grupo.
Osmar de Oliveira concedeu entrevista após proferir palestra sobre qualidade de vida no Sesc-Bauru. Formado em medicina pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Sorocaba-SP, Oliveira tem no currículo inúmeros cursos de especialização para aplicação no ramo, como a formação em medicina esportiva realizada na Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP).
O atual jornalista de programas esportivos da TV não parou de clinicar. Também atuou com o bauruense Antonio Carlos Barbosa, técnico da seleção brasileira de basquetebol feminino, na condição de médico da equipe entre 1976 e 1986. Leia os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Como médico da área esportiva, como o senhor vê a busca da alta performance e a exposição do atleta ao limite, ao esgotamento?
Osmar de Oliveira - Acho que deveríamos ver essa pergunta por outro lado. Acho que a busca pela performance virou resultado físico e isso enfeiou o futebol. Porque quando você vai para uma disputa de bola, você tem duas opções. Ou você vai com a força ou com a técnica. E com a força você erra menos. Além do que os árbitros permitem. Então eu vejo jogadores de meio de campo, mesmo habilidosos, que preferem ir com a força bruta para uma disputa de bola ao invés de usar a perspicácia, a malícia da marcação. E isso deixa o futebol muito truncado. Por outro lado, quando se busca uma performance física, com o desespero com que as pessoas buscam, você faz o futebol extremamente corrido, só que dos dois lados. Se fosse de um lado só, teríamos o contra-ataque, que pode ser um lance maravilhoso no futebol. Agora não, você faz o contra-ataque e às vezes o zagueiro que é um homem maior, mais pesado, de pouca habilidade, chega até antes na bola do que um atacante que é leve, habilidoso. A busca da alta performance leva a um esporte mais truncado, mais feio.
JC - A performance física mudou o futebol brasileiro?
Osmar - Quem tinha esse hábito da força, da excelência da preparação física era o europeu. Enquanto ele teve isso, o Brasil foi vice-campeão mundial em 1950, foi campeão em 1958, 1962 e 1970. De repente, nós começamos a europeizar a preparação física brasileira no futebol e nos igualamos fisicamente a eles. Só que com isso perdemos em habilidade. Nesse período, a única coisa que sobrou foi o Telê Santana, que montou as seleções de 1982 e 1986, muito mais baseadas na habilidade, técnica e deslocamento, do que na força. A seleção de futebol de 1998, por exemplo, foi uma equipe exclusivamente de força. No mesmo time que tinha o Romário, tinha o Dunga. Com todo o valor que o Dunga teve, ele foi um jogador de força. Na seleção do Felipão, que não costuma chamar grandes jogadores de força, foi convocado um meio de campo que não era força bruta, mas força motriz, de poder de marcação. Aí vieram jogadores do tipo do Kléberson, que corriam e corriam. Não eram craques, mas tinham sua função no time. Se você pedir para jovens escalarem os 20 melhores volantes que eles viram na vida, quase nenhum vai falar do Kléberson, por exemplo. O Brasil está perdendo um pouco com essa fórmula de apostar mais na força. A Folha (de São Paulo) publicou matéria maravilhosa uma vez na qual dizia que, na final da Copa de 1970, a prosa brasileira venceu a poesia clássica italiana. Naquela época, nós ainda éramos assim. Hoje não mais.
JC - Mas é possível paralelo entre a preparação da geração Bernardinho no vôlei com o futebol força?
Osmar - Não dá para comparar porque no vôlei estuda-se cada gesto, reação, jeito de bater na bola de seis jogadores em quadra. Fora isso, o campo é muito maior, as variações são maiores; no futebol há contato físico e no vôlei não. Mas é possível hoje você pegar um time e quantificar jogador por jogador em todas as características físicas, com força, velocidade, impulsão horizontal, vertical, deslocamento, potência, arranque. Isso é possível. Aí você teria os 11 melhores do ponto de vista físico. Necessariamente esses 11 não serão titulares, porque a habilidade com a bola não pode ser medida, só observada. Nem no vôlei é possível medir a habilidade. O que você tem no vôlei é a visão que o atleta tem do lance, se ele tiver atrás na quadra, se tiver na ponta, no meio. Por isso, às vezes, o levantador pode não ser o melhor preparo físico do time, mas quando ele sai do time, o rendimento da equipe cai.
JC - O esporte evoluiu na busca da performance física. Mas como fica o aproveitamento da inteligência emocional?
Osmar - Esse é o grande problema. Essa inteligência emocional, uma palavra extremamente moderna, falta no futebol. De todas as ciências paralelas ao futebol, a medicina, educação física, nutrição, fisiologia, a única que não chegou ainda no futebol foi a psicologia. Houve arremedos práticos e temos psicólogos brilhantes no futebol. Tem em Belo Horizonte (MG), tem a Regina Brandão em São Paulo, servindo a seleção brasileira. Mas ainda não ganharam a confiança do treinador de um modo geral. Os treinadores parecem que têm medo do psicólogo. A idéia que se tem leigamente do psicólogo é de alguém que está no grupo olhando seu comportamento, o que não é verdade. Então, eles ainda não conseguiram mostrar o valor que têm.
JC - A psicologia é usada como no futebol então?
Osmar - O que os psicólogos medem hoje no esporte de uma forma geral, inclusive no futebol, é um teste chamado Poms, em que você mede o nível de ansiedade de cada pessoa para aquele dia. E conforme o resultado que dá, você pode sugerir ao técnico que um atleta está melhor que o outro por causa dos fatores medidos no teste.
JC - Que peso o senhor dá à personalidade do técnico, com seu estilo, para a performance do grupo?
Osmar - Isso é extremamente fundamental quando o técnico consegue impor ao grupo seu método de trabalho e este método é aceito pelo grupo. Mas vamos pegar duas personalidades completamente distintas no futebol, o Wanderley Luxemburgo e o Tite, duas formas de trabalhar completamente diferentes. É possível que um psicólogo trabalhe muito bem com os dois com essa característica de conduta diferenciada de cada um. O que o psicólogo não pode é querer modificar isso. Se você está em um time como psicólogo sabendo que o Felipão é aquele técnico que fala de família e de amor, com aquela macheza do gaúcho, pode fazer com que o grupo incorpore essa característica. No caso do Luxemburgo, o comando é pelo conhecimento tático, técnico, pela malandragem, por enxergar o jogo e por uma característica que é muito típica dele: em todo time, ele identifica o líder, vê quem manda e enquadra o cara. Isso ele fez com o Edmundo, Romário e Marcelinho Carioca. Ele tem esse estilo que é para que os outros jogadores se mancarem. O psicólogo inteligente extrai disso uma grande lição para o grupo. Embora o futebol seja um esporte totalmente diferente dos outros, sui generis no sentido de você aglutinar formações culturais muito diferentes. É possível conciliar. O Sócrates foi o líder da democracia corintiana e junto com ele estava o Casagrande, que não possui os dotes culturais que o Sócrates tem.
JC - O baixo nível cultural no futebol é um obstáculo ao trabalho com os jogadores?
Osmar - Esse também é um dos grandes problemas. Mas, às vezes, não é bem a inteligência, mas a transformação rápida, a mudança meteórica de condição social. Pega o Robinho do Santos há três anos. Ele ganhava R$ 5 mil por mês e estava nos juniores do time. De repente, ele vai para o time principal com o Leão e o presidente do clube manda o técnico se virar com a molecada. Na época, no estúdio da Record, o Leão comentou conosco que mandaram pra ele um negrinho magrinho, com as pernas fininhas e hoje ele já vale US$ 30 milhões, teve a mãe seqüestrada, mora em um apartamento de cobertura e aplica no Citibank. E esses meninos não são formados para isso. É muito difícil. Eu estava falando com o Vagner Love, que era do Palmeiras, ao telefone esta semana. Ele ganhava no ano passado R$ 7 mil por mês. De repente, o presidente do clube viu que ele poderia ir embora a qualquer momento e, para aumentar o valor da multa na federação, o menino passou a ganhar R$ 100 mil, largou o subúrbio do Rio de Janeiro e veio morar em um apartamento em Perdizes, São Paulo. Hoje ele já ganha US$ 100 mil por mês em um país que tem um frio desgraçado e que não possui cultura de futebol, que é a Rússia. É muito difícil se adaptar a essas mudanças. A transformação é brutal.
JC - O Zico, técnico da seleção japonesa, comentou em entrevista recente que o excesso de fraturas com os jogadores de lá poderia estar associado à alimentação. Ele disse que ia inserir feijão no cardápio do oriental. Isso é folclore ou tem sentido?
Osmar - Acho que é folclore de entrevista. O Zico tem grandes sacadas e essa é uma. Não significa que você não comendo feijão não fabrique célula óssea. Tanto assim que o Éder Jofre perdeu um título mundial lutando contra um japonês e não tinha nada a ver com osso. Mas quem vê o futebol japonês vê um esporte sem maldade, sem malícia, mas com jogadores muito atabalhoados. Eles correm, dão muito carrinho e se machucam bastante pelo choque, pelo exagero. As fraturas lá ocorrem menos pela deficiência de alimentação.
JC - Os problemas que surgiram com coração na prática do esporte são de natureza congênita?
Osmar - Tenho o privilégio e até um pouco de orgulho em tratar desse tema, porque o primeiro departamento integrado, que hoje é moda, de times de futebol do Brasil, foi do Corinthians, quando eu estive lá, em 1974, junto com o professor de educação física João Paulo Medina. Éramos um grupo, com médicos, professores, já tinha fisiologista, nutricionista, psicólogo, etc. Naquela época, a gente já tinha começado a trabalhar as coisas mais em grupo e isso deu certo. Já fazíamos exames cardiológicos de pré-temporada. Naquele tempo não tinha o ecodoplercardiograma, mas havia a bicicleta ergométrica. Tivemos um caso sério com o goleiro do Corinthinas Paulo Rogério, que depois foi afastado do futebol. Pra você surpreender esses problemas, sobretudo os cardíacos, haveria necessidade de os clubes, com a responsabilidade social que têm, se responsabilizarem pela saúde de seus atletas. Hoje, São Caetano, Santos, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Vasco, Cruzeiro, Internacional, Atlético Mineiro e Paranaense fazem exames, mas fica por aí. Se você considerar em um final de semana todos os jogadores inscritos em federação, o total é de 12 a 15 mil atletas atuando. Duvido que 1% deles tenha feito os exames que os clubes grandes fazem. Quase sempre os problemas relacionados ao coração vêm da infância, de origem congênita. A morte do Serginho, por via trágica, acabou trazendo um grande benefício para o futebol, que é a cobrança desses exames. O centroavante do próprio São Caetano, Fabrício Cavalho, teve seu problema descoberto em função do caso do colega. Todo mundo começou a fazer exames mais caprichados.