09 de julho de 2026
Cultura

Profissão: figurinista

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

O cinema, o teatro, a dança, a televisão e a publicidade são feitos de muitos elementos, desde a criação, o roteiro, até a iluminação e a edição final. Um deles, no entanto, é um dos grandes responsáveis pela credibilidade que uma peça, um filme, uma novela ou um espetáculo deseja passar. Afinal, como é possível crer que aquele personagem é integrante de um grupo de centuriões e gladiadores se ele está vestindo uma calça jeans?

Esse é o trabalho do figurinista – não criar roupas, mas sim trajes que concretizem o conceito que o diretor criou para cada um dos personagens. O trabalho é inteiramente ligado ao do diretor de arte, que na realidade atua como um coordenador de todos os elementos presentes na cena: os figurinos, os acessórios, os cenários, os objetos e a luz, entre outros.

Na opinião de Audrey Galli, professora do curso de artes cênicas da Universidade do Sagrado Coração (USC), o trabalho de um figurinista se difere de um estilista justamente pela função das peças que cada um cria. “Quando falo para um ator, figurinista, para o profissional de cênicas, jogo sempre para a realidade do palco, porque não é como a moda, que tem uma psicologia mais endógena, do que as pessoas vão usar nesse ano, as tendências do mercado, as cores. Figurino é ligado ao texto. Muitas vezes é atemporal, então você precisa de uma pesquisa para a época determinada. A preocupação do figurinista não é lançar uma roupa nem uma fantasia”, diz.

Audrey explica que o trabalho do figurinista é muito ligado ao diretor, que é responsável pela linha criativa e o conceito de uma peça, filme ou novela. “Não se trabalha sozinho. Não pode deixar totalmente na mão do figurinista, porque o diretor precisa determinar o que ele quer. O figurinista então pesquisa, discute sobre toda a perspectiva da personalidade dos personagens e retorna com as pranchas de desenhos, que serão discutidos e aprovados ou refeitos”, relata.

“Retrato” e cinema

A bauruense Caia Guimarães já atua como figurinista há 12 anos, especialmente em trabalhos na TV e na publicidade. Nos últimos anos, ela também teve duas incursões pelo cinema, com os longas “Cristina Quer Casar” e “O Casamento de Romeu e Julieta”, atualmente em cartaz nos cinemas de Bauru. Responsável pelos figurinos do quadro “Retrado Falado”, com Denise Fraga, no “Fantástico”, ela comenta que entrou na profissão um pouco por acaso.

“Eu vim para São Paulo para dançar, entrei em um grupo e uma das pessoas era figurinista. Eu o ajudava a fazer figurinos do grupo quando ele foi chamado pela TV Cultura para fazer o “Ra-Tim-Bum”, e me chamou para ser sua assistente. Comecei a me interessar, fui fazendo cursos, aprendendo a desenhar e estou nessa há 12 anos”, conta Caia.

Ela destaca que os trabalhos para “O Casamento...”, do diretor Bruno Barreto, foram intensos especialmente por conta das pesquisas sobre os elementos do futebol. No filme, uma palmeirense interpretada por Luana Piovani inicia um relacionamento com um corinthiano, interpretado por Marco Ricca, com a oposição das famílias torcedoras.

“Tivemos uma pesquisa grande em relação a coisas de futebol, no sentido de quem era esse pessoal, os cartolas, os torcedores. Junto com as informações que o Bruno ia trazendo, a gente vai criando uma historinha: onde ele mora, que carro ele tem, que marcas ele veste, em que lojas ele compra. Procuro criar esse perfil”, explica a figurinista.

Segundo Caia, as maiores dificuldades foram as cenas do filme com muitas figurações, como as tomadas no estádio com as torcidas e o casamento dos personagens. “Tivemos dias de filmagem no estádio em que tínhamos 300 figurantes, então tinha de vestir 300 pessoas rapidamente. Não poderia haver um logotipo ou marca de nenhum patrocinador. O mais difícil é o desgaste da quantidade, de não deixar nada passar. A cena do casamento também tinha mais de 300 pessoas. Foi mais corrido”, relata.

Já no “Retrato Falado”, a figurinista tem um trabalho um pouco mais tranqüilo. Ela destaca que o quadro trata de histórias reais, então uma das principais preocupações é não ofender os participantes da história, mesmo que interpretados por atores.

“Temos muita brincadeira com as histórias de décadas passadas. É um quadro de humor, então pode-se brincar um pouco. Só não podemos fazer caricatura, afinal são histórias de pessoas. Procuramos saber como é aquela pessoa de verdade. Como tem quadros de 1960, 1970, é bem gostoso também a cada hora desenvolver a pesquisa dos estilos de cada época”, observa.

Caia foi levada para a TV Cultura (e começou a trabalhar profissionalmente como figurinista) por outro profissional, Carlos Alberto Gardin. Ele é o principal responsável pelos figurinos das peças do Grupo Ato, de Bauru e já está na profissão, exclusivamente, há 15 anos.

“Atualmente eu faço de tudo: teatro, cinema publicitário, dança, festas. Tenho uma empresa de figurino e outros produtores que trabalham comigo. Com o tempo, acabei criando um acervo de figurinos, tenho essas peças abertas para locação. Lido até com esse lado comercial”, brinca Gardin.

Ele ressalva que a atuação do figurinista no mercado publicitário é a que proporciona menos liberdade de criação. “São muitos profissionais envolvidos, tudo é muito filtrado até chegar ao figurinista. É uma encomenda muito específica. O lado artístico é muito tolhido. Já no teatro, você participa do dia-a-dia, acaba desenvolvendo as coisas de forma laboratorial. Já fiz peças em que o grupo e eu fizemos juntos todo um figurino com lixo. Isso foi o máximo”, relembra.

Para Gardin, o mais importante no conceito de figurino é a liberdade que o traje deve proporcionar a um ator ou dançarino. “Todos os meus trabalhos têm uma noção de conforto e de leveza. O figurino não pode atrapalhar o ator e virar um trambolho em cena. Ele tem que complementar o personagem”, finaliza.

Mercado

O mercado para os profissionais de artes cênicas, como os figurinistas, vem ganhando abertura nos últimos anos, na opinião de Audrey Galli, professora do curso de artes cênicas da Universidade do Sagrado Coração (USC). Ela comenta que os salários também estão melhores.

“Antigamente, a profissão praticamente não existia. As companhias menores e mais amadoras não têm essa cultura, mas quem trabalha com profissionalismo vê um pivô importante. Hoje em dia, o espaço está crescendo”, diz.

Ela destaca a necessidade de complementação da formação em artes cênicas. “Além de fazer uma faculdade de cênicas, o ideal é fazer um curso de desenho de moda, buscar um curso técnico de estilismo ou especialização. E precisa seguir a carreira de cênicas e conhecer teatro a fundo”, orienta.

A figurinista Caia Guimarães ressalta a abertura do mercado nos grandes centros e especialmente em São Paulo. “Em algumas cidades, ainda é uma coisa muito restrita. O campo maior é em São Paulo, nas TVs e na área de cinema, que está em alta. A publicidade também é muito forte”, conclui.